Há pouco tempo, quando presidia a recentemente extinta Fundação Instituto Jourdan de Pesquisa e Planejamento para o Desenvolvimento Urbano e Econômico Sustentável de Jaraguá do Sul (Instituto Jourdan), discutíamos em reunião na Associação Comercial e Industrial de Jaraguá do Sul, com os representantes do setor imobiliário, sobre as possibilidades de mudanças na necessária revisão do plano diretor organizacional do município, em especial, através dos índices urbanísticos e das regras que poderiam qualificar o espaço urbano.

Uma das questões que tem sido intensamente defendida pelos urbanistas e especialistas em segurança mundo afora é a qualidade do espaço urbano e o quanto uma cidade viva (ruas e praças com atividades) incrementam os seus níveis de segurança.

Foto: Divulgação

O simples fato de, no embasamento dos prédios, serem previstas áreas para estabelecimentos comerciais e serviços que, preferencialmente, tenham suas atividades estendidas ao máximo em seus horários de funcionamento, conferem ao seu entorno imediato uma zona onde as pessoas circulam e até permanecem de forma muito mais confortável e segura.

Isso se explica pelo conceito “olhos na rua” defendido por Jane Jacobs que é quando as pessoas, consciente ou inconscientemente, circulam ou observam a rua a partir de suas sacadas, varandas e, em especial, a partir das “fachadas ativas” que são esses espaços comerciais e de serviços no nível da rua.

Outros aspectos importantes impactam positivamente uma cidade quando nossas calçadas são bem cuidadas e brindadas com as chamadas fachadas ativas: a caminhada fica mais estimulante com as atrações das vitrines e encontros das pessoas e, com o aumento do hábito de caminhar mais, a cidade e as pessoas ganham em qualidade de vida, mobilidade e, naturalmente, os negócios são ativados em todos os cantos da cidade.

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Há estudos, por exemplo,  que comprovam incrementos no volume de negócios entre 15 a 20% em ruas dotadas de ciclofaixas e calçadas confortáveis.

Mesmo que, na revisão do plano diretor os índices possam ser trabalhados de modo a  incentivar resultados urbanos mais favoráveis, alguns investidores/incorporadores estão se antecipando e apostando no que temos chamado de “gentilezas urbanas” como decisões mais generosas e qualificadoras em seus empreendimentos  (espaços privados e semi públicos ) de forma a impactar o espaço urbano imediato, colhendo a valorização de todo um setor da cidade e, consequentemente, em seus próprios empreendimentos.

Tivemos a recente e prazerosa tarefa de desenvolver um projeto para um desses visionários empreendedores.

Desde as primeiras conversas os sócios deixaram em relevo o desejo de entregar algo mais aos seus clientes e, no decorrer do processo, tivemos a certeza que estávamos diante de um empreendimento com evidente responsabilidade social e promotor de gentilezas urbanas.

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O projeto trata de um edifício de 12 pavimentos que foi desenvolvido para um centro executivo que trouxesse em seu DNA características e premissas para abrigar empresas e usuários com visão e perfil contemporâneo de sustentabilidade.

Bicicletário, banheiro com chuveiro e vestiário para que os ciclistas se troquem, coleta e armazenamento de água de chuva, placas fotovoltaicas para captação de energia solar e, na sua construção, tecnologias de menor impacto ambiental e sustentabilidade são características marcantes e quase exclusivas deste empreendimento.

O nível de captação e consumo de energia solar poderá ser acompanhado, em tempo real, a partir de um painel de monitoramento na recepção do prédio. Um exercício de conscientização.

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No pavimento térreo, ao invés dos característicos muros e paredões, um recuo avarandado de 5 metros que abrigará mesas e um amplo café configuram um convidativo lugar de encontro e de refúgio diante da característica aridez urbana de nossas cidades.

Certamente este será o melhor espaço com esse fim na região central da cidade. Empreendimentos como esse vão reconfigurando, aos poucos, a cidade como lugar de encontro.

*Arquiteto e Urbanista Ronaldo de Lima