Desde o início da pandemia da Covid-19, os dois hospitais de Jaraguá do Sul receberam mais de 1.300 pessoas para tratamento da doença. Os casos de gravidade representam em torno de 4,5% do total de contaminados pelo vírus, mas no dia a dia das equipes do hospital, esse índice significa um aumento expressivo da carga de trabalho.

No pronto-socorro do Hospital São José, o ritmo já acelerado dos profissionais que atendem as mais diversas emergências precisou ser triplicado, estima o médico e coordenador do setor, Paulo Edson Medeiros.

Atuando na porta de entrada dos casos urgentes, o que os profissionais veem todos os dias é o extremo da gravidade causada pela pandemia: pessoas precisando ser estabilizadas diante de uma evolução cada vez mais rápida da doença.

Medeiros ressalta que esses casos não refletem a base do tratamento para o coronavírus, uma vez que a maioria das pessoas são tratadas em casa.

Enfermeira Fábia e médico Paulo atuam com as emergências no São José | Foto Natália Trentini/OCP News

Entretanto, os hospitais estão trabalhando no máximo da capacidade e os cuidados necessários para os casos graves exigem muito.

“Diferente do que estávamos acostumados, que eram situações que em 48 horas já se resolviam, a Covid é uma patologia, uma síndrome que dura mais tempo. E todo esse tempo que ela demanda precisa de muita atenção”, comenta.

Medeiros resume que a Covid-19 se transforma em uma síndrome sistêmica, ou seja, que afeta todo o corpo.

Com isso, os pacientes precisam ser monitorados de perto de hora em hora - muitas vezes exigindo tratamentos para fígado, rins, pulmão, coração e demais órgãos afetados. Esse acompanhamento da evolução demanda especialmente das equipes de enfermagem.

São pessoas que ficam longos períodos internadas. Diferente do perfil antes da pandemia, onde a maioria dos pacientes na entrada do pronto-atendimento eram de trauma e cirurgias abdominais, que em menos de uma semana eram liberados.

E conforme ressalta a coordenadora de enfermagem Fábia Schaefer, urgências de rotina continuam chegando.

“As pessoas às vezes imaginam que você tem toda uma rotina de Covid e o resto parou de acontecer. As pessoas continuam tendo trauma, se acidentando, tendo infartos, AVC. Essas demandas todas continuaram acontecendo no meio dessa demanda toda de Covid”, pontua a coordenadora.

Gravidade em público jovem

Conforme dados do Hospital São José, em 2020 foram internadas 444 pessoas de Jaraguá do Sul por conta do novo coronavírus. De janeiro a abril de 2021, último dado disponibilizado, foram 427 pessoas. Ou seja, em quatro meses, praticamente o mesmo número de internações nos 10 meses de pandemia do ano passado.

O mesmo perfil se vê no Hospital de Maternidade Jaraguá. Foram 154 internações em 2020, enquanto de janeiro a maio deste ano já são 329 casos graves.

“A gente está percebendo na questão da vacina que não temos mais um público idoso dentro do pronto-socorro, quem está sendo acometido é o público de 30 e poucos anos, que estão chegando instáveis muito mais rápido”, comenta a enfermeira Fábia.

Segundo o médico coordenador da UTI Covid-19 e UTI do Hospital Jaraguá, Eduardo Sidiney Rodrigues, o momento tem sido desafiador para as equipes hospitalares com esse aumento da gravidade.

“Diversas situações nos desafiam o tempo todo. A maior delas é manter a integridade emocional diante de tantas mortes de pessoas em idade produtiva, pais de família, gestantes, enfim, cenário de guerra vivida em área urbana”, pontua.

Lidar com número elevado de mortes tem sido desafio, pontua Eduardo Rodrigues | Foto Divulgação/HMJ

Ao longo de 2020, Jaraguá do Sul perdeu 94 pessoas em decorrência da Covid-19. Neste ano foram, até quarta-feira (23), foram 259 óbitos. Ou seja, os óbitos aumentaram.

Rotina exaustiva

O número de pacientes que se recupera da Covid-19 é maior do que o de casos fatais. Considerando apenas a realidade hospitalar, são mais de 1 mil pessoas que tiveram alta.

Entretanto, cada um dos 353 óbitos registrados desde o início da pandemia acabam sendo sentidos pelos profissionais dos hospitais, que vêem o pior cenário da pandemia.

“Como é uma síndrome que gera muito trabalho, as equipes estão em estafa. A gente está tendo esse enfrentamento da terminalidade de pacientes jovens, idosos também, e isso gera uma carga emocional para as equipes, que ficam mais abaladas. Com os picos no hospital, além dessa estafa de trabalho, teve essa estafa da perda”, comenta o médico Paulo Medeiros.

