Sou mulher. Tenho 37 anos. Sou mãe de um menino de nove anos e de uma menina de sete meses. Trabalho fora e em casa. Tenho uma rotina agitada e dupla como se chama o dia a dia das mulheres que decidiram não abrir mão da realização profissional e nem da maravilhosa experiência de ser mãe. Quando penso nos avanços que nós mulheres conquistamos, logo lembro que ainda há muitos motivos para persistir na luta. E assim procuro fazer a minha parte para que a minha filha tenha as mesmas oportunidades que o meu filho. Isso não quer dizer que eu acredite que homens e mulheres são iguais. Somos diferentes por diversas razões, das físicas às emocionais.
Na história, as diferenças ficam ainda mais evidentes. As mulheres tiveram que ir à luta pelo direito de se expressar, de trabalhar, de votar, de amar, de casar e descasar, de ter prazer, de dizer não, de usar minissaia ou miniblusa sem ser assediada. Os homens conquistaram tudo isso simplesmente por terem nascidos homens. Olhando para o passado temos que admitir que avançamos, é verdade. Mas ainda temos que lutar por melhores salários, por mais espaço na política, por mais voz nas grandes empresas, por mais respeito social e por uma divisão de trabalho mais justa dentro de casa.
E foi com o objetivo de levantar uma reflexão acerca do Dia Internacional das Mulheres que a redação do jornal O Correio do Povo decidiu produzir conjuntamente uma reportagem especial. Os textos a seguir foram escritos por quatro competentes repórteres, todas mulheres (sim, nós somos maioria nas redações). Natália Trentini, Sônia Pillon, Kamilla Schneider e Heloísa Jahn. Cada uma abordou um tema, da participação das mulheres na política às barreiras no mundo empresarial tendo como personagens outras brilhantes mulheres que a cada dia vão subindo um degrau para que as próximas gerações de meninas tenham mais motivos para comemorar do que para lutar. Patricia Moraes
Histórias reúnem dedicação pela comunidade - Por Sônia Pillon
As três atuam em frentes diferentes, mas têm um direcionamento de vida comum: a dedicação e a contribuição que prestam à comunidade. A delegada Milena de Fátima Rosa, 40 anos, nascida em Itaiópolis, é um exemplo de que é possível agir com autoridade sem “perder a ternura”. À frente da Delegacia da Criança, Adolescente, Mulher e Idoso desde janeiro de 2012, ela enfrenta todos os dias uma rotina de boletins de ocorrências e inquéritos, que exigem firmeza e bom senso ao mesmo tempo.
Milena conta que nos dois primeiros meses do ano foram realizados 391 boletins, dos quais 123 referentes à ameaça contra a mulher. Até fevereiro de 2015, foram 368 ocorrências, em que 100 são de mulheres ameaçadas.
Até fevereiro, foram 47 agressões sofridas em 2016, e 46 no mesmo período do ano passado. “Se a mulher não dá um basta, com o nível de desgaste do relacionamento, a situação se agrava”, constata. “Trabalhamos muito o empoderamento da mulher, para que continuem estudando, trabalhando, e não se sintam dependentes economicamente”. Ela expressa gratidão por hoje usufruir de conquistas alcançadas por mulheres que a antecederam. “Muitas não tiveram a mesma oportunidade, por causa do machismo, questões de gênero e por menos condições financeiras”, complementa a delegada Milena.
Produtora cultural, coordenadora geral do Centro de Esportes e Artes Unificadas, presidente municipal da União Brasileira de Mulheres (UBM) e da Associação de Moradores do Bairro Boa Vista, integrante dos conselhos de Cultura e Juventude... Não faltam atividades a desenvolver para a engajada Mariana Pires, 30 anos, casada e mãe do menino Kauan, de 10 anos. Jaraguaense, filha de artesãos, foi atriz mirim de teatro em Curitiba, aos oito anos. Ao retornar à cidade natal, em 2006, foi locutora em uma rádio comunitária de Jaraguá do Sul e passou a se envolver também com a música. Com o pai, José Carlos Pires, ajudou a criar a Associação de Defesa Ambiental do Morro da Boa Vista. Ela enfatiza que a UBM é apartidária e congrega todas as vertentes: “A UBM começou com 15 filiadas, em outubro do ano passado, e hoje somos 40. Se percebe que Jaraguá do Sul precisava”.
