A situação das filas de espera para atendimento na Saúde de Jaraguá do Sul continua repercutindo no município. De um lado, a população reclama pela demora nos atendimentos, como para as consultas em especialidades e para cirurgias, com filas que podem variar muito de acordo com o tipo de atendimento, com prazos de quatro meses, dois meses e até um ano, por exemplo.

De outro, o município reconhece a dificuldade na gestão das filas, pela falta de recursos financeiros e humanos – agravados também pela falta de interesse de profissionais e clínicas de Jaraguá do Sul em participar de credenciamentos -, mas também alerta para a falta dos pacientes às consultas agendadas e confirmadas, impactando nas filas.

O microempreendedor Jair Balbinot conta que desde julho de 2017 sua mulher aguarda a realização de uma histerectomia, cirurgia indicada para tratamento de câncer de útero. Considerada de urgência, o procedimento foi recomendado no fim de abril do ano passado e marcado para início de julho seguinte.

No entanto, a cirurgia chegou a ser remarcada quatro vezes, duas para ser realizada em Jaraguá do Sul e duas para Massaranduba, para onde sua esposa foi encaminhada, conta Balbinot. A última data foi marcada para hoje, mas novamente foi cancelada.

“Disseram que o médico estava com gripe e não poderia fazer a cirurgia, e que não sabem quando vai levar para se recuperar. Ligaram nessa segunda-feira para não ir [à cirurgia] e que a hora que melhorasse iam agendar de novo”, conta Balbinot.

De acordo com o diretor de Gestão Técnica da Secretaria de Saúde de Jaraguá do Sul, Antônio Marcos da Silva, o prazo para atendimento dos casos cirúrgicos considerados prioritários, como os casos oncológicos, é de uma média de 60 dias para atendimento.

A cirurgia da esposa de Balbinot chegou a ser marcada no prazo aproximado, segundo relatou. No entanto, com as remarcações, o procedimento acabou adiado em cerca de dez meses, e sem prazo para ser novamente agendado. O diretor da Secretaria informou que o caso será verificado pontualmente, para apuração de possível imprevisto que possa ter ocorrido.

Falta de médicos

Jair Balbinot também relatou a falta de médicos no posto de saúde Renato Pradi (Caic), do bairro São Luís. A questão dos profissionais é outra dificuldade que impacta nas filas de espera, como relatado pela Secretaria de Saúde na edição do OCP do último fim de semana.

Portador de diabetes, Balbinot informa que realizou os exames que lhe foram solicitados no fim do ano passado, e que desde então aguarda pela análise do resultado, que deve ser feita por um médico.

De acordo com a diretora de Saúde da pasta, Niura Demarchi, a unidade do Caic ficou somente com um médico de 32 horas semanais depois que outra médica, que atendia 20 horas por semana, acabou saindo por ter passado em concurso público em São Paulo.

Como suporte, explica a diretora, uma profissional médica foi remanejada de outra unidade de saúde do município, desde a semana passada, para atender duas vezes por semana no CAIC, fazendo uma carga horária de 15 horas, inicialmente, até fechar a carga de 20 horas.

Mesmo assim, informa Niura, a Secretaria está chamando novo profissional para reposição da vaga, através dos processos seletivos vigentes. Esse trabalho de remanejamento e reposição de profissionais é feito constantemente, informa a Secretaria, para que o atendimento não fique prejudicado.

Dificuldades

O secretário de Saúde, Dalton Fischer, observa que com certeza haverá queixas diárias da população, “que gostariam que alguns serviços, cirurgia ou um exame que seja um pouco mais caro seja realizado logo”, comenta.

No entanto, a Secretaria têm dificuldades que impactam nas filas de espera, como o credenciamento de clínicas e profissionais para ofertarem ou realizarem alguns serviços, afirma o secretário. “Talvez fosse mais fácil para a gente gerenciar alguns problemas, ou algumas filas, se a gente conseguisse credenciar alguns serviços em Jaraguá do Sul”, avalia Fischer.

“Quando a gente abre um credenciamento para alguma cirurgia, para alguma especialidade ou exame, às vezes as clínicas ou profissionais de Jaraguá não se habilitam, não querem, ‘ah por esse preço não quero’. Aí nos força buscar fora da cidade”, relata o secretário.

Com isso, o Município acaba tendo o custo adicional para o transporte dos pacientes aos locais em que serão atendidos, gerando desgaste também para o paciente, “mas que a gente faz para conseguir ter o acesso àquele procedimento”, reforça.

Ele destaca ainda que o Município aplica na Saúde em média quase o dobro do percentual mínimo previsto por lei, de 15%. “Fica em torno de 30%, às vezes 27%, 28%, 31%”, informa o secretário, salientando a necessidade de o Município complementar com recursos próprios o orçamento da Saúde. “O que o SUS paga [por um procedimento] às vezes não cobre nem o seu custo”, ressalta.

Mais de 7,5 mil pacientes faltam às consultas

Além de outros problemas, como recursos financeiros, materiais e de recursos humanos, o secretário também observa que é preciso haver corresponsabilidade da população com o SUS e conscientização para não faltar às consultas marcadas ou então desmarcar com a antecedência possível.

“Porque esse que falta continua na fila, ele não sai, e às vezes o pior é que falta mais de uma vez”, comenta Fischer. De janeiro a abril deste ano, o número de ausência às consultas agendadas e confirmadas pelos pacientes foi de 7.552, destaca o secretário.

Diante do número, a Secretaria reforça a importância da população para essa responsabilidade, pois se tratam de recursos “jogados fora”, salienta a pasta. Sem o aviso do paciente com antecedência acaba não havendo tempo hábil para chamar o próximo na fila de espera.