Não existe um dado oficial sobre o número de motoboys atuando em Jaraguá do Sul. Mas basta circular pelas ruas mais movimentadas para perceber o crescente aumento do número de entregadores a bordo de motocicletas, especialmente após o início da pandemia de Covid-19.

Desde o início do ano passado, o empreendedor Edson Schmidt, 46 anos, registrou o crescimento na demanda por serviços em seu negócio - que emprega 6 entregadores, incluindo ele, a filha e a esposa.

“O serviço de moto sempre foi crescendo, gradativamente, mas sempre crescendo. Agora alavancou muito rápido, foi solicitado mais serviços de motoboy com o pessoal com medo de sair de casa por causa da pandemia”, considera.

Segundo o estudo elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o número de entregadores e motoboys cresceu 3,5% em todo Brasil em 2020.

Conforme essa pesquisa, mais de 95% dos trabalhadores da categoria são formados por homens e cerca de 44% têm até 30 anos de idade.

Mesmo não sendo um número claro do uso do veículo para trabalho, os dados do Departamento Estadual de Trânsito do Estado de Santa Catarina (Detran) apontam para um crescimento de quase 4% na frota de motocicletas e motonetas - em julho de 2019 eram 23.978 e até o mês passado eram 24.918.

Edson apostou em uma pequena empresa de entregas que gera 6 empregos formais | Foto Natália Trentini/OCP News

Edson começou há 15 anos na área, após perder o emprego. Adquiriu uma moto e iniciou a busca por clientes, entregando todo tipo de mercadoria. Com os anos, foi vendo uma busca crescente pelo serviço e decidiu formalizar uma empresa.

Segundo o empresário, para além do momento atual vivenciado pela sociedade, existe uma transformação de comportamento relacionado ao ritmo de vida acelerado: as pessoas preferem pedir refeições prontas, receber em casa medicamentos, documentos e outros tipos de mercadorias. Um reflexo das compras virtuais que fez os estabelecimentos de vários ramos se adequarem ao modelo de entrega.

Para o entregador da Rede OCP de Comunicação, Ezeram Neckel, 58 anos, que atua desde 1978 como motoboy fazendo as entregas do jornal, atualmente existe um reconhecimento do profissional.

Tento responsabilidade no trânsito e com as entregas, Ezeram avalia ser uma boa área de atuação e percebe a demanda por profissionais mesmo em um contexto de instabilidade na economia.

“Atividade de motoboy é o que mais tem emprego hoje, é que estão exigindo, as empresas precisam de um serviço rápido”, diz.

Mercado rumo a formalização

Não existe pré-requisito para iniciar um trabalho na área. É apenas necessário ter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para garantir a função.

Diferente do que Ezeram vivenciou, sendo entregador contratado como funcionário, ele comenta que atualmente o mercado mudou: muitos motoboys são prestadores de serviços atuando como microempreendedor individual (MEI) e outros atuam através de aplicativos de entrega.

Segundo dados da Receita Federal, no Brasil existem pelo menos 212.681 MEIs registrados prestando serviços de malote e de entrega rápida. Em Jaraguá do Sul, 253 empreendedores têm esse registro.

Ainda existe o mercado informal, já que muitos motoboys atuam na área para fazer um extra - muitas vezes no contraturno do expediente, horário de almoço e até nos fins de semana.

Para Edson, o ramo é vantajoso para quem busca a formalização, prestando um bom serviço e fazendo a própria clientela.

Para Edson, profissão tem boas perspectivas para quem atua sem intermediários | Foto Natália Trentini/OCP News

Na conta do profissional precisa estar os reajustes de combustível e a manutenção do veículo, por isso acabam tendo futuro aqueles que conseguem ter comprometimento como diferencial.

Para quem encara como bico, acaba trabalhando por menos, mas na conta ficam gastos cada vez mais elevados: combustível e manutenção do veículo - além da própria vulnerabilidade em casos de acidentes.

Rotina acelerada

Jaraguá do Sul registrou um aumento de 12% no número de acidentes com motocicletas nos primeiros sete meses de 2021. O dado é do Corpo de Bombeiros Voluntários, em levantamento feito a pedido do OCP.

Os acidentes acabam sendo realidade na rotina de quem está diariamente entre um ponto e outro da cidade.

Na empresa de Edson, os motoboys contam com horário fixo de trabalho e atuam em rotas de entrega que são montadas previamente. Segundo o empreendedor, a ideia é ter cronogramas que não façam o profissional ir além da conta.

Ele avalia que ainda existe um preconceito de que todo o motoboy desrespeita as leis de trânsito. Para ele, os entregadores acabam ficando no meio entre o produto e o cliente, e nem sempre é o profissional que tem pressa.

Apesar do trânsito ser o ambiente de trabalho dos motoboys, são as ruas vazias o maior atrativo. Ezeram, por exemplo, atuou entregando lanches, remédios, mas foi a entrega dos jornais na madrugada que o fez seguir no ramo que tanto gosta mesmo após a aposentadoria.

Foto: Fabio Junkes