A massoterapeuta e quiropraxista Karin Krause, 41 anos, é bacharel em Recursos Humanos, tecnóloga em Administração e cursa Estética e Cosmetologia na Uniasselvi. Líder nata, presidiu a Associação dos Conselhos de Segurança (Aconseg), que reúne 13 entidades dos cinco municípios da microrregião. Hoje é secretária da instituição e do Conseg do Jaraguá Esquerdo. Faz parte também da diretoria dos Amigos do Batalhão, participa dos treinamentos do Grupo Gerar para estar preparada para os resgates e catástrofes ambientais, é voluntária da comunidade luterana Pastor Albert Schneider e ligada à Sociedade Independência.
“Existem situações que é preciso se impor, mas ter equilíbrio, para se posicionar como mulher”, defende. Casada e mãe de dois filhos, de 24 e seis anos, se emociona quanto fala do voluntariado: “Aprendi desde criança, vendo meu pai Kunibert Krause, professor por 40 anos. Sinto satisfação em ver a felicidade no rosto de uma criança, ou adulto, e realizada como mulher com os trabalhos que faço”, resume.
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Karin Krause relata que sente satisfação por se envolver com entidades comunitárias

Maioria que elege não é a maioria eleita na política - Por Natália Trentini
Elas conquistaram o voto há 83 anos. Mas, de lá para cá, a presença da mulher no meio político cresce lentamente. As eleitoras são maioria, 142,8 milhões que representam um índice de 52% no Brasil. Mesmo com o poder de voto, as representantes femininas ainda enfrentam desafios para serem eleitas. No poder Legislativo, segundo informações da Procuradoria Especial da Mulher no Senado, a mulher tem apenas 9,9% das cadeiras em todo o país.
Há seis anos, a primeira presidente mulher foi eleita, Dilma Rousseff. Mesmo assim, no âmbito do poder executivo federal, os índices também são baixos. Dirigentes femininas ocupam apenas quatro dos 31 ministérios. No Supremo Tribunal Federal, elas são duas entre outros nove juízes.
Na microrregião, a atual legislatura conta com três mulheres eleitas. Natália Petry em Jaraguá do Sul, Sandra Jahn em Guaramirim, e Suzana Reinke em Massaranduba, que atualmente abre mão do mandato e desempenha cargo de secretária da Saúde no município, comandado pelo marido dela, Mario Fernando Reinke.
Para a deputada federal Angela Albino, apesar de liderar em índices de desenvolvimento econômico e social, Santa Catarina apresenta contrariedades quando o assunto é a representatividade feminina. “Temos a menor participação política das mulheres, a maior desigualdade de salários entre homens e mulheres e o terceiro com maior violência sexual, em um Estado com índices de excelência na economia”, comenta.
A vereadora Sandra acredita que nas pequenas cidades da região o desafio da mulher entrar na política é ainda maior. “Ainda existe aquele ditado que política é coisa de homem, isso ficou muito marcado”, comenta. Mesmo assim, ela sente uma abertura e interesse do público feminino para o debate e ressalta a tendência das mulheres a trabalhar politicamente para causas coletivas.
Tendo alcançado no ano passado a posição de presidente de um partido em Jaraguá do Sul, Márcia Alberton destaca que a forte inserção do homem ainda desfavorece a abertura para as mulheres. “A mulher, com seu amplo olhar na sociedade e no lar, tem movimentos extremamente mais generosos na sua relação com o todo, porém, o homem consegue fazer mais articulações”, considera.
