Nesta quinta-feira (8), no Dia Internacional da Mulher, diferentes movimentos sociais espalhados pelo mundo convidam as mulheres para uma reflexão. Um movimento chamado Greve Internacional de Mulheres, por exemplo, tem eventos marcados em pelo menos 50 cidades brasileiras. A mobilização deve refletir em quase 200 países. A articulação ocorre principalmente pelas redes sociais. No ano passado, as manifestações chegaram a acontecer, mas não tiveram tanta força por falta de apoio sindical. Em 2018, os sindicatos fazem parte da base de convocação. Pela região, os eventos voltados ao debate e à luta da mulher pela igualdade de direitos também estão mais fortes. A professora universitária e doutora em antropologia, Maria Elisa Máximo, pontua que é necessário ter consciência que o Dia Internacional da Mulher não é uma data para celebrar, e sim, para dar espaço aos movimentos que buscam por visibilidade para aumentar a igualdade entre os gêneros.

Foco em estética e vida saudável fazem os estereótipos crescerem

Para ela, algumas ações de instituições privadas vão contra a causa, tentando amenizar a importância do dia. “Eventos com foco em estética e vida saudável fazem os estereótipos crescerem ainda mais”, acredita a antropóloga.
Maria Elisa Máximo é professora universitária e doutora em antropologia | Foto Arquivo Pessoal
Maria Elisa Máximo é professora universitária e doutora em antropologia | Foto Arquivo Pessoal
Maria também avalia que, ao mesmo em tempo que houve avanços significativos no decorrer do último século, algumas desigualdades foram acentuadas. O mais importante, segundo ela, é que se abriram canais de denúncia para casos de violência física e psicológica. “Antes os casos existiam, mas não vinham à tona, não eram noticiados. Hoje, os números dão força para o movimento”, comenta. Para ela, ainda falta o entendimento de que existem diferentes formas de violência contra a mulher, principalmente em relação a ações que antes eram vistas como naturais pela sociedade, como as cantadas abusivas nas ruas e piadas no ambiente de trabalho. “As mulheres são agredidas de formas sutis e frequentes. Fomos criados em uma sociedade patriarcal e machista, que realça a desigualdade”, explica. A luta feminina por igualdade está longe de ter fim. Apesar de o Dia Internacional da Mulher ser uma data onde os avanços são celebrados, os índices mostram que os problemas históricos persistem. E, mesmo que o número de pessoas engajadas em defesa da igualdade de gêneros venha aumentando, ainda há muita resistência.

Violência contra a mulher é realidade em todo o país

Em 2017, mais de 4.400 mulheres foram vítimas de homicídio no Brasil, o que significa que uma mulher é assassinada a cada duas horas, segundo o Monitor da Violência. O último relatório da Organização Mundial da Saúde aponta que o Brasil ocuparia a sétima posição entre as nações mais violentas para as mulheres de um total de 83 países. No ano passado, Jaraguá do Sul contabilizou dois casos de feminicídio. Em um deles, o ex-marido inconformado com o pedido de divórcio matou a mulher com sete facadas no abdômen. Naquele momento, a filha de quatro anos do casal o aguardava dentro do carro da família, para o qual ele retornou com as mãos sujas de sangue. Este relato macabro e aterrorizante acaba virando estatística e aquela vítima, hoje, é mais um número. No Brasil, os casos de feminicídio cresceram 16,5% em relação a 2016, totalizando 946 mortes. A vice-presidente da União Brasileira de Mulheres (UBM) Jaraguá do Sul, Ana Abel, afirma que o município é considerado bem violento para as mulheres. Segundo ela, é uma das cidades que tem mais casos de estupro em Santa Catarina. Além disso, é a 11ª com mais casos de violência contra a mulher.

