"Não tem mais jeito", "que vontade de sumir", "não quero fazer nada". Quantas vezes essas frases já foram ditas, mas não tiveram a devida atenção que mereciam ou foram consideradas apenas uma frescura?

Em muitas situações, esse comportamento demonstra que há, sim, algo de errado com quem está falando e é uma forma de pedir ajuda para evitar o suicídio.

Porém, nem todas as pessoas que tentam tirar a própria vida para aliviar um sofrimento dão sinais aos familiares e amigos. Principalmente em um cotidiano onde as relações parecem cada vez mais superficiais.

Para se ter uma ideia, no ano passado, Jaraguá do Sul teve seis homicídios, um índice de destaque nacional e que orgulha a população. Em contrapartida, no mesmo ano, a cidade registrou 16 suicídios.

Segundo a Secretaria de Saúde, de 2010 a 2018, foram 103 casos. A maioria, evolvendo pessoas de 40 a 49 anos e do sexo masculino. No Centro de Valorização da Vida (CVV) de Jaraguá, os 23 voluntários fizeram 14.820 atendimentos.

Foto Divulgação

Dificuldades psicológicas estão ligadas a tentativas de suicídio, em particular, sentimentos depressivos e dependência de substâncias. Alguns casos ocorrem em momentos de crise e de altos níveis de estresse, como problemas financeiros, de relacionamento ou no descobrimento de doenças crônicas.

Vivência de conflitos, experiências traumáticas, de abusos e perdas também estão associadas com comportamentos suicidas.

Assim como a certa tendência de grupos marginalizados e vulneráveis da sociedade, vítimas de discriminação e preconceito, entre eles: refugiados e imigrantes, indígenas, ex-detentos e pessoas com diferentes orientações sexuais.

Procura por atendimentos

De acordo com a gerente de saúde mental, Denise Thum, houve um aumento significativo na procura por atendimento nas secretarias de Saúde e Assistência Social, tanto de pessoas que planejam o suicídio e o enxergam como uma chance de resolver os problemas, como de quem já tentou efetivamente e pode voltar a pensar em tirar a vida.

Denise comenta situações que podem desencadear o suicídio | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Para Denise, um dos motivos para a crescente de suicídios é que hoje, as coisas precisam ser resolvidas com rapidez.

"Tem uma facilidade para se conseguir o que quer e uma baixa tolerância às frustrações. Se acontece uma vez, é como se a pessoa já não fosse forte o suficiente. Na adolescência isso é muito comum, mas entre os adultos também acontece. A sociedade exige que estejamos bem o tempo todo e sempre dando conta. O término de namoro, por exemplo, que faz parte da vida, é algo que muitos não conseguem lidar", explica.

A gerente de saúde comenta que nos atendimentos, quando os pacientes são questionados se gostariam de continuar vivendo se a situação que está causando todo o sofrimento fosse excluída, a maioria afirma que sim.

"O desejo que eles têm é de não sofrer mais, mas não necessariamente deixar de viver", aponta.

"Eu me batia e me culpava"

Janete Barbosa Martins, 40 anos, chegou ao extremo e tentou o suicídio. Ela conta que os problemas se agravaram em março deste ano, quando procurou ajuda num posto de saúde.

"Chorava por tudo, não lembrava bem das coisas, não queria mais viver, me isolei de todo mundo e pensava que por meus dois filhos estarem grandes, eu já tinha cumprido minha missão na terra", relata.

Com depressão, Janete emagreceu dez quilos e não dormia mais. "O que me deixou assim foi a pressão por bater metas no trabalho. Eu me batia quando chegava em casa e me culpava porque não tinha conseguido", recorda.

Rodas de conversa sobre o tema estão sendo promovidas pela Prefeitura | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Em casa, Janete não queria mais conversar nem com a família. Agora, ela usa medicação e frequenta o Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde recebe tratamento. Janete também está afastada do emprego por motivos de saúde.

Olhar para o próximo

Denise enfatiza que, desde que a pessoa começa a receber tratamento na rede municipal, as equipes se sentem corresponsáveis pela manutenção daquela vida e planejam uma articulação com a família para que não ocorram tentativas.

A profissional comenta que o projeto nem sempre é fácil porque, às vezes, o problema está na própria família.

"Falta empatia com as pessoas, cada um está vivendo no seu mundo, conversando com todos pela internet, mas não olhando para quem está ao lado. Acham que é drama e banalizam o sofrimento do outro, o que gera um medo da pessoa se abrir e ser julgada", avalia.

