É do alto de um morro, em um casarão imponente de tijolos à vista, em Guaramirim, no Norte catarinense, que Alice Bast e Edson Persike conjecturam todos os planos para o futuro. O olhar de cumplicidade entre um e outro já deixa claro que em breve abrirão as janelas da casa, olharão pelo vasto jardim, com muitas hortênsias, como manda a tradição, e verão os filhos pequenos correndo felizes. Mas tudo ainda está na cabeça dos dois. Pode parecer um desejo comum a muitos casais, não fossem alguns detalhes que os diferenciam. Aos 23 anos e 32 anos, respectivamente, os noivos abriram mão de uma casa moderna, com design arquitetônico inovador, para realizar um sonho: construir uma casa enxaimel, com o mínimo de intervenções possíveis, para manter a tradição de que tanto se orgulham. E não é só na estrutura física que defendem isso: participam de sociedades, de competições de tiro, festas de rei e rainha, bailes típicos e ainda arriscam algumas palavras em alemão. Só não fazem dança folclórica porque ainda não sobrou tempo na agenda. Como eles dizem, “remam contra a maré” de jovens que preferem atividades modernas aos costumes deixados pelos antepassados. Eles contam que apesar de terem contato com costumes alemães desde a infância, foi quando o namoro começou, há cerca de quatro anos, que resolveram se dedicar a isso. “Como temos esse gosto em comum pela cultura germânica e a vontade de preservar a tradição de nossos antepassados, decidimos nos envolver mais”, conta Edson. O casal então decidiu se tornar membro da Sociedade Vieirense, pela qual Alice carrega a faixa de Rainha de 2016 e também a rainha da 29ª Schützenfest. “Nós participamos das festas típicas e competições de tiro, mas eu atiro melhor que ele”, garante Alice, aos risos. Para o casal, incluir no dia a dia os costumes trazidos por seus antepassados é motivo de orgulho. “É uma vontade nossa, às vezes a gente se sente remando contra a maré, porque percebe que o jovem vai atrás do moderno e considera que preservar a tradição é algo careta. Para nós não, é questão de orgulho e puxamos essa responsabilidade de preservar e fazer parte”, afirma Edson.  
Rainha da Schützenfest, Alice Bast tem o noivo como um parceiro na manutenção das tradições. Hoje, ele também tem um grupo de música típica chamado “Die Fachwerk Kameraden” | Foto Eduardo Montecino/OCP
Como já tinha o sonho de construir uma casa enxaimel, Edson conversou com Alice, que embarcou no projeto. “Por coincidência, conhecemos um carpinteiro que resgata essa técnica e ele foi o responsável por erguer a estrutura de madeira e telhado. A parte dos tijolos na parede, piso e pintura nós mesmos estamos fazendo”, conta. E a casa segue as construções originais: não há nenhum prego ou parafuso, todas as madeiras são encaixadas. “Nossa maior preocupação foi de tentar ser o mais original possível, mas também ter conforto para nós”, diz referindo-se à inclusão de banheiros e piso cerâmico no imóvel, algo que não ocorria no passado.

“É uma vontade nossa, às vezes a gente se sente remando contra a maré porque percebe que o jovem vai atrás do moderno e considera que preservar a tradição é algo careta. Para nós não, é questão de orgulho e puxamos essa responsabilidade de preservar e fazer parte.”

Edson Persike

Agora com a casa praticamente pronta, os dois se divertem com a reação das pessoas que veem o imóvel ou ficam sabendo do projeto. “Alguns parentes até falam que é loucura, mas fizemos porque gostamos desse estilo de casa”, diz. Outra surpresa é o número de pessoas que passa pelo bairro, em Guaramirim, e fotografa a casa. Para Alice, o foco nas tradições alemãs ainda trouxe muitas descobertas. “Começamos a pesquisar a história de nossos antepassados. Descobri que meu bisavô ajudou a fundar a Sociedade Vieirense, descobrimos que o do Edson construía casas enxaimel. É o resgate das nossas raízes”, diz. Agora o casal, que se prepara para encarar a maratona da Schützenfest, ainda tem pela frente a missão de finalizar a casa, que ganhará móveis rústicos e até rodas de carroça como luminárias, e também preparar o casamento. “Acho que um povo sem história e sem cultura, é um povo sem destino. Não tem porque ter vergonha daquilo que foi deixado pelos antepassados, o que foi ensinado pelos pais, e é muito importante isso. A base da família é a tradição que deixa para seus descendentes e esperamos que estejamos servindo de exemplo para outras pessoas seguirem o mesmo caminho”, finalizam.