Um dia atípico para quem enfrenta a rotina corrida dos últimos meses do ano. Sozinhos ou acompanhados por familiares, muitos jaraguaenses compareceram aos cemitérios do município para honrar e lembrar seus entes queridos no Dia de Finados, celebrado nesta quinta-feira (2), cena repetida em todo o país. Os vasos e arranjos de flores, os rosários e as velas e aproximavam pessoas desconhecidas com um sentimento em comum: a saudade. Lidar com a perda de quem se gosta e com quem se compartilhou histórias é um processo que cada um enfrenta de uma maneira e que necessita de tempo e compreensão. Homenagear e recordar são ações tradicionais no Dia de Finados e que também colaboram para amenizar o sentimento de tristeza. Conforme registros históricos, a tradição foi instituída pela Igreja Católica no século 10 e diz que os vivos devem interceder pelas almas que estão no purgatório esperando a purificação. A escolha pelo dia 2 de novembro como a data oficial aconteceu apenas no século 13. Os responsáveis pela igreja teriam optado por esse dia pela proximidade com o Dia de Todos os Santos, comemorado em 1º de novembro. As celebrações ocorrem de diferentes maneiras pelo mundo. No México, por exemplo, a data se transformou em uma atração turística. As pessoas saem às ruas com pinturas de caveiras no rosto e outras partes do corpo, além de decorarem suas casas com esqueletos. A festa também é uma forma de homenagear os entes queridos. HOMENAGENS À DISTÂNCIA  Logo na entrada do cemitério municipal da Vila Lenzi, Felipe Correa, de 25 anos, refletia parado em frente ao velário. Com a madrinha, a avó e o padrasto enterrados em São Francisco do Sul, ele tirou alguns momentos do feriado para ir ao local e, de alguma maneira, sentir-se mais próximo dos seus familiares. “É uma forma de homenageá-los, já que não consigo ir até São Francisco. Muitas lembranças vêm no pensamento nessas horas, o cheiro da minha avó, as comidas, os sorrisos, cada momento faz falta”, conta Correa.
Velário no cemitério da Vila Lenzi foi ponto de orações para quem foi prestar homenagens | Foto Eduardo Montecino/OCP
RECORDAÇÕES EM FAMÍLIA  Mesmo após dez anos da perda dos pais, Luis Deon de Souza ainda se emociona ao olhar as lápides e sentir saudades. Orlandino e Mara também eram avós e bisavós, deixando recordações em cada um dos integrantes da família. “Eles eram meus pais adotivos, foram muito amorosos e serviram como exemplo. Quando se foram, foi como perder uma parte da vida”, comenta Souza. Junto dele, estavam sua mulher e filhas. “É uma tradição, um cuidado, que buscamos passar entre as gerações”, observa Elaine.
Luis Deon e sua família recordaram momentos já vividos com seus pais | Foto Eduardo Montecino/OCP
O RECOMEÇO  Para Cyntia Odelli, de 31 anos, a dor da perda contrasta com a alegria de uma nova vida. Grávida de um menino de sete meses, Cyntia conta que costuma passar diariamente pelo cemitério do Centro de Jaraguá do Sul para visitar o túmulo da avó, que morreu no ano passado. “É uma saudade muito grande da minha avó Lony. Como o local é próximo do trabalho, faço este trajeto todos os dias e dou uma passada por aqui”, comenta.
Em meio às demonstrações de saudade, Cyntia e Gian celebram a alegria de uma nova vida | Foto Eduardo Montecino/OCP
VENDA DE FLORES MOVIMENTA COMÉRCIO Utilizadas para demonstrar amor e respeito, as flores são um dos itens mais procurados no Dia de Finados. Pelos arredores dos cemitérios, com uma semana de antecedência já era possível encontrar tendas com flores à venda para a data. Trabalhando com floricultura há 46 anos, Vilma Kraus, 61 anos, revela que o feriado é o dia de maior movimento para o setor no ano, apresentando cerca de 70% a mais de vendas em relação aos outros dias.
Segundo Vilma, o Dia de Finados é o que registra maior venda de flores no ano | Foto Eduardo Montecino/OCP
Para este ano, Vilma levou mais de 800 arranjos para sua barraca em frente ao cemitério da Vila Lenzi. Por volta das 11h, cerca de 600 flores já tinham sido vendidas. “O movimento é grande o dia todo, mas principalmente de manhã. Cheguei às 7h e só vou embora às 19h. A saída não para e, enquanto vamos vendendo, vou fazendo novos arranjos”, relata. Segundo ela, os produtos mais procurados são os vasos de crisântemos e flores artificiais. FLORES BRANCAS  Ir ao cemitério no Dia de Finados e com frequência ao longo do ano é um hábito que Valéria Krause, 78, mantém há pelo menos 61 anos, quando perdeu seu primeiro familiar. A mãe, o pai e o marido estão enterrados no mesmo local. Sua mãe, que foi a primeira a partir, fazia aniversário no dia 1º de novembro. “Ela adorava flores brancas, por isso, coloquei dois vasos hoje para decorar. Faço questão de limpar e visitá-los”, relata. Apesar das perdas, Valéria mantém a alegria de viver e os princípios que aprendeu com seus pais. “Precisamos ter humildade”, completa.
Apesar das perdas importantes, Valéria faz questão de seguir a vida colocando em prática os valores passados pelos pais e marido | Foto Eduardo Montecino/OCP
DEDICAÇÃO COMPLETA  No Dia de Finados, Elsidia Dalpra abre mão de qualquer outro compromisso para prestar homenagens ao marido, morto há 16 anos. Flor por flor, ela mede os troncos e organiza os crisântemos alstroemerias com zelo e amor. “Não tenho pressa, posso passar horas arrumando os arranjos. Me sinto bem fazendo isso e acho que é a única coisa que ainda podemos fazer por quem contribuiu tanto para as nossas vidas”, afirma Elsidia.
Elsidia Dalpra se dedica, sem pressa, à arrumação das flores que decoram o túmulo do marido, falecido há 16 anos | Foto Eduardo Montecino/OCP
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