Um esporte que requer disciplina, concentração e precisão. Características estas muito presentes na história de uma modalidade de Jaraguá do Sul, que transformaram a cidade em uma potência no Estado.

Sim, estamos falando do Tiro Esportivo, uma tradição em terras jaraguaenses que atravessa gerações e desponta como principal força catarinense há décadas.

Mas para se tornar um colecionador de títulos nos dias atuais, como os dez troféus conquistados nos Jogos Abertos de Santa Catarina, por exemplo, o esporte conta com uma história rica, iniciada em 1906 com o surgimento da Sociedade Atiradores Jaraguá, fundada por Willy Bartel, Francisco Fischer e Reinoldo Rau.

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Até que em 1959, foi criado o Clube de Caça e Tiro e Pesca Marechal Rondon, que além de participar das festas de tiro rei teve a incremento do tiro nas modalidades olímpicas: carabina de três posições, revólver e pistola.

Uma das primeiras equipes no Jasc, edição de 1968, em Joinville: Amadeus Mahfud (E), Adolfo Oswaldo Saade, Leopoldo Enke, Adolpho Mahfud e Dietrich Hufenüssler

Entre os fundadores estavam Murillo Barreto de Azevedo, Getúlio Barreto da Silva, Roland Janssen e Amadeus Mahfud, sendo que o último presidiu o clube até 1986.

A partir do ano seguinte, a família Janssen tomou posse do Caça e Tiro, com Eno assumindo a presidência em 1987, passando para Roland em 1988, que levou até 2001, ano que marcou a extinção do clube.

Família Janssen: Walter 'Teco' (E), Roland Leopoldo Germano, Rolando Filho 'Toco', Udo Voigt, Ricardo Barg e Karl Janssen

Porém, com o objetivo de dar continuidade nas participações das modalidades do Tiro Esportivo de Rendimento, vários atiradores jaraguaenses se reuniram e fundaram em 2002 o Clube de Atiradores Jaraguá, equipe mantida até os dias de hoje na cidade.

Mestre do tiro jaraguaense

O Tiro Olímpico tem a precisão como princípio fundamental para formação de grandes atletas. E se hoje, Jaraguá do Sul é reconhecido por acumular inúmeros campeões ao longo de sua história se deve a Roland Germano Janssen.

Após trazer grandes inovações para Jaraguá, Roland Leopoldo Germano Janssen é considerado o ‘Pai do Tiro’ na cidade

Parte de uma tradicional família de caçadores, ele dedicou boa parte de sua vida ao esporte e formou uma dinastia de atiradores Janssen no município, com oito filhos e um sobrinho.

O ‘pai do Tiro’, como é lembrado, ainda trouxe da Europa o conhecimento adquirido em cursos na Alemanha e equipamentos de primeira linha. Com isso, a evolução foi significativa.

Tratada até então como a terceira força, atrás de Blumenau e Joinville, a cidade de Jaraguá do Sul começou a ganhar espaço de destaque no Estado e criou uma hegemonia que perdura até hoje.

“Em um determinado momento, meus tios resolveram participar de clubes de caça e tiro e campeonatos estaduais. Meu tio Roland era técnico na época e foi um grande mentor para o tiro esportivo”, relata Walter Janssen Neto, sobrinho de Roland, especialista nas modalidades de carabina deitado, apoiado e ar, e campeão estadual e brasileiro na década de 90.

Da esquerda para direita: Walter, Roland e Roland Walter Janssen

Principais feitos

Com a ascensão do Tiro em Jaraguá, vários atletas começaram a despontar individualmente nas mais variadas modalidades, em competições a nível estadual, nacional e internacional. Mas ainda faltava um título por equipe para colocar o projeto em evidência.

E ele veio em 1997. Sob o comando técnico de Roland Janssen, a delegação formada por Romeu Milton Herber, Karl Heinz Janssen, Roland Walter Janssen, Samuel Leandro Lopes, Ciliane Raquel Bihr, José Amaro da Silva, Márcio Koch, Walter Janssen Neto e Jorge Guniberto Bihr levou o primeiro troféu geral do Jasc de Armas Longas, em Concórdia.

