Em 3 de julho de 1951 o Congresso Nacional aprovou a primeira lei contra o racismo no Brasil, a lei Afonso Arinos (n° 1.390/1951), que estabeleceu como contravenção penal qualquer prática de preconceito por cor ou raça.

A data também marca o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, que foi criada em decorrência da sanção da lei, que leva o nome do político mineiro autor da proposta.

Desde então muitos movimentos foram criados para combater a desigualdade. Em Jaraguá do Sul essa atuação é protagonizada pelo Moconevi (Movimento da Consciência Negra do Vale do Itapocu), que existe desde 2001 e em agosto completa 20 anos de fundação.

O movimento é muito atuante na área da educação. A criadora do Moconevi, Sandra Helena Maciel, conta que sempre estiveram presentes em escolas levando a importância do combate ao racismo e toda forma de discriminação.

"Se tem uma coisa que eu fiz de diferente na história foi começar o movimento da consciência negra do Vale do Itapocu. A gente acredita que toda transformação é feita através da educação, sempre atuamos muito dentro das escolas, desde educação infantil até o nível superior, participando de teses e defesa de doutorado," diz Sandra.

O coordenador do movimento, Luis Fernando Olegar, lembra do grande desejo que tinham no início de conseguir levar o movimento para dentro das escolas.

Foto: Divulgação

"Eu lembro da fala de um dos nossos colegas que dizia 'já pensou se daqui 10 anos nós conseguimos levar o movimento para as escolas, conversar com os alunos, professores'. Porém, isso não demorou 10 anos, no primeiro ano nós já estávamos atuando dentro das escolas, " lembra Luis Fernando.

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Uma das razões de Luís Fernando ter entrado para o Moconevi foi porque ele queria parar de ser vítima. No movimento ele aprendeu como se defender e enfrentar com a cabeça erguida o preconceito.

"Entrei no movimento com um objetivo, que era deixar de ser vítima, deixar de ser vítima das piadinhas, dos olhares, das perseguições. Nós nunca tivemos a postura só de embate, nós sempre pensamos no que poderíamos fazer para contribuir, mas também não aceitamos o tratamento desigual e não de qualquer forma. Mostramos que temos valores e que temos que ser respeitados. Então a partir disso não aceitamos uma série de coisas, não é qualquer piadinha ou brincadeira, a gente vai enfrentando essas situações," conta Luis.

Primeiro vereador negro

Francisco Alves, que participa do movimento desde a criação, foi o primeiro vereador negro da Câmara de Vereadores de Jaraguá do Sul, eleito em 2008 e posteriormente em 2012 chegou a exercer o cargo de presidente da Câmara.

"Precisamos de mais representatividade não só dentro da política, mas em tudo. Nesse bolo que é a sociedade, não queremos ser a cereja dele, e sim queremos fazer parte da essência," diz o ex-vereador.

Enquanto estava no cargo, Francisco desenvolveu algumas leis em conjunto com outros vereadores, como a da Semana da Consciência Negra e de Ação Anti-Racista, que é realizada no mês de novembro de cada ano, em Jaraguá do Sul.

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Quando o racismo começa?

O racismo começa a partir do momento em que o negro é excluído da sociedade, quando ele não goza da representatividade necessária, ele não encontra alguém com a mesma cor de pele ou com o mesmo tipo de cabelo que ele tem na TV ou nas revistas. O negro cresce com a ideia de que não existe espaço para ele dentro dessa sociedade.

"O racismo ele é muito covarde, você começa a sofrer desde a infância, desde quando você é muito pequeno. Em alguns lugares as crianças brincam com você, em outros essas mesmas crianças não brincam. Essa distinção de tratamento a gente começa a sentir cedo, mas só mais para frente conseguimos entender o que essa diferença quer dizer," diz Luis.

Muitas vezes o racismo está presente dentro do ambiente escolar, por exemplo na forma como uma criança branca é tratada em comparação a uma negra, tanto pelos funcionários como colegas. Até mesmo na hora de brincar existe a exclusão da criança negra.

"A forma como uma professora acaricia uma criança do ensino infantil com o cabelo crespo, como ela faz isso, como ela lida com essa estética. Ou é visto como algo exótico, algo que não deveria ser bonito, mas eu digo às vezes que é bonito. Isso são coisas que vão destruindo a autoestima. Embora hoje tenha um cuidado maior, a gente ainda sente", diz Luis.

"Anos atrás e com a falta de informações eu não sabia muito bem o que era racismo, mas com a formação do movimento eu fui entendendo que aquelas piadinhas que meus colegas faziam na escola era uma forma de preconceito comigo", conta Francisco.