Nos últimos dias, uma pesquisa fez os moradores de Massaranduba e Schroeder duvidarem da qualidade da água que é fornecida por esses municípios.

Apesar do estudo do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) apontar a presença de agrotóxicos, as autoridades municipais acreditam na boa condição da água fornecida por estar dentro do que preconiza a legislação.

O prefeito de Massaranduba, Armindo Sésar Tassi (MDB), diz que ficou assustado quando viu a notícia da pesquisa.

O prefeito afirma que vai receber essa semana os dados laboratoriais dos últimos 60 dias, mas que também vai querer acesso aos resultados do último ano. "Quero garantir que a água é potável e pode ser consumida", enfatiza.

Tassi conta que o rio 7 de janeiro, local de captação de água em Massaranduba, está ficando contaminado pelo crescimento ao redor da rodovia SC-108 e pelos produtos utilizados pelos produtores locais.

O material encontrado na cidade é o propiconazol, um fungicida que os bananicultores passam em suas plantações.

Conforme nota da Prefeitura, a portaria de consolidação nº 05/2017 do Ministério da Saúde, que trata do Controle e da Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano e seu Padrão de Potabilidade, não aponta o agrotóxico analisado em sua listagem de agrotóxicos obrigatórios a serem verificados.

Prefeito solicitou dados laboratoriais para comprovar a eficácia da água em Massaranduba | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Processo de tratamento em Massaranduba

A Estação de Tratamento de Água de Massaranduba trata em média 25 litros por segundo e tem um reservatório com capacidade de 600 mil litros.

O operador da ETA, Maurício Zech, conta que a cada duas horas é realizado uma análise profunda da água que esta sendo tratada. "Além dos testes, somente no olhar já percebemos quando tem algo estranho com ela", relata.

Junto com Zech, outros três operadores trabalham na estação, participando de um rigoroso processo de produção, fazendo a análise do pH (acidez da água), da cor, turbidez, além da quantidade de cloro e flúor. "Quando estiver fora do padrão, precisamos fazer manobras e mexer nas dosagens", destaca.

Sensores mostram quantidade de determinados produtos na água | Foto Eduardo Montecino/OCP News

De acordo com o operador, quando eles percebem que a água não esta dentro de todos esses padrões, a bomba é desligada e o abastecimento interrompido. "Se precisar, ainda chamamos suporte para avaliar a situação", completa.

Agrotóxicos presentes em análises

Em Schroeder, existe três pontos de captação de água, ambas em uma área de preservação ambiental, através do rio Macaco, que nasce dentro da área captada.

A pesquisa do MPSC apontou a presença de atrazina e metolacloro na água do município. Ambas são herbicidas, ou seja, são componentes químicos utilizados na agricultura.

O químico responsável pela Estação de Tratamento de Água de Schroeder, Luann Forteski, afirma que as duas substâncias estavam presente nas últimas análises feitas na estação, mas que a quantidade encontrada é pequena e não afeta a saúde da população.

"O próprio laudo do Ministério Público mostra que a quantia de agrotóxicos não causa dano aos consumidores", destaca.

Forteski pontua que eles realizam semestralmente a análise de 27 princípios ativos que contém em agrotóxicos.

Mesmo com a pesquisa divulgada, ele enfatiza que a próxima análise nesse sentido só sera feita em maio. "Nós sempre mantemos uma atenção grande com esse tipo de coisa para buscar a anulação desses químicos", informa.

Águas de Schroeder atende quase cinco mil residências | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Segundo o diretor da Águas de Schroeder, Valvenir Doge, o reservatório da cidade armazena 1,5 milhão de litros de água e atende 4.952 residências do município. A estação trata 54 mil litros por segundo e conta com seis operadores.

Moradora de Schroeder, Liandra Tank, 19 anos, se assustou quando viu a sua cidade na lista do Ministério Público, ainda mais por conhecer o local de captação e acredita na qualidade da água antes do tratamento.

"Provavelmente a qualidade da água ainda é boa e deve estar dentro do permitido do Ministério da Saúde", opina.

Liandra não se preocupa se a quantidade utilizada realmente não afetar a população, pois em casa ela bebe água diretamente da torneira e nunca teve problemas. "Ainda mais se comparamos ao nível de agrotóxico que há nos alimentos", relaciona.

Brasil libera 5 mil vezes mais agrotóxicos na água do que Europa

De acordo com o estudo “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, a lei brasileira permite limite 5 mil vezes superior ao máximo que é permitido na água potável da Europa.

Estima-se que a cada dia oito pessoas no país sejam intoxicadas por agrotóxicos no Brasil, sendo que uma morre a cada três dias, segundo dados do Ministério da Saúde.

Em sete anos, de 2007 a 2014, 25 mil pessoas foram contaminadas por agrotóxico, uma média de 3.125 por ano. As crianças são as maiores vítimas: 2.181 foram contaminadas no mesmo período, segundo dados do Ministério.

Desde 2008 o Brasil é o país campeão mundial em uso de agrotóxicos. Consumimos 20% do que é comercializado mundialmente.

A legislação brasileira define que os fornecedores de água – sejam eles empresas estatais, privadas ou governos municipais – são responsáveis por testar 27 agrotóxicos específicos, a cada seis meses, nos sistemas que gerenciam e devem relatar esses resultados ao governo federal.

No entanto, o número de ingredientes ativos registrados no Brasil, 306, é 11 vezes maior do que os analisados na água para consumo.

A pedido do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), foi feito o levantamento da presença de agrotóxicos na água de abastecimento público de 90 municípios de Santa Catarina. A substância química foi identificada na água de 22 cidades, entre elas Schroeder e Massaranduba.

 

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