Grande parte da população ainda mantém uma relação de desprezo com o lixo. Quanto mais longe os resíduos gerados por ela ou sua família, melhor. Esse comportamento vem trazendo resultados devastadores para o meio ambiente. Na Idade Média, o que não servia era descartado ali mesmo, pela janela das residências, jogado na rua, propiciando um ambiente perfeito para a proliferação de pragas. Hoje, o senso de civilidade já está bem avançado em boa parte do mundo, mas ainda falta um olhar mais atento em relação à geração de resíduos. Partindo dessa proposta, a equipe do OCP optou por realizar uma experiência concreta, reunindo o material produzido em uma semana por mim, repórter Ana Paula Gonçalves, que resido em um apartamento no centro de Jaraguá do Sul junto a mais três familiares. Acumulei a produção de resíduos sólidos durante sete dias, um período em que me confrontei com lições obtidas na prática. Há muito tempo venho pensando na quantidade de embalagens que descartamos diariamente e na nossa conduta ao fazer isso. Porque temos aquela ‘segurança’ de que alguém vai dar um jeito no nosso lixo, de que ele não é mais problema nosso a partir do momento em que sai da nossa casa. Mas, não é bem assim. E as pessoas precisam se perguntar onde isso vai parar e de que maneira podem contribuir para reduzi-lo.
Ana Paula reflete: Temos aquela ‘segurança’ de que alguém vai dar um jeito no nosso lixo | Foto Eduardo Montecino/OCP
O lixo é um problema ambiental e econômico, como mostram os dados do município. Anualmente, Jaraguá do Sul produz 33 mil toneladas por ano, o equivalente a 91 toneladas por dia. Quatro cooperativas de lixo são responsáveis pela reciclagem dessa produção. Com o saco verde, projeto que não está mais em funcionamento, o município recolhia 600 toneladas por mês de material reciclável. Hoje, recolhe 220 toneladas. Na minha família, a separação do lixo orgânico do reciclável ocorre há quase 20 anos. Antes, porém, como tínhamos horta e jardim, os orgânicos eram depositados nos canteiros. Nessa semana, percebemos que, com o intuito de facilitar nossa vida, acabamos complicando muito a situação de acúmulo de resíduos. Um exemplo disso é um pacote de biscoitos. Antes, eles vinham no pacote grande, hoje, estão fracionados em outras embalagens. São pacotes dentro de pacotes. O queijo fatiado também está gerando mais resíduo, já que agora as fatias são separadas por um plástico e por aí vai. Em uma semana, produzimos o equivalente a um saco de 50 litros de resíduos sólidos. Boa parte desse montante, infelizmente, não é reciclado e acaba em aterros. Jaraguá do Sul, Guaramirim, Corupá, Schroeder e mais 16 municípios da região depositam 200 mil toneladas por dia no aterro de Mafra. Estima-se que um terço desse material poderia ser reciclado. Para chegar naquele município, o lixo jaraguaense percorre 105 quilômetros. Esse aterro tem vida útil até 2027. Isso significa apenas mais dez anos. Além do dano ambiental, o resíduo residencial e comercial gera despesas. Historicamente, Jaraguá do Sul não é capaz de lidar com os custos do próprio lixo. Neste ano, a Prefeitura projeta um total de R$ 13.445.897,88 com despesas de coleta e destinação. Até setembro, foram gastos pouco mais de R$ 10 milhões, com previsão de R$ 3,4 milhões até dezembro. A arrecadação do município com a taxa de lixo para pagar essa despesa deve ficar num total de R$ 12,2 milhões. A conta não fecha. Há um déficit de pelo menos R$ 1 milhão.
A principal lição da experiência é de que precisamos de mais consciência para consumir | Foto Eduardo Montecino/OCP
A principal lição da nossa experiência é de que precisamos de mais consciência para consumir. Observando melhor esse resíduo dá para ver, inclusive, onde temos errado na alimentação. Além disso, vemos que dá para reduzir o montante se optarmos por produtos em quantidade maior, fracionando em casa, conforme a necessidade. Dessa forma, poupamos dinheiro, porque se você reparar no preço por quilo dos alimentos nos supermercados vai ver que no fim das contas sai mais barato comprar um vidro grande de café do que os sachês, por exemplo. A questão é parar para analisar, pensar no assunto e discuti-lo com a família. Precisamos sair do automático e aderir a novas práticas de consumo e descarte. Isso é consciência. O resíduo produzido pela minha família dobra de tamanho quando a parte orgânica passa a ser computada. Por dia, pelo menos três quilos de lixo são produzidos – cascas de frutas e verduras, erva-mate, restos de comida e a areia do “banheiro” dos dois gatos. Esse resíduo também é descartado separadamente. Quer descobrir como fazer a compostagem? Acompanhe as demais reportagens desta série especial "De quem é esse lixo?" no OCP deste fim de semana e no OCP online.