Há alguns meses, as segundas e quintas-feiras se tornaram os dias preferidos de Gisele Nandi Scarpato. Aos 30 anos, ela começou a participar voluntariamente das oficinas da LivreMente – Associação dos Usuários, Familiares e Amigos da Saúde Mental de Jaraguá do Sul.

Paciente do Caps II, Gisele foi diagnosticada e iniciou o tratamento para depressão, mas foi na associação que encontrou o “seu lugar”, garante.

“Eu me sentia inútil, sentia que era um estorvo na sociedade. Comecei a fazer tratamento no Caps e comecei a me soltar e ficar feliz com o que eu criava nas oficinas de artesanato. Na Associação sinto que eu tenho alguma coisa, é onde eu posso ser alguém. É um dos poucos lugares que eu sinto que posso ser alguém”, conta.

Assim como ela, Fabiano Hilbig, 45 anos, sente que a LivreMente é um espaço no qual a mente se liberta e rotinas antes impensáveis se tornam naturais, como o simples fato de dividir uma sala com outras pessoas.

Foto Eduardo Montecino/OCP News

“Eu era antissocial, me esforcei e hoje participo direto da associação, mas no começo não era assim. Eu gostava de ficar sozinho, isolado”, diz. A mudança foi tanta que hoje é Fabiano o responsável pela oficina que cria formas para cultivo de suculentas.

Já Oracildes Policena de Souza, de 66 anos, é ativo na confecção de tapetes e garante que se a produção tivesse mais tempo, conseguiria acelerar ainda mais o ritmo de trabalho. “Aprendi aqui, antes eu não sabia fazer não. Demora mais porque tem os dias e hora certo para produzir, mas se pegar pra valer, em um dia faz um desse”, afirma.

Foto Eduardo Montecino/OCP News

O trabalho da LivreMente iniciou em 2016, explica a psicóloga Mariana Stringari, e hoje conta com pelo menos 13 voluntários assíduos. A psicóloga ressalta que o grupo nasceu da necessidade de reabilitação psicossocial das pessoas que frequentam o Caps.

“É para quebrar preconceitos, mostrar que a gente pode fazer, que é capaz de fazer bem feito. Mostrar para a sociedade que não é porque a pessoa tem um transtorno que ela se torna incapaz”, ressalta.

Busca por uma sede

Apesar de estar prestes a completar três anos de atividade, a associação ainda não está legalizada pela falta de uma sede própria. Esse é o principal entrave para o crescimento da entidade.

Com um local próprio – hoje as oficinas são realizadas em sala cedida pelo Caps AD –, seria possível realizar parcerias com empresas jaraguaenses para que os voluntários tenham uma produção além da artesanal já realizada nas oficinas. Atualmente, a LivreMente possui oficinas de tapetes, pintura em vidro e MDF, aromatizantes e artefatos de cimento.

Foto Eduardo Montecino/OCP News

Além da sede, a psicóloga destaca a necessidade de contar com voluntários qualificados para melhorar os produtos.

“Não temos ninguém especialista em artesanato, nós mesmos vamos aprendendo e produzindo, então, se tivermos voluntários para capacitar, melhoramos a qualidade do nosso produto”, enfatiza.

Mariana destaca a importância de possibilitar um espaço aos voluntários e, mais do que isso, torná-los conscientes de que podem e devem acessar todos os espaços da cidade.

“Faz parte da reabilitação psicossocial, de se colocar nos lugares, de acessar locais que todos acessam porque às vezes eles acabam ficando restritos, marginalizados”, finaliza.

A psicóloga informa que as pessoas interessadas em se voluntariar, doar matéria-prima para os produtos ou até mesmo auxiliar legalmente na obtenção de uma sede própria, basta procurar a sede do Caps II, na rua Olívio Domingos Brugnago, 500, no bairro Vila Nova.

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