O olhar da própria mulher para as candidatas também é algo que precisar mudar, acredita a vereadora Natália. Na última eleição municipal, ela afirma que houve inúmeras candidatas capacitadas para exercer o cargo, mas que são colocadas pelo partido apenas para suprir a proporcionalidade de 30% de candidatas mulheres. “Essa lei não garantiu efetivamente a representatividade. É preciso, no caso, garantir cadeiras. Existem muitas mulheres com perfil para a política, mas que ainda não foram atraídas para esse meio”, considera.
A mudança de concepção da própria mulher sobre sua relevância na política está em curso, acredita Angela. Ela defende a criação de cotas como uma medida “compensatória e transitória”. “Nós mulheres somos titulares de direitos tanto quanto os homens. Essa é uma medida para acelerar a recuperação de direitos políticos. Precisamos combater as candidaturas de fachadas e defender a participação das mulheres nas decisões em cada instância dos partidos políticos”, finaliza.
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Para a vereadora Sandra Jahn, o desafio ainda é grande, mas com determinação mulheres

vão aumentando participação na política

Elas persistem para ter talento reconhecido no meio cultural - Por Heloísa Jahn
Assim como em outros meios, na produção cultural a mulher ainda sofre com diferenças salariais e até mesmo preconceitos por sua aparência física. No cinema, por exemplo, essas diferenças ficam mais evidentes. Atrizes ganham menos do que atores e cineastas homens dominam a produção, enquanto as mulheres ficam à margem do mundo cinematográfico.
Quando recebem um destaque são julgadas por seu aspecto físico e não pelo talento, como ocorreu recentemente com a figurinista Jenny Beavan, que foi criticada pela roupa que vestia e pelo estilo considerado por muitos “desleixado”, durante entrega do Oscar.
Mais do que provar a si mesma que é capaz, a mulher artista acaba tendo que romper com diversas barreiras para ser reconhecida por seu próprio talento e não apenas obedecendo a estereótipos. Para a artista Bel Bandeira e a produtora cultural Mara Kochella, a mulher precisa enfrentar os medos e encarar de frente os desafios, sem se deixar abater pelas dificuldades que aparecem no caminho.
A produtora cultural Mara Kochella não observa tanto preconceito e barreiras para as mulheres no meio cultural. Vinda do mundo dos negócios, onde também trabalhava com produção de eventos, ela vê na área cultural uma leveza maior e por isso também uma maior liberdade para a mulher. “Observo um preconceito não por ser mulher, mas mais por ser da área cultural. As pessoas não conseguem entender ainda que isso é um trabalho”, explica.
A cantora e compositora Bel Bandeira também não sente preconceitos por ser mulher no meio artístico, talvez por não ligar para isso, porém, não acredita que a arte seja um espaço mais democrático em relação a questões de gênero. “A mulher tem que ser muito boa profissional em qualquer área para ter o respeito da sociedade. Só assim ela trilha o seu caminho, por competência, por mérito e por conquista”, afirma.
As duas concordam que muitas barreiras foram rompidas e que existem grandes mulheres no meio teatral, musical e críticas de arte, para citar apenas algumas áreas. Porém, acreditam que a mulher deve acreditar em seu potencial e se destacar por sua capacidade, não apenas pelo fato de serem mulheres. “A artista mulher tem que ter, além de talento e habilidade, muita determinação, força de vontade e uma certa dose de teimosia. Ela quer ser vista como uma boa artista, uma artista de qualidade e não como uma boa mulher artista”, enfatiza Bel Bandeira.
Mara Kochella completa dizendo que existem, sim, barreiras, mas que a persistência e a força de vontade servem para derrubar os obstáculos. “Vejo com alegria o espaço conquistado pelas mulheres porque estamos realmente em busca, realizando nossos projetos e nossos sonhos. Fico contente em ver mulheres se realizando e realizadas com o trabalho feito por elas, indiferente do meio em que estão inseridas”, afirma. Tal persistência defendida pelas jaraguaenses faz com que as mulheres façam com que o público conheça seu talento e trabalho e com que crivem seu nome na história cultural, junto com tantas outras que quebraram muros e estereótipos para serem reconhecidas.
