Foi-se o tempo em que o xadrez era um hobby de intelectuais. Cada vez mais presente em clubes e escolas, o jogo tem se tornado um caminho fundamental para a formação de crianças e adolescentes.

Afinal, as estratégias traçadas no tabuleiro auxiliam no desenvolvimento de vários aspectos como a memória, imaginação, concentração e inteligência. E esse trabalho é feito de forma minuciosa em Jaraguá do Sul, uma das principais referências de Santa Catarina.

O reconhecimento não é à toa. Antes dos resultados, a modalidade se pauta no crescimento do cidadão, o que faz aumentar o número de praticantes no município.

Se pouco mais de dez enxadristas iniciaram o esporte na cidade há mais de 60 anos, hoje são mais de 50 jovens envolvidos no Clube de Xadrez Jaraguá (CXJa). Isso tudo sem contar os projetos instalados em diversas escolas municipais, que abrangem centenas de crianças iniciantes.

Sob o comando técnico de Karina Kanzler (D),Clube de Xadrez Jaraguá conta atualmente com53 atletas | Foto Divulgação/OCP

Os destaques dentro dos polos são recrutados ao CXJa, que atende meninos e meninas a partir de 6 anos, realizando treinamentos três dias por semana, na Arena Jaraguá, além de representar Jaraguá do Sul nos principais eventos estaduais e nacionais.

Paixão de infância

Com vasto currículo de conquistas, entre eles, títulos brasileiros por categoria e universitário, a jaraguaense Karina Daniela Kanzler Ferreira está envolvida com a modalidade desde os 6 anos de idade. Hoje, aos 30, ela treina as equipes de rendimento da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer, carregando objetivos bem claros.

“A cada ano temos uma geração nova e diferente, mas vejo o xadrez como esporte fundamental para formação da pessoa. Não estou aqui para formar campeão mundial, e, sim, boas pessoas. Por isso, é muito gratificante fazer parte da história do xadrez jaraguaense”, diz.

As palavras da professora deixam uma ideia já traçada no projeto. Mas nem por isso, as conquistas são deixadas de lado. Pelo contrário. Elas caminham juntas de geração para geração. Por aqui, são inúmeros os campeões estaduais e nacionais ao longo da história.

Destaques em pan-americanos e até participações importantes em mundiais já foram registradas, demonstrando a força de Jaraguá do Sul no esporte.

“Temos atletas entre os melhores do Estado e Brasil. Os obstáculos existem, é um trabalho árduo, mas sempre estamos em busca de correção para melhorar a cada campeonato”, declara Karina.

Início e expansão

Para formar atletas vencedores, o xadrez de Jaraguá do Sul teve um início modesto, assim como diversas outras modalidades no município. Tudo começou em 1952, quando 15 pessoas fundaram o clube jaraguaense de xadrez, em um sobrado na avenida Getúlio Vargas, onde promoviam torneio entre associados, convidados e equipes visitantes.

O jogo começou a se expandir no fim da década de 60. Com a mudança da associação para o prédio do Cine Jaraguá e contando com uma estrutura com equipamentos necessários para prática do esporte, uma equipe de grandes atletas começou a ser formada, fazendo frente com grandes mestres do país.

Um deles era Walter Sonnenhohl. Hoje, aos 61 anos, ele recorda com grande carinho os momentos vividos no esporte. Por cerca de 20 anos, o Waltão, como era conhecido na época, empilhou medalhas representando a cidade. Derrubou grandes favoritos, foi campeão universitário, estadual e dos Jogos Abertos de Santa Catarina, por exemplo.

Walter Sonnenhohl com a medalha de bronze do Estadual Adulto, conquistada quando tinha apenas 16 anos de idade | Foto Divulgação / OCP NEWS

Mas não só isso. No Jasc de 1975, disputou paralelamente o atletismo e conquistou a medalha de ouro no salto em distância, cravando seu nome no esporte jaraguaense.

“O xadrez é uma das modalidades que mais conquistou troféus para Jaraguá do Sul em Jasc. Desde os anos 70 até hoje em dia está entre as melhores equipes do Estado. Fico feliz em fazer parte de tudo isso”, destaca Sonnenhohl.

O sucesso entre os homens era tanto, que em meados da década de 70, as mulheres passaram a ganhar espaço na cidade, tendo como pioneiras Marli Caglioni, Vera Trichez e Izildinha Behling, e brilharam logo no Jasc de 1975, quando foram vice-campeãs. Foi então que o clube passou a competir em eventos nacionais e internacionais, tornando a cidade numa potência no xadrez.

Transformação

Apesar de alguns destaques nas décadas de 60, 70 e 80, o xadrez jaraguaense passou por uma grande transformação em 1991. A convite de Jean Leutprecht, ex-presidente da até então FME, o professor Mauricio Berti deixou o trabalho que executava com o basquetebol feminino e focou em um projeto de iniciação no xadrez.

Projeto de iniciação segue fortalecido em escolas jaraguaenses, como na Rodolpho Dornbusch, comandada por Mauricio Berti I Foto: Divulgação/OCP

Na época, não existia equipe de rendimento, apenas um grupo de enxadristas que se reuniam no Parque Municipal de Eventos Agropecuário para jogar, como Walter Sonnenhohl e Aldo Prada.

Após alguns meses foi montada uma equipe de treinamento com meninas que eram amigas ou parentes dos enxadristas do clube, bem como algumas alunas da escola Holando Gonçalves. No mesmo ano, houve a primeira participação em eventos da Fesporte, com a presença na fase regional do Jesc.

A partir daí as presenças em competições só aumentaram. Mas foi em 1997 que o esporte deu um grande salto. O professor Renan Levi da Costa chegou ao município e treinava os alunos destaques nos pólos, enquanto Mauricio realizava todo trabalho de iniciação.

O resultado foi imediato. Em setembro de 1997, a equipe conquistou o título da fase estadual do JASC no masculino e terceiro lugar no feminino. Mas as mulheres voltaram ao lugar mais alto do pódio em três oportunidades (2001, 2003 e 2004).

Além das conquistas por equipe, vieram muitas medalhas individuais, saindo do território estadual e levando o nome de Jaraguá do Sul para o Brasil.

“Após 1997, nosso xadrez é um dos melhores de todo Estado, brigando sempre pelas medalhas com Chapecó, Blumenau, Concórdia, Lages, e Rio do Sul entre outras cidades, que foram nossos principais adversários. Fico Feliz de fazer parte da evolução da modalidade porque vejo ainda hoje nossos atletas conquistando medalhas e troféus por onde passam”, afirma Mauricio Berti, que hoje segue desenvolvendo trabalhos de iniciação em escolas municipais.

Ainda segundo o treinador, é difícil citar os principais atletas que viu atuar pela cidade, diante de tantos nomes que marcaram história. Mas de acordo com ele, Karina Kanzler Ferreira – atual treinadora da Secel e campeã brasileira – no feminino, e Alexandr Fier – campeão estadual, nacional e pan-americano – no masculino, estão entre os destaques.