Foto Eduardo Montecino/OCP News

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Quais as primeiras imagens que vêm à cabeça quando alguém menciona o bairro Garibaldi? Provavelmente as belas paisagens verdes, a agricultura familiar e o cultivo de orgânicos estão entre elas. E não é à toa.

A força da agricultura familiar no bairro, inclusive, criou movimentos igualmente fortes e paralelos, como o de empoderamento feminino do coletivo de mulheres do Garibaldi.

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Além do plantio, a usina de leite, fechada em 2010, tem tudo para voltar a funcionar no próximo ano, garante a vice-presidente da entidade, Ivanete de Souza. Atualmente, a sede da cooperativa fica no bairro onde, ela ressalta, a entidade nasceu em 2004. “A cooperativa voltou pra casa”, diz.

Com grande produção de banana, aipim e orgânicos, o bairro é responsável por fornecer boa parte da merenda escolar em Jaraguá do Sul, através do programa de distribuição.

“Boa parte dos agricultores do Garibaldi vendem as hortaliças e aqui separam o que vai para a alimentação escolar”, explica Ivanete.

Apesar disso, hoje, lembra a agricultora Marisa Buttendorff, o bairro vive uma “economia mista”, onde parte da população trabalha com a agricultura e parte trabalha nas empresas.  Exemplo disso é Mauro Lennert, que aos 37 anos se divide entre o trabalho formal em uma das grandes indústrias de Jaraguá do Sul e o trabalho na propriedade da família.

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A atividade: plantação de orgânicos e segundo ele e o pai, Mário Lennert, a família não deve levantar as raízes da rua que, inclusive, é chamada de Tifa Lennert.

“Jamais trocaria aqui. Muitos já vieram aqui querendo comprar, mas daqui a gente não sai”, garante Mário que vê o filho dar continuidade ao trabalho da família.

Moradores pedem investimentos

Basta alguns dias sem chuva e um dia de sol forte para que a cada carro que passe pela rua forme uma nuvem de poeira. Esse pó se espalha por praticamente todas as ruas do bairro, com exceção da principal, que foi pavimentada. Mas em partes.

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Nascida e criada no Garibaldi, que atrai pela beleza e tranquilidade, Katiane Lindemann Murara, 30 anos, questiona a ausência de investimentos no bairro.

Para ela, prova que o poder público municipal esqueceu o bairro é a pavimentação da rua principal que foi “picada”. Segundo a Prefeitura, a pavimentação do trecho que falta da rua principal está contemplado no pacote de obras em andamento.

E não é só ela que reclama. Marisa, Alice, Isalir, Ivanete, Adilson, Mauro, Euclides, Mário e tantos outros pontuam a falta de infraestrutura. Para eles, o município esqueceu suas raízes e voltou as costas para o berço da fundação da cidade.

“Jaraguá começou por aqui e a gente vê que é o lugar que menos dinheiro vem”, diz Marisa. “É pouco, muito pouco o investimento. Nós que moramos aqui sabemos que é sossegado, mas também vemos obras na cidade toda, mas em Garibaldi não”, completa Katiane.

Marisa Buttendorff tem 46 anos e já passou mais da metade da vida no bairro. São 28 morando na localidade que mistura alemães, húngaros, italianos e quem mais se encantar pelas belas paisagens. Para ela, falta atenção e incentivo para que o bairro possa, de fato, evoluir. Ela diz que, por lá, “ainda se vive como antigamente”.

Segundo nota divulgada pela Diretoria de Comunicação, a manutenção das estradas não pavimentadas será feita de acordo com o cronograma da Secretaria de Obras e Serviços Públicos.

Distante do centro e sem creche

Quem sai do Centro de Jaraguá do Sul com o objetivo de explorar a beleza e conhecer o Garibaldi passa por muitos bairros até chegar, o que mostra a distância que os moradores do bairro precisam percorrer.

Apesar de ter a Barra do Rio Cerro como o seu “Centro”, onde é possível encontrar quase tudo, como diz a agricultora Marisa Buttendorff, ainda assim, são alguns quilômetros para percorrer.

