Por: Kamila Schneider | Foto: Horst baümle/divulgação Nenhuma crise dura para sempre”. A afirmação feita pelo economista chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa, aponta que o mercado já começa a ver os próximos meses com mais otimismo, ainda que a cautela continue a guiar os passos de boa parte das empresas. É um momento de transição na economia: enquanto as estatísticas deixam de ser negativas, o mercado e o governo lutam para recuperar a confiança do consumidor, ainda receoso após a instabilidade do último ano. Para Barbosa, a recuperação da economia será gradual e consistente, mas perpassa alguns desafios, sendo o principal deles o medo gerado pela crise e que leva o brasileiro a poupar quando o mercado precisa que o dinheiro gire. “Todos falam que a retomada em 2017 virá do investimento, mas a surpresa pode vir um pouco do consumo”, disse o economista em entrevista recente ao jornal Folha de São Paulo. Mestre em economia e chefe do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, Barbosa esteve em Jaraguá do Sul na noite de terça-feira (18) para participar do 61º Encontro Empresarial da Acijs, evento que reuniu mais de 150 profissionais e empresários locais. Em entrevista exclusiva para o OCP, o economista faz uma análise geral da situação econômica atual e aponta os caminhos que o mercado deve tomar nos próximos meses: A expectativa é de que 2017 seja um ano de recuperação na economia. Quais são as expectativas daqui para frente? Nossa expectativa é justamente de retomada gradual, porém consistente da economia. Além da queda da inflação e dos juros, a excelente safra agrícola e o saque dos recursos das contas inativas do FGTS ajudarão nesse processo. As famílias estão reduzindo seu endividamento, o que abrirá espaço para alguma melhora do consumo ainda nesse ano. Um dos fatores que mais preocupa o mercado é o alto índice de desemprego, que chegou a 13,2% em março deste ano. Como tem caminhado esta questão? Um aspecto muito interessante que temos notado em nossas pesquisas é o aumento do número de horas trabalhadas. Esse é o primeiro indicador que antecede a contratação do lado das empresas. Apenas quando a demanda se confirma é que os empresários transformam aumento de horas trabalhadas em vagas permanentes. Ou seja, há sim perspectiva de estabilização do emprego nos próximos meses. Com a queda de juros e a melhora do balanço das empresas, elas estarão mais bem posicionadas para voltarem a contratar assim que os sinais de demanda estiverem mais claros. Com a crise no mercado interno, a indústria brasileira investiu pesado no mercado externo nos últimos anos, transferindo, inclusive, investimentos para fora do País. O mercado internacional deve continuar na mira das empresas brasileiras? A diversificação que observamos nos últimos anos de várias empresas para o mercado externo foi bastante oportuna. Apesar do aumento das tensões geopolíticas, é nítida a melhora no crescimento global, mesmo que modesto.  Assim, a diversificação para fora deve ser percebida como um complemento à atividade doméstica, logo vejo essa situação como não rivalizando com os investimentos no Brasil. Com a melhora no ambiente econômico, mais e mais empresas tendem a se internacionalizar nos próximos anos se o país fizer as reformas necessárias. Em sua visão, quais são os fatores que ainda impedem o Brasil de uma retomada efetiva do crescimento econômico? As empresas ainda estão endividadas, as famílias estão cautelosas, a taxa Selic ainda é elevada, o arcabouço dos acordos de leniência ainda é complexo e a incerteza quanto ao futuro das contas públicas não está completamente eliminada. Esses são os principais fatores que retardam a retomada. A queda dos juros contribuirá para resolver os três primeiros e a reforma da previdência, se aprovada, reduzirá muito a preocupação com o último fator. Alguns especialistas apontam o agronegócio como um dos setores que deve impulsionar a retomada da economia. O senhor concorda com essa colocação? Certamente concordo. A safra de 230 milhões de toneladas de grãos é recorde e a demanda por produtos agrícolas se elevou no mundo e no Brasil. Com preços e câmbio razoavelmente favoráveis, essa safra irá ajudar na renda agrícola de 56% dos municípios brasileiros que possuem, na agricultura, sua principal atividade econômica. A indústria da transformação foi um dos setores que mais sofreram com a crise no ano passado. Que fatores levaram este setor a ser mais afetado pelo cenário econômico adverso? A indústria é vítima, há anos, de um sistema tributário complexo, custos trabalhistas elevados, logística precária e taxa Selic elevada. Felizmente, essas questões começam a ser resolvidas com a lei do teto dos gastos e a reforma da previdência, que permitirá, no futuro, reduzir e simplificar a carga tributária; com a lei da terceirização e com a proposta de reforma trabalhista. Por último, sem voluntarismo, com o conjunto de ações econômicas em curso a inflação tem caído e permitirá uma grande queda dos juros. O ano que vem será um ano crucial para a retomada da economia brasileira, mas também será um ano de eleições presidenciais. Como este cenário pode afetar a economia? De fato, a estabilidade política é fundamental para a boa recuperação da economia. Com a crise que o Brasil viveu nos últimos anos, o debate de 2018 provavelmente focará em políticas que favoreçam a recuperação do crescimento e do emprego, ajuste das contas públicas, queda da inflação e dos juros, além de reformas que modernizem o país. E há exemplos de políticas dessa natureza ao longo de todos os governos desde a redemocratização que, se forem adotadas, certamente nos colocarão em um patamar muito favorável em comparação aos demais países emergentes. O país aprende com acertos e erros. Que medidas e posturas são fundamentais para as empresas que desejam recuperar seus índices de vendas e lucro nos próximos anos? Contenção de despesas e inovação serão os atributos mais importantes nos próximos anos. O mercado doméstico irá se recuperar, nenhuma crise dura para sempre e, nesse momento, as empresas mais ajustadas e mais inovadoras serão as que mais rapidamente terão capacidade de responder ao cenário.