Em quase 11 anos de atuação junto à churrascaria, você não tem noção de quantas pessoas nos ofereceram carne alterada. Mas depende do nosso caráter, da nossa postura, pegar ou não. E se pegássemos, hoje não teria mercado, mas somos responsáveis, exigimos produtos de qualidade e boicotamos os de má qualidade. Também já mandamos voltar carga fechada que avaliamos que não tinha qualidade ou não seguia as especificações sanitárias. A declaração de um dos mais reconhecidos especialistas em churrascos de Jaraguá do Sul, Leandro Carvalho de Farias, que além de ser um dos sócios-proprietários da Confraria do Churrasco, também realiza cursos e treinamentos na área, traduz um pouco da indignação que tomou conta dos consumidores com as informações veiculadas pela Polícia Federal ao deflagrar na sexta-feira (17) passada a Operação Carne Fraca. “Me senti revoltado, como todos, com as informações divulgadas acerca da Operação Carne Fraca. Mas entendo que elas sejam reflexo de um comportamento cultural. Temos cultura de oferecer o pior para o povo e vender o melhor para os estrangeiros. Então, é importante para que fiquemos mais alertas e exigentes e boicotemos os produtos de má qualidade.” Farias acredita que a situação que ganhou visibilidade pelo tratamento dado à carne não é isolada e também passa por vários outros setores da indústria alimentícia brasileira. “Tem muita matéria-prima oferecida com baixíssima qualidade, o que reflete a falta de respeito para com o povo brasileiro. As grandes indústrias trabalham com tecnologia muito avançada e têm meios de maquiar, de enganar, de mudar a característica de um produto, transformando-o até a chegada na nossa mesa”, lamenta. “Nós, consumidores, não temos muito esclarecimento do que estamos comendo. Mas como dono de churrascaria eu tomei algumas providências. Primeiro, só trabalho com o que há de melhor no mercado”, explica Farias, para logo lembrar que ficar na linha do correto também tem um preço.  Por isso, seus produtos não são extremamente acessíveis, mas ele garante que a matéria-prima é de qualidade. “A carne que recebo é selecionada”, explica o especialista, que usa carne de animais das raças Hereford, Angus e Wagyu, raças destinadas à produção de carne de melhor qualidade. Cada Estado tem uma legislação específica em relação a estas carnes, levando em conta a porcentagem de cruzamento com outras raças. Farias diz que evita trabalhar, por exemplo, com carne de São Paulo, por considerar que ela é mais fraca, o gado é mais magro e não tem capa de gordura. Em Santa Catarina, a porcentagem é 50% Hereford/Angus puro e 50% de outras raças. No Rio Grande do Sul, a porcentagem é 80% Hereford/Angus e 20% outras raças, e por isso é a preferida do churrasqueiro, que também enfatiza que sempre faz questão de visitar os frigoríficos. Assim mesmo, ele diz que estas carnes às vezes têm pedaços que não têm a apresentação desejada, mesmo mantendo a melhor qualidade. Estas carnes, ele transforma em hambúrgueres. “Mas tudo feito de forma artesanal e o mais simples possível, sem temperos fortes ou outros condimentos que maquiem a carne.” Esta mesma orientação, de quanto mais natural possível a alimentação, quanto menos frita ou assada (assada demais desenvolve algumas toxinas, ensina ele) possível é repassada por Farias aos seus clientes e alunos dos cursos que ele realiza. Apesar de se sentir revoltado com as informações de maquiagem e manipulação errada das carnes, Farias espera que a lição sirva para que o consumidor possa se organizar e cuidar melhor dos produtos que leva à mesa.