Marcada por uma guerra civil que se arrasta desde 2011 e que já deixou quase meio milhão de mortos e mais de 5 milhões de refugiados, a Síria e sua complexa situação geopolítica são o tópico de uma palestra no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), às 13h de hoje. Traçando um panorama histórico, político e legal sobre o conflito, o encontro será guiado pela especialista em relações internacionais Amanda Pimenta Silva, natural de Jaraguá do Sul. Destinado inicialmente para alunos do ensino médio, o evento atraiu tanto interesse que aquilo que seria uma conversa em sala de aula deu lugar a duas palestras - nesta quinta-feira, e a segunda hoje - abertas ao público, segundo a organizadora do evento, a professora de sociologia Kenia Gaedtke. "É um tema muito atual e muito relevante. Percebemos que as pessoas têm muito desconhecimento e até preconceito sobre o assunto ", explica. Segundo Amanda, embora possa parecer distante, o conflito na Síria - assim como outros conflitos no Oriente Médio - trazem repercussões diretas para a realidade brasileira, devido ao cenário globalizado. "Estes conflitos afetam coisas como os preços do petróleo e do dólar, e mesmo que não estejamos consumindo o petróleo do Oriente Médio, estes preços têm impacto no preço dos combustíveis no Brasil", explica.

Conflito é mais complicado do que parece

Amanda destaca que o conflito sírio é complexo e multifacetado, e o velho viés de análise bipolarizado da guerra, com um embate entre dois estados-nação, não é uma análise eficiente para a Guerra Civil Síria. "Esse é um conflito com vários grupos de poder não estatais e estatais e relações de poder que variam conforme os interesses destes grupos", explica, destacando os separatistas curdos - tidos pelos EUA e países aliados como terroristas até se demonstrarem fundamentais no combate ao Estado Islâmico. Hoje, são mais de duas dezenas de grupos envolvidos no conflito sírio, quase todos acusados de crimes de guerra e vários deles contando com apoio internacional no que é chamado de uma "guerra por procuração", recebendo recursos, know how e armamento de países como EUA, Rússia, Turquia e Arábia Saudita - cada qual defendendo seus próprios interesses na região. Antes mesmo do conflito, no entanto, a Síria vivia em um estado de exceção, decretado pelo partido Baath, do atual presidente Bashar Al-Assad, em 1963. Quadro de instabilidade que levou à guerra começou com uma série de protestos contra Assad em 2011, duramente reprimidos através do uso de poderio militar, e que levaram a uma escalada de violência contra e a favor do governo. Nesse ínterim, milícias que haviam se formado desde a guerra do Iraque (2003-2011) se consolidaram em zonas de instabilidade do Oriente Médio e deram origem ao Estado Islâmico do Iraque e da Síria (EIIS, ou ISIS em inglês), que se estabeleceu fortemente em meio à violência na Síria.

Cenário histórico e futuro

Um dos assuntos abordados por Amanda é o cenário histórico do Oriente Médio, da divisão dos estados após a queda do império Turco-Otomano (em 1922) até o presente vácuo de poder que levou a organização de milícias extremistas na forma de grupos como o Estado Islâmico e a Frente Al Nusra - esta última ligada à Al Qaeda. Ela destaca que esse quadro histórico e o apoio internacional à grupos de combatentes irregulares na região tem forte ligação com a situação atual do Oriente Médio. Outro aspecto é a crise de refugiados causada pelo conflito, que minou a infraestrutura local e reduziu o que antes era um estado relativamente próspero a uma zona abandonada e resultou em mais de 7 milhões de pessoas deslocadas internamente e mais de 5 milhões de refugiados internacionais. "Se criou uma imagem de que os refugiados sírios estão indo em massa para a Europa, mas são poucos deles que conseguem ir para lá. A grande maioria está em países vizinhos, como o Líbano", explica a especialista, destacando que hoje, dos 6 milhões de habitantes do Líbano, 1,5 milhão são refugiados do conflito na Síria. Amanda levanta outra questão importante: o que aguarda o país no futuro, incluindo a possibilidade de redefinição de suas fronteiras, e a jurisprudência internacional sobre os crimes de guerra cometidos durante o conflito. "A Organização das Nações Unidas (ONU) está cogitando a criação de um tribunal especial para julgar os crimes de guerra na Síria, como foi feito com a antiga Iugoslávia, mas ainda é incerto quem será julgado e por que crimes", explica. Ela destaca que houve uma tentativa de abrir uma investigação no Conselho de Segurança da ONU, mas a China e a Síria usaram de seu poder de veto para barrar essa investigação. Leia mais https://ocponline.com.br/festival-da-cultura-e-do-livro-de-guaramirim-comeca-nesta-sexta-feira/ https://ocponline.com.br/carmen-lucia-recebe-documento-pelo-fim-do-foro-privilegiado/