Embora nos seja imputada a pecha de “memória curta” quando nos reportamos ao tema eleições no Brasil, penso que os últimos resultados parecem desmistificar, mesmo que de forma incipiente, essa velha máxima. A priori, é importante considerar que, de forma geral, o esquecimento do eleitor brasileiro é cultural, resultante da carência de fatores essenciais como, educação, politização e nacionalismo, conjugados com nosso modelo multipartidário, desprovido de ideologia. É óbvio que essa condição interessa ao perfil de políticos que aspiram à perpetuação no poder mantendo distância do eleitor. Entretanto, um novo paradigma parece desabrochar nesse cenário. A onda desencadeada pelas manifestações iniciadas em 2013 tem gerado energia capaz de destravar comportas a décadas emperradas pelo sistema. Espera-se que o efeito dessa onda possa continuar oxigenando a memória do eleitor e, notadamente, despertá-lo do estado letárgico para com a política. A propósito, por falar em letargia, e direcionando a lente para o pleito de nosso município, o índice de abstenção registrado poderia caracterizar esta como a eleição do “voto útil escasso”. Isso já mereceria uma mesa redonda de cientistas políticos. Mas como mero cidadão eleitor, nosso cenário doméstico levou-me a outras constatações: a) vivenciaremos pós 2013, mais um mandato com gestão orientada para moralização da política e da coisa pública; b) o arcabouço normativo do Direito Eleitoral com seus marcos regulatórios têm promovido mais transparência e legitimidade ao processo; c) com tempo e dinheiro reduzidos e propagandas reguladas, as campanhas permitiram uma leitura mais natural e fiel por parte do eleitor; d) se por um lado a falta de memória e letargia política constituem máculas características do eleitor, por outro, as redes sociais ampliaram exponencialmente sua voz, discernimento e senso crítico. Por conseguinte, a velha prática politiqueira baseada em promessas e compra de votos já não ecoa. O índice de renovação da Câmara, somando-se o perfil e condição peculiar do vereador mais votado, provam isso; e) na majoritária, candidatos que apostaram na velha estratégia “robin-hoodiana” ou na crença maquiavélica e sediciosa de que “os fins justificam os meios”, ou seja, visando o êxito a qualquer custo, esses malograram surpresos. Não se deram conta de que política não é “arte da conveniência”, é “ciência”, e como tal, deve ser estudada, interpretada e entendida à luz da sociedade. Não se deram conta de que o poder está no povo. Tampouco se deram conta, sob o ponto de vista do marketing, de que campanha é plano estratégico que não admite “distração barata”.