Denise ainda comenta sobre o mito de "quem fala, não faz", dizendo que o aviso é um pedido de ajuda e atenção para algo que não está bem.

Rede do Caps tem um atendimento voltado para prevenção e tratamento de pessoas que pensam no suicídio | Foto Eduardo Montecino/OCP News

As psicólogas do Caps, Mariana Martins Stringari e Heloísa Barroso, juntamente com a terapeuta ocupacional Schirlei Radtke, alertam para sinais de isolamento que podem indicar que alguém está com problemas e cogita o suicídio.

Entre eles, está parar de fazer atividades de que gostava, ficar mais tempo em casa sozinho, deixar de lado a vaidade e apresentar sinais de automutilação.

Heloísa observa que muitas pessoas continuam a rotina normalmente, mas costumam não comentar sobre suas emoções e problemas particulares.

"As relações estão mais difíceis e existem pessoas que não fazem parte de nenhum grupo social e não têm um bom convívio com a família, os laços emocionais são frágeis, distantes, e eles são de extrema importância", considera Schirlei.

Como ajudar

Na avaliação da psicóloga Mariana, o diálogo é a melhor forma de ajudar. Ela destaca que essa conversa deve ser feita em um ambiente favorável, tranquilo e com privacidade, para a pessoa se sentir confortável em dizer o que está sentindo.

"Não é sempre que na primeira conversa que ela vai falar, então é necessário se mostrar presente e disponível", aponta.

Heloísa complementa que demonstrações de carinho e afeto ao outro, além de investir em relações mais íntimas, são atitudes que diminuem os riscos de suicídio.

Ela acredita que falar abertamente sobre o tema também pode dar uma oportunidade da pessoa abrir o que está passando.

Ações da Prefeitura vão se estender pelo mês de setembro | Foto Eduardo Montecino/OCP News

No Caps, a demanda para casos de intenção suicida é espontânea, ou seja, a pessoa ou família pode procurar ajuda diretamente no local. Outra opção é ser encaminhada por uma unidade de saúde ou outro serviço de atendimento da Secretaria.

"Temos um grupo de pessoas que têm transtorno mental grave persistente, que é quando ela fica beirando a desistir da vida por muitas vezes, é um grupo de risco. Também há quem nunca deu nenhum sinal maior, mas precisou de atendimento", conta.

Com oficinas terapêuticas, psicoterapia, atendimentos individuais e outras atividades, as equipes do Caps buscam mostrar para os usuários que há outras possibilidades além do suicídio para solucionar os problemas.

Quando você menos espera

A educadora física Bruna Donat estava em mais um dia comum da sua rotina, saindo de casa e indo para o trabalho, quando viu um homem pendurado no parapeito de uma ponte em Jaraguá do Sul, há quase três semanas.

No mesmo momento, Bruna largou a bicicleta e correu para ajudá-lo. "Pedi se estava tudo bem, outro senhor chegou e ficamos conversando com ele, mas ele só chorava e dizia que não precisava mais viver", relata.

O desespero tomou conta e mais pessoas chegaram para segurar o rapaz, que tentava se soltar. "Agi por impulso, não sabia muito bem o que pensar, a preocupação era tirar ele dali. Não sabia para quem ligar", observa Bruna.

Depois do ocorrido, a visão da educadora física sobre o tema mudou. "Às vezes pensamos que temos problemas tão grandes que não paramos para ver que nosso problema pode não ser nada perto dos outros", avalia.

Nessas situações, o indicado é ligar para o Samu no 192, por ser considerada uma emergência médica.

Onde buscar ajuda?

  • Familiares e amigos: converse e conte o que está acontecendo;
  • CAPS e Unidades Básicas de Saúde (Postos de Saúde da Família, Unidades Básicas de Saúde);
  • Samu (192), Pronto-Socorro e Hospitais;
  • Centro de Valorização da Vida – 188 (ligação gratuita).

Seja um voluntário do CVV

Para atender a demanda da região, o Centro de Valorização da Vida (CVV) precisa de mais voluntários. Se você gostaria de ser um, envie um e-mail para jaraguadosul@cvv.org.br informando o seu nome e contato para participar do próximo curso de formação dos novos voluntários.

Os atendimentos acontecem por telefone, bate-papo e e-mail.

 

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