OMS encoraja autonomia das mulheres durante o parto

Gabriela com as filhas, Milena e Helena | Foto Divulgação/OCP Gabriela com as filhas, Milena e Helena | Foto Divulgação/OCP

Cotidiano

Por: Ana Paula Gonçalves

sábado, 07:00 - 24/02/2018

Ana Paula Gonçalves
O crescente movimento feminino buscando o parto normal e mais humanizado possível e a preocupação quanto ao elevado número de cesarianas vêm sendo debatidos em nível global. Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou novas orientações para o parto, alertando para a necessidade de menos medicação e intervenções médicas na hora do nascimento. O objetivo é que o momento seja uma experiência mais positiva para mães e filhos, com respeito às decisões da mulher. A doula Eliane Odwazny explica que as orientações da OMS visam melhorar os índices de parto normal, diminuindo as cesarianas sem indicação e proporcionando uma assistência segura às mulheres, baseada nas referências atuais e com menor índice de intervenções sem necessidade. “A OMS reconhece a importância e benefícios do parto normal diante do elevado número decesarianas”, ressalta.
Doula Eliane Odwazny | Foto Divulgação/OCP
De acordo com ela, existe um movimento crescente de mulheres que buscam pelo parto humanizado, uma variação do parto normal que tem por essência o respeito ao protagonismo materno. Nele, a mulher estuda e entende a fisiologia do parto e assim, dentro de um modelo de assistência baseado em evidências científicas e não em práticas rotineiras, faz suas escolhas. “O parto humanizado traz um maior índice de satisfação materna, pois está associado a um menor índice de intervenções e maior autonomia dessa mulher. Ela pode, por exemplo, optar por parir em posições verticalizadas, usar de métodos não farmacológicos para alívio da dor, ter apoio do seu acompanhante escolhido. Poder ter o acompanhamento de uma doula”, aponta. Segundo o Ministério da Saúde, no ano de 2015 o número de cesarianas caiu na rede pública. Dos três milhões de partos feitos no Brasil, 55,5% foram cesáreas e 44,5%, partos normais. Entre os anos de 2003 e 2014, as cesarianas apresentavam curva ascendente no país. Em 2016, entrou em vigor a lei 16.869/2016, que autoriza a presença de doulas mediante solicitação das gestantes em maternidades e hospitais catarinenses. Desde então, as profissionais passaram a acompanhar as mulheres em trabalho de parto no ambiente hospitalar. Em Jaraguá do Sul, segundo Eliane, a relação entre doulas e equipes médicas é tranquila. “Os hospitais respeitam o desejo da parturiente em ter sua doula de escolha, se assim ela quiser e há os profissionais que entendem a função e o trabalho de uma doula e gostam de acompanhar partos com elas, como também há os que não conhecem sua atuação, mas respeitam a escola da mulher”, destaca.
Doula Eliane Odwazny pinta a barriga de Priscila, à espera de Amábile: apoio e respeito à fisiologia em um momento tão marcante na vida de uma mulher | Foto Divulgação/OCP
A OMS recomenda ainda várias técnicas para o alívio da dor durante o trabalho de parto, como relaxamento muscular, música ambiente, técnicas de respiração, massagem e aplicação de bolsas de água quente. No entanto, tudo deve ser feito apenas a pedido da grávida. Além disso, se o trabalho de parto estiver ocorrendo sem problemas, a mulher deve ser estimulada a caminhar e até a receber líquidos e alimentos. “O hospital não é obrigado a ter um rádio, bolsa quente, e demais apetrechos... Quando falamos em humanização não falamos em parto na água, banheira, na estrutura em si, mas em enxergar cada mulher como única e respeitar a fisiologia, desde que esteja tudo bem com o binômio”, acredita Elaine. Ela ressalta que parto humanizado não deixa de usar a tecnologia, desde que de modo consciente e com condutas que tenham respaldo em evidências e orientações da OMS, Ministério da Saúde e demais órgãos. “Todo hospital está apto a atender dentro desse modelo”, diz. Para ela, a receita para uma experiência positiva durante o parto é acolher e cuidar. Enxergar cada mulher em seu processo, tratar de maneira respeitosa aquele momento único, encorajar sua autonomia, discutir seu plano de parto e entender o porquê de cada desejo. Elaine também destacou que é importante não haver intervenções rotineiras e sem necessidade, além de incentivar o parto na posição mais favorável para a mulher, estimular o contato pele a pele e, principalmente, ouvir a gestante. PARTO HUMANIZADO TORNA EXPERIÊNCIA ‘MARAVILHOSA’, AFIRMA MÃE  A psicóloga Gabriela Klaus Bourscheid, 29 anos, desejava uma experiência natural e tranquila para o parto das filhas. Quando descobriu que esperava gêmeas, pensou que certamente ouviria do médico a indicação de uma cesariana, mas não foi assim. O obstetra Guilherme Sapia, que fez todo o acompanhamento pré-natal e parto de Gabriela, deixou claro que se tudo estivesse favorável ao parto normal, não haveria problema algum. “Realmente eu me senti segura porque ele não se opôs”, revela.
Gabriela com as filhas, Milena e Helena, e o marido, Vianei: com doula, ela sentiu segurança no momento do parto | Foto Divulgação/OCP
No dia 10 de setembro de 2017, a psicóloga deu à luz Milena e Helena, no Hospital e Maternidade Jaraguá. Para o parto humanizado, mais no fim da gestação ela entrou em contato com a doula Elaine Odwazny. Segundo revelou, a escolha ocorreu por não ter familiares em Jaraguá do Sul e sentir que necessitava do conhecimento e apoio que a profissional oferece às gestantes. “Historicamente, não é passado de mãe para filha como é o parto, como as coisas acontecem, quais procedimentos são feitos, o que você pode fazer para ter menos dor, um alívio... isso não é falado. Mesmo a parte da amamentação. Então, a doula auxilia nisso e ela trouxe essa segurança para mim. Foi bem importante”, enfatiza. Milena e Helena nasceram prematuras, com 35 semanas. Com situação favorável, as filhas encaixadas para o nascimento, a bolsa se rompeu e Gabriela foi para o hospital, conforme recomendação do médico. Lá, pediu para chamar o seu obstetra e foi encaminhada para um quarto reservado. “Eu pude colocar as músicas que eu quis, preparei uma seleção, pedi para as luzes ficarem fraquinhas e a todo o momento as coisas foram acontecendo como eu queria. Conversei com o médico sobre a posição que eu queria ter meus bebês, tudo foi muito respeitado”, destaca.
Gabriela com as filhas, Milena e Helena | Foto Divulgação/OCP
A psicóloga, o marido Vianei, 32 anos, e a doula ficaram à vontade no ambiente reservado e eram acompanhados pela equipe médica para os procedimentos necessários - como verificação da pressão, dilatação, entre outros. Como Gabriela praticou yoga para gestante e se sentia preparada para as contrações, optou por não ser medicada. “Pedi para o doutor que o cordão umbilical fosse cortado somente depois que parasse de pulsar e foi assim. Tudo aconteceu conforme o combinado. Foi excelente, maravilhoso”, declara. Para ela, a confiança na equipe é muito importante. “Esse acolhimento, a forma como a equipe nos trata, tanto a mãe quanto o pai, é fundamental, porque é um momento de vulnerabilidade”, conclui.
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