São 44 anos manuseando a navalha, a tesoura e o pente com maestria, em uma profissão secular que, ao contrário do que possa parecer, está longe da extinção. A serenidade no olhar e nos gestos, aliada à postura discreta, são as características que mais se destacam no barbeiro jaraguaense Adilo Kamchen, 63 anos. Basta passar pela barbearia dele, no centro de Jaraguá do Sul, para ver que o movimento se mantém e os clientes não se importam em esperar para serem atendidos. Apesar de remontar à Idade Média, onde também atuavam como “barbeiros-cirurgiões”, no Brasil a profissão foi regulamentada apenas no dia 19 de janeiro de 2012, juntamente com a dos cabeleireiros. Em tempos de valorização do estilo vintage, sempre há os que preferem ter o cabelo cortado e ser barbeado ao estilo tradicional, de forma meticulosa e se sentir um cliente vip. Ele reconhece que a barbearia é um reduto inteiramente masculino onde se fala de tudo: política, economia, futebol, mulheres... “O que se fala aqui, fica aqui dentro”, assegura, com um sorriso. O veterano Adilo segue uma tradição de família iniciada pelo pai, Erico Kamchen, nascido em Corupá, que durante 22 anos tocou a barbearia no mesmo prédio e seguiu firme na profissão até que a saúde permitiu. E da mesma forma, de pai para filho, Adilo também passou o bastão ao filho caçula, Fábio Carlos, o único dos quatro que optou pela profissão e com quem divide o estabelecimento há aproximadamente nove anos. Com certa timidez, ele aceita conceder a entrevista enquanto atendia um cliente. “Gosto muito da minha atividade. Enquanto tiver saúde, vou continuar. Tenho alguns clientes fiéis de décadas”, conta Erico. Mas salienta que a clientela se renova constantemente, apesar de não contabilizar quantos atendimentos faz ao dia. A tabela de preços do corte de cabelo, barba e acabamento, está afixada na parede, próximo à porta, com preços variáveis entre R$ 10 e R$ 20. Fiado, não mais... Com a crise do ano passado, reconhece, a queda no serviço baixou em torno de 30%, mas felizmente não chegou a comprometer o negócio. “Sinto que sou valorizado”, resume, feliz. Trabalho “apovadíssimo” Pereira Junior, 17 anos, teve o cabelo e a barba feitos pelas mãos hábeis de Adilo, ontem. Ele foi com o irmão Kaike, 11 anos, e confirma que pela primeira vez teve a barba feita por ele: “Cortava antes com o Fábio, sempre vim com o meu pai. O ‘seo’ Adilo é mais calmo e acalma a gente. Está aprovadíssimo.” 2016-01-29 - barbeiros jaraguá - piero ragazzi (82) Terceira geração Fábio Carlos Kamchen, 27 anos, é objetivo ao se expressar. Apesar dos temperamentos diferentes, diz que ele e o pai se afinam no trabalho. “Ele [pai] me passa tranquilidade e calma. Eu sou mais ‘queimado’”, reconhece, rindo. “Trabalhei em uma indústria de embalagens, na produção, por dois anos. Em princípio, não pensava em ser barbeiro, mas optei depois por considerar mais lucrativo. É um passatempo e uma forma de ganhar a vida. Bem melhor que enfurnado numa fábrica.” 2016-01-29 - barbeiros jaraguá - piero ragazzi (6)