Uma cidade colombiana que tem o mar Caribe como cenário, o qual se contempla além das muralhas que cercam o centro histórico, assim é Cartagena das Índias, ou simplesmente Cartagena. Aqui impera a nostalgia e o charme dos séculos passados sem deixar de retratar a modernidade dos dias atuais. Por encontrar-se estrategicamente situada, foi sede de importante porto durante o período colonial e, consequentemente, alvo de constantes ataques piratas. Mas denoto que, por ironia do destino, a ganância dos piratas e corsários exploradores nos deixou, historicamente de herança, algo que vale mais que todo o ouro e esmeralda saqueados, ou seja, o coração de Cartagena, ou sua “Ciudad Amurallada”, pulsando com muita energia, e atualmente patrimônio histórico da humanidade. Tive a impressão de que caminhar finais de tarde pela cidade amuralhada, em suas vielas e seu colorido casario colonial ornados com suas típicas varandas de gradil trabalhadas em madeira, repletas de flores, é como viajar nos livros do filho ilustre e Nobel de Literatura, Gabriel García Marquéz. Também pude dar-me conta de que a dimensão deste local não se pode captar pela ótica físico-natural, mas com o olhar de outro filho ilustre, Fernando Botero, reconhecido pintor figurativista cujo estilo característico retrata voluptuosidade e sensualidade das formas. Valendo-se então desses sentidos, você reconhecerá que Cartagena é, em essência, esse mix de romance, volume, magia, sensualidade, nostalgia e contemporaneidade. Suas misteriosas facetas vão se revelando pacientemente, seja num passeio noturno de charrete, num café com pôr-do-sol ao som de “rumbas” e “vallenatas”, no reconhecimento de sua historicidade, na simpatia e cordialidade de seu povo ou, até mesmo, num banco de praça vendo a cidade passar. Em síntese, tive a impressão de que nossa latinidade se manifesta mais genuína por aqui, em que pese nossos “cem anos de solidão”. Confirma-se, a propósito, a percepção de García Marquéz de que “Me bastó dar un paso dentro de la muralla, para verla en toda su grandeza a la luz malva de las seis de la tarde, y no pude reprimir el sentimiento de haber vuelto a nacer.”