A emoção em ser convocada para as Olimpíadas de Tóquio ainda está muito viva e permeia o dia a dia de Simone Ponte Ferraz.

Mas a corredora de Jaraguá do Sul mantém o foco nos treinos e aguarda ansiosamente pelo embarque ao Japão para fazer sua estreia no maior evento poliesportivo do mundo.

Em 15 de julho, ela vai a São Paulo, onde se encontra com o restante da delegação brasileira de atletismo, que viaja ao país asiático no dia seguinte.

Em entrevista exclusiva ao OCP, a jaraguaense falou da expectativa para prova, marcada para o dia 31 de julho, sua preparação, objetivos durante e pós-Jogos, e muito mais.

Já caiu a ficha pela convocação? E qual sentimento de um atleta em saber que vai às Olimpíadas?

“Acho que a ficha só vai cair quando embarcar e estiver no Japão com o ‘Time Brasil’. Mas, com certeza, já senti fortes emoções nesses últimos dias, recebendo carinho e mensagens de jaraguaenses, Santa Catarina e pessoas do Brasil afora. É uma emoção indescritível, não tinha palavras no momento da convocação. É uma mistura de alegria e euforia, mas também de pés no chão para retornar aos treinos, porque ainda tem competição”

Como é virar um ícone ao ser a primeira jaraguaense a disputar o evento?

“Sou filha de Jaraguá do Sul. Moro aqui há 15 anos e me sinto da casa. Corro pelas ruas da cidade todos os dias, pelos parques, Arena e pista de atletismo. Então fico muito feliz por ser a primeira a chegar nas Olimpíadas, porque Jaraguá do Sul me recebeu de braços abertos em 2006 e foi a cidade que escolhi morar e estou construindo minha família”

Qual a importância de Adriano Moras, ex-técnico do atletismo de Jaraguá do Sul, na sua carreira?

“Sempre fui agraciada e tive a sorte de conhecer pessoas muito especiais que me ajudaram, me ensinaram e me formaram. Falo com muita emoção do Adriano, que foi um pai do atletismo para todos nós e faz lembrar de muitos momentos bons. Ele foi me buscar lá em Ponte Serrada por me conhecer das competições escolares. Treinei com ele oito anos e tive muitos resultados positivos pelos seus ensinamentos. O Adriano que me apresentou os 3.000m com obstáculos e me ensinou o ‘grosso’ da prova. Nos falamos semana passada e ele está muito orgulhoso. Como treinador, cumpriu com êxito sua missão e espero que um dia retorne ao atletismo, que só ganha com ele”

Simone e o técnico Adriano Moras | Foto: Henrique Porto/Arquivo Avante! Esportes

Você teve uma preparação intensa na parte física e técnica. Mas quando a vaga parecia certa, se preparou de alguma forma para o Japão em questão de cultura, língua?

“Desde que comecei o projeto em 2017 foquei só nos treinos. Fiquei abalada com a pandemia, mas nunca pensei em desistir e me mantive focada. Me preocupei mesmo com a parte física e a melhora da performance. Mas tive que fazer um cursinho que todos os atletas da seleção brasileira fizeram. Fiquei dois dias estudando na semana passada sobre o Japão e vai dar tudo certo. Agora é só embarcar”

As melhores atletas do mundo dividirão a pista com você no 3.000m com obstáculos. Qual seu objetivo na prova?

“Estou entre as 40 melhores atletas do mundo. Meu objetivo principal é fazer uma boa prova e, quem sabe, bater a minha melhor marca pessoal e beliscar uma vaga na final. É difícil, estamos falando de índice de prova olímpica, mas tenho o dom de me superar, dar o melhor e o máximo. Espero que esteja iluminada nesse dia e faça com amor aquilo que sei fazer, que é correr e se superar”

Tem planos pós-Olimpíadas ou o foco do momento está só no Japão?

“Participar das Olimpíadas muda toda vida do atleta e vai me abrir muitas portas. Já estou pensando em outra Olimpíada, Mundial e tudo que vem depois. Os Jogos de 2024 serão em Paris e quero estar lá. Assim que acabar as Olimpíadas de Tóquio, eu retorno para casa, esfrio a cabeça e vou fazer mais um ciclo olímpico, porque amo e vivo o atletismo. A prova que vou buscar ainda não sei, vou deixar rolar. Estou fazendo história no 3.000m com obstáculos, tenho a quinta melhor marca do Brasil na história e, quem sabe, figure novamente nessa prova na França. Mas vou deixar acontecer”

Participando de outra Olimpíada ou não, você já se sente uma mulher realizada?

“Cada conquista, seja em competições estaduais ou internacionais, sempre comemorei como se fosse a prova da minha vida. Se eu parasse hoje, teria atingido a minha missão na terra, porque já conquistei muita coisa. Uma menina que saiu de Ponte Serrada, uma cidade pequena, sem perspectiva nenhuma de vida e usou o esporte como ferramenta para se tornar uma cidadã melhor e uma profissional. Hoje sou isso, dentro e fora das pistas. Esse presente foi o esporte que me deu. Já deixei meu nome gravado na história e fico muito feliz. Mas claro que ainda tenho muita lenha para queimar e suor para derramar”

Você sempre foi um exemplo para várias pessoas e agora ainda mais por chegar nas Olimpíadas. Tem alguma dica para quem tem esse mesmo sonho?

“Continue lutando e nunca perca o foco. Quando a gente quer, a gente consegue. Pode levar levar um, cinco, dez anos, mas a gente consegue. Isso é muito importante para garotada, porque podemos chegar lá e fazer história. Se isso não acontecer, vão se tornar grandes pessoas e profissionais, porque o atletismo e o esporte traz isso. É vida”