Entre marolas e esparsas ondas que, alegoricamente, caracterizam a formação histórica de nossa passiva sociedade brasileira, surge momentaneamente um fenômeno sui generis que ainda não julgamos se tratar de um tsunami ou substancial ressaca, mas, cuja compreensão torna-se premente. De antemão precisamos admitir que nunca fomos uma sociedade domesticamente formatada, ou, na expressão popular, nunca fomos um produto da casa. Sempre adotamos ou nos influenciamos por modelos alheios. Passamos centenas de anos moldados como sociedade luso-colonial. Depois, com o advento da fábrica no século 19, na Inglaterra, nos deixamos forjar pela nova sociedade euro-industrial, perdurando praticamente um século. Até então tivéramos tempo suficiente para experimentar, absorver e se adaptar. Ocorre que, há poucas décadas, uma nova e importante transição, protagonizada pela guerra fria, gerou a revolucionária internet e, por meio dela, a sociedade da informação. Nem metabolizamos direito seus efeitos e amanhã já adentraremos a sociedade high tech das máquinas espirituais, ou voltaremos para caverna. Pela primeira vez experimentamos a sensação de estarmos migrando para uma dimensão imaterial de sociedade. Por decorrência, em todos os campos, as transformações se processam de forma cada vez mais rápidas e intensas, impossibilitando a compreensão de nossos cérebros e do mercado. Transformamo-nos, como bem traduziu o pensador Domenico de Masi, em “nômades transitando por percursos inéditos, sem um ponto de referência nem um itinerário preestabelecido”. Contudo, é bom que se diga que esse fenômeno, por si só, pode representar desconforto social, mas, não necessariamente risco, pois é intrínseco ao processo de evolução. Por outro lado, e aqui reside a substancial lacuna, há dois fatores decorrentes desse processo que representam uma tensão desestabilizadora da sociedade: i) a impossibilidade de produção e regulação de leis na mesma velocidade das transformações; ii) a inércia do povo em admitir e assumir, efetivamente, seu poder assegurado constitucionalmente. Como bem descreveu Darcy Ribeiro, “somos um povo sem ser, impedido de sê-lo, abandonado no limbo da “ninguendade”. Penso serem essas deficiências conjugadas que poderão degenerar a democracia, pois é exatamente neste vácuo que se fortalecem e se perpetuam os interesses sectários e corporativos de uma minoria concentradora do poder ilegítimo e imoral. Sem atitude, ruptura e reinvenção, nos manteremos alicerçados em nosso tradicional modelo de sociedade incapaz de imposição, mobilização e geração de líderes representativos e transformadores. Nessa condição, veremos que o fenômeno que ora vivenciamos não passará de uma ressaca.