O relógio marcava 14 horas. Ligação feita e “deixe seu recado”, dizia a mensagem eletrônica. Com problemas no celular, uma hora mais tarde, Kleber Cavalcante Gomes, o Criolo, atendeu o telefone solícito para conceder entrevista ao jornal O Correio do Povo. De fala mansa e posicionamentos diretos, o rapper, que completou 41 anos no início do mês, falou com exclusividade ao jornal sobre a carreira, o atual trabalho e sua visão do país. Criolo deixou o gueto do rap paulistano, multiplicou o alcance de sua música e atualmente é um dos artistas mais aclamados pela crítica no Brasil. Em comemoração aos dez anos do lançamento de seu álbum de estreia, Ainda Há Tempo, Criolo percorre o país com a turnê de mesmo nome e desembarca no sábado (24) para um show em Balneário Camboriú, ao lado de Gabriel, o Pensador. https://youtu.be/nvJQZyBBUMw Como surgiu a ideia de regravar o “Ainda Há Tempo” e contar com importantes parcerias para essa nova releitura? Na verdade, a gente ia fazer só uma apresentação para celebrar os dez anos do meu primeiro disco e aí o Daniel Ganjaman teve a ideia de convidar alguns produtores para contribuir com uma parte, porque as instrumentais do antigo disco se perderam no estúdio em 2005. Então, não tínhamos o som e tivemos que refazer. Quando chegaram as instrumentais, começamos a ensaiar, tivemos a ideia de chamar o Alexandre Oreo para fazer a direção de arte desse show, é a primeira vez que estamos experimentando isso. Quando fomos ver, tinha uma energia muito grande ao redor e deu essa história toda. Surgiu vontade de fazer um registro desse momento. A partir disso que surgiu o novo disco, das consequências desse movimento. O disco é uma consequência do encontro de várias pessoas. Qual tem sido a resposta do público por onde passa com a turnê? Extremamente produtiva, muito emoção. Um disco de dez anos atrás traz um monte de histórias, sentimentos e, para minha surpresa, muitas pessoas já tinham escutado esse disco. Foi uma surpresa porque a gente trabalhando, fazendo o som, não consegue mensurar até onde chega o nosso som. Você imaginava que teria esse retorno positivo? Não imaginaria nunca isso na minha vida. Canto porque é uma necessidade humana se expressar, independente do que venha acontecer. Como se sente ao ver o rumo que sua carreira está tomando? Para quem já passou fome, para quem depois de 20 anos cantando não ia mais cantar, ter tudo isso acontecendo na minha vida, você acha que eu tenho coragem de reclamar de alguma coisa? Agradeço a Deus todos os dias. Eu já passei fome. Tem coisas na vida que a gente não esquece nunca. Nunca imaginei que iria ter o que comer três vezes por dia, quem dirá fazer uma turnê fora do país. Isso é uma conquista nossa, de toda a nossa geração. Mesmo depois de uma década, seu disco continua com letras atuais. Como você vê a relação do que você retratou com o contexto atual? Com muita tristeza porque o disco foi lançado em 2006 mas tem musica de vinte anos atrás. Então, saber que em duas décadas não avançamos o tanto que poderiamos avançar, é muito triste. Suas letras tem crítica social muito forte. Você acha que seu trabalho contribui para que mais pessoas olhem para as periferias e para que o cenário mude? O rap sempre trouxe isso, não sou eu quem trago. Quem vem do sofrimento, não quer ver ninguém sofrer. Eu não sei se pode contribuir, não dá para mensurarmos isso, mas de alguma forma sensibilizar quem a escuta. Se isso fizer parte de uma contribuição, vou me sentir extremamente grato. Eu não sei se é uma contribuição porque muitas pessoas podem ouvir e tratar de outra forma, entende? Tem pessoa que fala: não quero ouvir isso, não me contribuiu em nada. O que vale é você fazer o que está no seu coração, independente do que o outro vai achar. Qual o papel da arte nesse aspecto? Não acho que tenha esse papel. A arte é livre, as questões humanas nos levam para vários caminhos e a arte é um tanto do reflexo de tudo que passa por você. Se você acha válido e contribuir para o bem de todos, você vai fazer isso. Tem gente que acha que não e vai enveredar por outros caminhos. A arte é livre, mas ao mesmo tempo ela tem um tanto da energia que você deixa nela. Então, esse olhar e posicionamento é da pessoa, seja ela artista ou não. O Criolo de dez anos atrás é o mesmo de hoje? Envelheci. Eu sou um aprendiz, há dez anos era e agora sou mais ainda. Muito mais. A letra de Vasilhame, regravada no novo álbum sofreu uma pequena alteração para retirar uma parte meio preconceituosa . Por que você viu essa necessidade e como avalia essa mudança? Porque eu aprendi que aquela palavra magoava pessoas. Quando eu fiz as músicas, eu não sabia que aquela palavra magoava e aí não faz sentido eu magoar as pessoas. Entrando nesse aspecto, nos últimos tempos estão sendo levantadas questões de gênero, contra violência, machismo, etc. Você reviu seus próprios preconceitos e percebeu que também precisava mudar, apoiar a mudança? Que bom que as coisas hoje são interpretadas de outras formas. Vejo que apoiar causas deve ser se perceber como alguém que está solidário ou que faz parte de uma sociedade onde todos tem que ter os direitos iguais. É natural de cada um. Isso vem dos sentimentos das pessoas, das emoções, de como a pessoa enxerga o mundo. Não precisa ninguém falar para ela que ela tem que abraçar uma bandeira, é natural. Vem de modo natural de quem tem o coração bom. Isso vem de muitos anos. Agora o que muitas vezes não entendemos é a raiz do nascimento de determinada palavra, gíria ou jargão popular. Absorvemos aquilo que o senso comum nos oferece. O que não significa que esta pessoa seja uma pessoa preconceituosa. Existe a pessoa preconceituosa, sim, existe. Existe a pessoa ignorante, aquela que é por opção, mas existe aquele age de modo preconceituoso porque não tem conhecimento. Porque ninguém chegou para ele e falou. Se não, vamos crucificar todo mundo e ninguém se salva. Falta troca de conhecimento, de tudo. Cultura, escola boa para todo mundo, interpretação de texto, interpretação da vida. Como vê o Brasil da atualidade, acha que o país está progredindo? Eu vejo a situação de um pais com potencial maravilhoso amassando a cabeça dos seus cidadãos, é isso que eu vejo. Desde que me entendo por gente, quem é rico vai ficar cada vez mais rico e o pobre não tem nenhuma condição real de progredir. Somos triturados todos os dias. O que o pessoal pode esperar do show em Balneário? É um show feito com muito carinho, muito respeito ao público, resgate cultural. Cheio de amor, isso você pode ter certeza.