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Força e persistência servem para ultrapassar obstáculos, diz produtora cultural

Empreendedoras buscam provar valor nas empresas - Kamila Schneider
Mesmo representando quase a metade da força de trabalho e sendo donas de 43% dos negócios no Brasil, as mulheres ainda precisam lidar com uma grande desigualdade quando o assunto é o mercado de trabalho. Segundo um levantamento da consultoria Grant Thornton, o Brasil é o terceiro país que menos promove as mulheres em cargos de liderança. Por aqui, 57% das empresas não possuem mulheres em postos mais altos, enquanto a média global é de 32%.
Quando se fala em remuneração, a disparidade é ainda maior. Segundo a doutora e professora do departamento de História da UFSC Cristina Scheibe Wolff, em média, as mulheres possuem uma renda 26% menor do que os homens no Brasil. “Entre as pessoas com mais de 12 anos de estudo, por exemplo, essa diferença chega a 34%, segundo o IBGE”, indica.
Em Santa Catarina, uma pesquisa da Secretaria de Estado da Assistência Social, Trabalho e Habitação mostra que apesar de serem 44,1% da força de trabalho do Estado e maioria nos níveis de instrução com superior completo, com participação de 59,7%, o salário médio das mulheres representa 85% do recebido pelos homens. “O que causa essa desigualdade é uma cultura que valoriza mais o trabalho masculino do que o feminino, que pensa os homens como trabalhadores legítimos e as mulheres como coadjuvantes. São preconceitos antigos, mas muito disseminados”, analisa Cristiana, que também coordena a Revista Estudos Feministas da UFSC.
Segundo a pesquisadora, as mulheres vêm liderando empresas, associações, entidades e família há séculos mas, apesar dos avanços, ainda falta reconhecimento quanto à contribuição feminina. “Elas também precisam desafiar os empregados, os sócios, os clientes, a mídia, que sempre se preocupam mais com a imagem delas do que com sua inteligência, sagacidade e seriedade”, aponta.
As empresárias Cida, Vivian e Sabrina Gasda sentiram de perto as desconfianças do mercado quando resolveram, há dez anos, abrir uma academia no Centro de Guaramirim. “No começo as pessoas não entendiam que estávamos à frente da academia, achavam que tinha alguém mais. Hoje o nosso trabalho é muito mais reconhecido. Sempre buscamos mostrar que a mulher e o homem são igualmente capazes”, conta Vivian.
Tal visão também se reflete dentro da empresa, onde as empresárias fazem questão de destacar o valor de suas profissionais. “Se um homem fica receoso de pedir ajuda a uma instrutora, nós conversamos e mostramos que não há motivo para dúvida, afinal são profissionais exigentes e muito bem preparadas”, orgulha-se Cida. Hoje, a academia possui uma filial em Jaraguá do Sul e mais de 800 alunos.
Para a executiva Monika Hufenüssler Conrads, que esteve à frente da Associação Empresarial de Jaraguá do Sul e atua na diretoria de uma grande empresa de alimentos da cidade, o mercado local evoluiu muito e se mostra cada vez mais aberto à expansão da mulher empresária e executiva.
“Estamos avançando e para isso é importante o envolvimento das mulheres também no associativismo, até nas próprias universidades, onde estamos muito presentes. Existe também a necessidade de a mulher se conscientizar do seu potencial e ir ao encontro desse potencial, sem se permitir limitar. Eu costumo dizer que a capacitação e adequação em determinada função independe de gênero, os bons exemplos estão ao para mostrar que é possível”, acredita ela.
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Responsáveis pela gestão de duas academias, as empresárias Sabrina, Vivian e Cida valorizam o trabalho das

mulheres em um ambiente predominantemente masculino