Violência sexual apresenta números significativos

Em 2017, Jaraguá do Sul registrou 101 casos envolvendo violência sexual | Foto Eduardo Montecino/OCP Online
Em 2017, Jaraguá do Sul registrou 101 casos envolvendo violência sexual | Foto Eduardo Montecino/OCP Online
Da virada do ano até 5 de fevereiro foram registrados dez casos de estupro. Em 2017, foram 101 casos envolvendo violência sexual, 64 contra menores de 14 anos, 16 relacionados a adolescentes, 14 contra mulheres e sete tentativas. Um caso de estupro a cada 3,6 dias, conforme os dados da DPCAMI. “Nos nossos encontros mensais, ouvimos relatos que dizem respeito a estupro de menores, estupro de mulheres, violência doméstica, principalmente nas zonas mais pobres”, revela Ana Abel. Para ela, o maior problema local é a cultura conservadora, onde muitas mulheres ainda vivem casamentos agressivos e abusivos. “(Nessas relações) elas não possuem o mesmo poder que os homens, vivem sobrecarregadas, com jornadas onde precisam cuidar da casa, do marido, dos filhos e trabalhar, impedidas de avançar e sair dessa situação”, aponta. Em contrapartida, a ativista comemora o crescimento do movimento feminista em Jaraguá do Sul desde 2015, com a fundação da UBM. “Hoje a gente tenta fazer um encontro por mês e está se unindo ao IFSC, que já tinha alguns projetos feministas”, completa.

Força política que não se reflete nas urnas

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, em 3 de maio de 1933, na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte, a mulher brasileira, pela primeira vez em âmbito nacional, votou e foi votada. Antes disso, o Estado pioneiro no reconhecimento do voto feminino foi o Rio Grande do Norte. Lá, elegeu-se a primeira prefeita brasileira, em 1929. Alzira Soriano foi conduzida à prefeitura da cidade de Lages. Ainda conforme o TSE, as mulheres tornaram-se a maioria dos votantes nas eleições gerais de 2010, quando 51,82 % dos 135 milhões de eleitores eram do sexo feminino. Dados estatísticos da Justiça Eleitoral mostram que hoje 52% do eleitorado brasileiro é formado por mulheres, somando 77.076.395 até fevereiro deste ano.
Natalia Lucia Petry é figura política de destaque em Jaraguá do Sul | Foto Eduardo Montecino
Natalia Lucia Petry é figura política de destaque em Jaraguá do Sul | Foto Eduardo Montecino
No entanto, os direitos adquiridos há mais de 80 anos não significam que o panorama político mudou efetivamente. Em Jaraguá do Sul, o município teve somente uma prefeita até hoje. Cecília Konell assumiu como prefeita em 2009, encerrando o mandato em 2012. Na Câmara de Vereadores, sete mulheres atuaram desde a fundação do município. Três delas ocuparam o cargo de vereadora no mesmo período legislativo. Lorita Zanotti Karsten, Maria Elisabet Mattedi e Niura Sandra Demarchi dos Santos foram eleitas para o mandato de 1997 a 2000, segundo dados da Câmara. Atualmente, a única legisladora eleita é Natália Lúcia Petry, que ao assumir a Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer acabou se desligando da Casa. Para a professora universitária e doutora em antropologia, Maria Elisa Máximo, é preciso amenizar efetivamente a desigualdade nos mais diferentes setores.
“Quando há uma questão importante em debate e não tem participação feminina, não adianta apenas lamentar, tem que ir buscar essa presença, entender o motivo para a mulher não estar ali. Ela teve estímulo? Sofreu algum tipo de preconceito? Precisamos lutar por isso”, ressalta.
Lista de vereadoras eleitas em toda história de Jaraguá do Sul:
  • Ieda Maria de Souza (Legislatura 1973 - 1976);
  • Marilse Y. D. Marquardt (Legislaturas 1989-1992/1993-1996);
  • Lorita Zanotti Karsten (Legislaturas 1997-2000/2001-2004);
  • Maria Elisabet Mattedi (Legislatura 1997-2000);
  • Niura Sandra Demarchi dos Santos (Legislatura 1997-2000);
  • Maristela Menel Rosa (Legislaturas 2001-2004/2005-2008);
  • Natália Lucia Petry (Legislaturas 2009-2012/2013-2016/2017-2020).
https://ocponline.com.br/eventos-marcam-o-dia-da-mulher-em-jaragua-do-sul-e-joinville/ *Reportagem de Dyovana Koiwaski e Ana Paula Gonçalves