Por Heloísa Jahn Ao passar a curva, o imponente prédio em tons de azul, rico em detalhes e histórias, se mostra para quem chega na localidade de Garibaldi, na área rural do município catarinense de Jaraguá do Sul. De arquitetura imponente, a Igreja Santo Estevão é mantida tal qual como foi construída há 95 anos, graças ao amor de uma comunidade que cresceu ao seu redor. Erguida em 1922 por famílias húngaras e sendo reformada pela primeira vez em 1960, a Santo Estevão preserva memórias em cada parte da edificação. Seja pelos pequenos detalhes nas paredes externas, pelas pinturas manuais que transformam o interior do prédio em uma obra de arte ou pelos grandiosos altares de madeira – dois laterais e um central, que estão ali desde os primeiros dias da igreja. O mesmo espírito de fé e união que deu vida à igreja permanece até hoje. As 300 famílias que pertencem à comunidade são as responsáveis pela preservação do prédio e se orgulham de sua história. Tanto é que procuram interferir o mínimo possível nas características do patrimônio, que não é tombado pelo município, para que as próximas gerações tenham contato com esse monumento. Uma das provas da preservação é a maneira como é guardado o documento de certificação da Santo Estevão e a lista com os nomes dos fundadores: à esquerda do altar, dentro da pedra fundamental. igreja santo estevao - em (4) A tesoureira da comunidade, Margarida de Andrade, conta que a igreja foi restaurada há aproximadamente seis anos e existe sempre a preocupação com a manutenção. “A preservação é de tudo que tem aqui dentro, desde a mobília, estrutura até a maneira como são feitas as celebrações, para manter as tradições, e tudo é passado de geração em geração”, diz. De acordo com a historiadora Silva Kita, a Igreja Santo Estevão é um marco da imigração húngara no município. Os imigrantes chegaram aqui a partir de 1891 e se instalaram na região de Garibaldi. “O que temos ali (na igreja) é a concretização de uma parte da cultura deles: a religiosa. A fé foi o que os trouxe até aqui e fez com que eles permanecessem nessa região”, conta. A primeira sede da igreja foi construída em 1984, que servia também como escola. “A igreja sempre foi um marco das imigrações, pois era o ponto de encontro dos imigrantes, não só religioso, mas cultura em todos os seus sentidos”, afirma. Memória materializada Não é apenas nas paredes, nos bancos e altares que a Santo Estevão preserva memórias. Recentemente, membros da comunidade encontraram objetos antigos, como uma cruz de procissão, castiçais e outros objetos que eram usados antigamente nas celebrações e até as vestes utilizadas pelos primeiros padres da comunidade. A intenção, segundo a tesoureira Margarida de Andrade, é fazer um levantamento de todas as peças. “Queremos saber tudo o que tem aqui, ver o que dá para restaurar e quem sabe até montar um acervo”, planeja. Igreja Santo Estevão-Foto Arquivo Patrimonio Histórico Jaraguá do Sul (1) Entre os objetos guardados com amor pelos membros está a imagem de Santo Estevão vinda da Hungria - que ocupa lugar principal no altar. Outro objeto que está desde os primeiros anos da igreja e até hoje segue firme o ritmo é o sino principal. Até hoje, é ele quem dá as badaladas para as missas, realizadas sempre no segundo domingo e quarto sábado de cada mês pelo padre Lindolfo Neves. Famílias constroem histórias na igreja Palco da expressão da fé, a igreja tem sua história ligada a muitas pessoas. Afinal de contas, já abriu a porta inúmeras vezes para celebração de casamentos e batizados. Membro da comunidade há cerca de 20 anos, Margarida de Andrade fala que não é incomum que os mais antigos contem histórias relacionadas à igreja. “Muitas pessoas também decidem se casar aqui ou participam das festas, mesmo não morando mais no bairro, porque seus pais, avós ou bisavós fizeram parte da comunidade e veem nisso uma forma de ligação e continuidade de uma história familiar”, comenta. Igreja Santo Estevão-Foto Arquivo Patrimonio Histórico Jaraguá do Sul (4) Margarida mesmo não cresceu na comunidade, é natural de Rio do Oeste, e quando veio para cá foi abraçada pelo local. “É gratificante saber de toda a história e ver que agora fazemos parte disso. Toda a comunidade procura conversar, manter e preservar esse patrimônio”, enfatiza.