Perfil dos casos graves exige alta demanda de trabalho, pontua Medeiros | Foto Natália Trentini/OCP News

No pronto-socorro, a coordenadora de enfermagem Fábia Schaefer, comenta que a rotina é atender pacientes que vêm da rua e pessoas que estão internadas e entram em estado mais grave, precisando ser estabilizadas até a abertura de uma vaga na UTI.

Diante da imprevisibilidade desses casos, o hospital adotou uma rotina de chamar a família para uma despedida antes dos procedimentos de intubação. Muitas pessoas se recuperam, mas para algumas é realmente o momento do adeus.

“Você imagina o quanto isso é pesado, porque são equipes acostumadas a lidar com a morte. Nós estamos acostumados, se não a gente não trabalha. Mas todo dia você os profissionais, os enfermeiros, as técnicas, falando eu não aguento mais’, ‘eu não vejo a hora desse Covid passar’, a gente vê esse peso emocional”, conta a enfermeira.

Carga emocional tem sido maior diante do estresse dos profissionais, diz Fábia | Foto Natália Trentini/OCP News

O médico Eduardo Rodrigues pontua que, apesar de todo esse preparo mental para lidar com a morte, o estado de “burnout” contínuo, sem direito a pausa pela falta de profissionais capacitados no mercado para novas contratações, torna os desafios ainda maiores.

“As mortes que ocorriam antes, eram em número muito menor e de certa forma esperada para certas patologias. Com a Covid-19 não sabemos quem vai se recuperar, quanto tempo levará de internação. As mortes estão elevadíssimas e, como falei, pessoas muito jovens, na faixa de 40, 50 anos”, avalia.

O médico e diretor técnico do Hospital e Maternidade Jaraguá, Guilherme Sapia, ressalta que nesse momento uma das grandes preocupações na unidade é com as gestantes diante desse crescimento de casos graves entre faixas etárias mais jovens.

“Esta realidade impacta muito na taxa de partos prematuros, pois diante de casos muito graves de Covid na gestante, pode-se fazer necessário a interrupção prematura da gravidez. E assim a pandemia acaba causando impacto também na disponibilidade de vagas de UTI neonatal para cuidar destes prematurinhos”, explica.

Vacinação contribui para os hospitais

Sapia pontua que o momento tem sido difícil para toda comunidade, mas em especial para os profissionais de saúde que estão no enfrentamento da pandemia desde o início.

Sapia ressalta sobrecarga diante da falta de profissionais no mercado | Foto Divulgação/HMJ

“Alguns adoeceram outros, infelizmente, vieram a falecer. Perdi colegas de trabalho por Covid, e não é só minha esta realidade, mas a de todos os profissionais da saúde”, desabafa. “A área da saúde hoje conta com profissionais exaustos, sobrecarregados, atuando sob um nível de estresse tremendo.”

Segundo o diretor técnico, o que contribuiu para reduzir a carga emocional dos profissionais foi a vacinação, que deu fôlego para estar dia a dia de frente ao vírus mais protegidos.

A coordenadora de enfermagem Fábia revela que há duas semanas foi diagnosticada com Covid-19.

“Depois das duas doses vacinadas, eu fiquei muito bem, obrigada. Só desconfiei que estava com Covid porque perdi gosto e cheiro, foi meu único sintoma. Isso me faz acreditar e dá esperança que a vacina é boa sim, indiferente da marca dela. Tem que fazer o que tem”, diz.

Lições e cuidados

O médico Paulo Medeiros ressalta a importância da coletividade durante a pandemia. Dentro dos hospitais, as equipes precisam se ajudar e estarem ainda mais unidas para dar conta da demanda. A importância do trabalho de todos os profissionais, da limpeza, alimentação aos enfermeiros e médicos ficou nítida.

“No começo, também tinha demanda de gravidade, mas a equipe estava perdida e insegura. Era desespero dos dois lados. Agora os próprios colaboradores começaram a entender a doença e o tratamento, e o difícil agora é a carga de trabalho”, diz.

Para o médico, é importante que as pessoas conheçam a realidade da doença, mas sem extremismos.

“Não podemos entrar na paranoia, é um estresse muito grande. Quanto mais a rotina do dia a dia ir retomando de acordo com todos os protocolos que temos que seguir, melhor vai ser”, comenta, ressaltando a importância de uma rotina saudável, equilibrada para prevenir qualquer doença, incluindo a Covid-19.

O médico Eduardo Rodrigues pontua que as pessoas precisam seguir com os cuidados amplamente divulgados: uso de máscaras, álcool gel e distanciamento social.

“O mais importante no momento é a vacinação em massa. Tem pessoas com receio de se vacinarem, mesmo estando na faixa etária indicada. Países que atingiram uma taxa alta de vacinação, houve redução drástica na mortalidade. É isso tem que ser entendido pela população”, pontua.

 

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