Distante, o bairro carece de muitas opções quando o assunto é comércio, o que também gera reclamações, mas a falta de serviços públicos básicos incomoda mais.

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Uma das reclamações mais recorrentes é sobre o atendimento às crianças, uma vez que o bairro, embora tenha uma boa escola capaz de atender a demanda, não dá suporte ao público infantil, reclamam os moradores.

Para Katiane Lidemann Murara, essa é a maior reivindicação da população.

“A escola é muito boa e todos conseguem se matricular, mas não tem uma creche e olha que isso já foi fruto de abaixo assinado. Há muitos anos existe a promessa, mas nada se concretiza”, diz.

A comerciante Alice Kroeger, que há 26 anos abre as portas do mercadinho diariamente em frente à Igreja Martim Lutero, também vê na falta de creche um problema bastante grave. Para ela, é fundamental que as mães tenham onde deixar as crianças, afinal, trabalham diariamente, seja na agricultura ou fora dela.

“Meus netos já saíram da creche, mas o pessoal daqui simplesmente não tem onde deixar os filhos”, destaca.

A Secretaria Municipal de Educação informa que será necessário fazer um estudo de viabilidade, tanto de local quanto de demanda pelo atendimento no bairro.

Comunidade cria espaços e eventos para lazer

Outro aspecto alvo de críticas dos moradores é o lazer. O campo do Grêmio Garibaldi e um parquinho instalado recentemente na frente da comunidade luterana são as únicas opções para os moradores que, ressaltam, só possuem o parque graças à própria comunidade. “Não tem lazer por aqui não, não tem pracinha para as crianças”, afirma Katiane.

Segundo Isalir Keiser Nienow, que morou os 45 anos de vida no bairro, eventos no Garibaldi, só os organizados pela comunidade, como as noites de sopa húngara ou pasteladas. Ela conta ainda que havia a promessa de instalação de uma academia ao ar livre ao lado do parquinho, mas até agora, nada aconteceu.

A Prefeitura afirma que as áreas de lazer no município estão sendo alvos de estudos por parte da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer devido ao alto custo de manutenção e, principalmente, “por causa dos atos de vandalismo, furto e depredação destes locais”.

O município ressalta ainda que está ciente da necessidade de criar espaços para o lazer da população e que “está buscando espaços que possam concentrar parques com quadras de esportes, academia de ginástica ao ar livre e equipamentos de recreação infantil. A dificuldade no momento é encontrar terrenos adequados para este fim”.

Apesar dos 53 playgrounds, 38 quadras de futebol de areia e 28 academias ao ar livre espalhadas pela cidade, segundo a Prefeitura, nenhuma delas chegou até o Garibaldi.

Telefonia, internet e Correios são problema

Entre os serviços que acabam sofrendo por falta de infraestrutura estão os de telefonia e internet. Os telefones fixos são instáveis, os móveis só funcionam se pertencer a uma única operadora e a internet só é possível via rádio.

A Prefeitura cita que “nos últimos anos buscou empresas do setor para atender esta demanda. No entanto, estas empresas não demonstraram interesse em fazer o investimento que consideram inviável financeiramente”.

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Mas, para os moradores, o pior mesmo é não conseguir receber correspondência. As contas não chegam, compras pela internet nem pensar e cadastros em bancos e lojas são mais complicados.

“Aqui não chega carta, correspondência, não chega nada e isso é um problema sério”, reclama Adilson Weiler.

Ele conta ainda que quando precisa ir ao banco ou loja para efetuar algum cadastro os responsáveis acabam inserindo um CEP aleatório só para preenchimento. Isso acontece porque as ruas não possuem o Código de Endereço Postal e, dessa maneira, as correspondências precisam ser retiradas nas agências dos Correios.

O agricultor Mário Lennert, 63 anos, reforça a reclamação. “Chegam a falar que a rua não está no mapa, mas eu nasci aqui, fui criado aqui, tenho 63 anos, como que não existe?”, indaga.

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