Em tempos de polarização onde falar de política é, dialeticamente, assinar um tratado de guerra, oportuno e prudente se faz, despojar-se das armaduras conceituais do senso comum e revisitar os clássicos pensadores desta ciência. A propósito, guardadas as proporções histórico-culturais, espera-se que este clima de dúvida, insatisfação, impotência, ceticismo e insignificância, que circunda nossa política, possa corresponder à mesma tensão desencadeadora do transformador movimento iluminista europeu, das duas últimas décadas do século 18. O Brasil há muito, carece de um movimento iluminista na política. A expressiva oposição verificada atualmente em nosso país, não se estabelece entre a esquerda e a direita, mas entre Nação, Estado e Governo, ou, comumente, povo e governo. O que se percebe é a intensificação da dicotomia, distanciamento e repugnância entre essas duas instituições, unidas por direito, mas, inimigas de fato. Como consequência desse fenômeno, temos uma Nação fragilizada, desorientada, e a procura de responsáveis ou culpados. Parte atribuindo a culpa ao governo, outra parte ao povo, outra ainda, imputando culpa ao conjunto, governo e povo. Assim, convicto de minha parcela de culpa, sentindo-me provocado e, tendo em mente esse breve diagnóstico, embarquei na máquina do tempo, em viagem de volta à Grécia antiga do ano 350 a.C. Imaginava encontrar o brilhante pupilo de Platão num banco de uma ágora ateniense, contemplativo ao cair da tarde. O encontrei em seu Liceu ensinando política, ética, virtude, justiça, educação e sociedade. Não negando a origem, entrei sorrateiramente pela porta dos fundos e me acomodei. Na medida em que Aristóteles manifestava suas ideias sobre política eu, mentalmente, buscava alguma relação projetada para minha realidade de 2017. Então, um de seus postulados chamou-me a atenção: “em todas as ciências e em todas as artes, o alvo é um bem; e o maior dos bens acha-se, principalmente, naquela dentre todas as ciências que é a mais elevada; ora, essa ciência é a Política, e o bem em Política é a justiça, isto é, a utilidade geral”. Alguém da atenta plateia o indaga: mestre, qual seu entendimento sobre Estado? Ao que o mestre prontamente responde: “O Estado é um aglomerado que deve ser transformado numa unidade e numa comunidade pela educação”. Já me sentia quase provido, mas, fazendo jus à longínqua viagem, o inquiri expondo minha inquietação tupiniquim: amado guru, em meu país não observamos esses princípios na prática política, então, a quem deveria recair tal culpa, ao povo ou ao governo? Sabiamente me respondeu: “é preciso forçosamente que a sabedoria resida na massa do povo, e que aquilo que ele tenha decretado seja definitivamente firmado como direito ou justo por excelência”. O retruquei: mas mestre, somos um povo tropical moldado pela passividade latina. Bem, disse o mestre, então você já tem a resposta.