Primeiro grupo campeão do Jasc em 1997

No ano seguinte, a cidade de se consolidou como referência na modalidade com a conquista do Campeonato Brasileiro. Novamente com Roland como treinador e representando Santa Catarina, os atletas Walter Janssen Neto, Samuel Lopes e Karl Janssen foram campeões nacionais no carabina deitado.

“Essa equipe merece destaque por ter conquistado algo que dificilmente será repetido novamente, ainda mais para aquela época. No ano anterior havíamos levado o título do JASC e foi o início de nossas principais conquistas”, destaca Samuel Lopes.

Roland Janssen, Karl Janssen e Samuel Lopes na volta do título brasileiro

Desde então, Jaraguá vem empilhando troféus e medalhas no esporte. Até aqui, já são 10 títulos de Jasc, com um total de 108 medalhas, recordes e inúmeros títulos estaduais por equipe e individuais, convocações de atletas para seleção brasileira, participações em Copas Mundiais, Pan Americanos, Sul-Americanos e até Pré-Olímpico.

Grande campeão

Quando se fala em resultados pelo Tiro jaraguaense, logo é lembrado o nome de Samuel Leandro Lopes. Ainda menino, ele saía de casa para caçar junto ao pai, quando a prática era permitida.

Samuel Lopes no primeiro título conquistado no Jasc, em 1995, quando tinha apenas 16 anos

Mais tarde, no processo de reestruturação da modalidade em Jaraguá, a família Janssen o convidou para equipe de rendimento e começou a lapidar sua maior joia, que viria a se tornar o grande nome da história do esporte na cidade.

O talento era tanto, que Samuel iniciou a competir com apenas 12 anos. E não demorou muito para os ensinamentos passados pelo mestre Roland Janssen começarem a surtir efeito.

A primeira conquista surgiu em 1995, quando foi campeão individual do Jasc no carabina deitado, com 16 anos - até hoje o mais jovem a ser campeão no tiro. Um ano depois, já se tornou o primeiro jaraguaense a ser campeão Sul-Americano.

O tempo foi passando e aquele que era considerado um jovem promissor acabou se consolidando como o principal atleta do município de todos os tempos.

Jaraguaense (ao centro) durante a Copa Mundial, no ano de 2000, na Itália

Não é para menos. Já são 22 anos ininterruptos de seleção brasileira, com convocações para vários eventos nacionais e internacionais, inclusive um Pré-Olímpico, chegando muito perto de ir às Olímpiadas.

Além disso, é recordista catarinense, brasileiro, do Jasc, e detém 12 títulos do próprio Jogos Abertos, 23 estaduais, 4 brasileiros e 3 sul-americanos.

“Descobri esse esporte há muito tempo e amo o que eu faço. É um talento que eu tenho e tento lapidar isso cada vez mais. Embora esteja atirando competitivamente há 27 anos, eu sempre busco algo novo. Já ganhei muitos campeonatos, mas me motivo sempre para manter isso. O Tiro é a minha vida”, destacou Samuel.

Samuel na abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro

Dias atuais

Atualmente, a maioria das sociedades treinam apenas para o torneio da Schützenfest, que é um tiro mais festivo e cultural, diferentemente do olímpico e competitivo dos Jogos Abertos e Estaduais.

No Tiro de rendimento, o Clube de Atiradores Jaraguá tem cerca de 50 atletas, envolvidos nas modalidades de carabina deitado, ar, seta e apoiado. As atividades acontecem no Aliança, Independência, Vieirense e Baependi.

Atual técnico do Clube de Atiradores Jaraguá, Samuel Lopes sonha com um próprio stand de tiro para modalidade | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Desde 2000 acumulando a função de técnico/atleta, Samuel Lopes sonha em ver a cidade com seu próprio stand de tiro, que auxiliaria na criação de escolinhas para novos atletas, algo que existiu entre 1999 e 2001.

“Temos alguns clubes com uma estrutura mínima para treinos, mas não temos um local que abranja todas as modalidades e possa unir todas essa provas num só lugar, o que aumenta o número de praticantes. Jaraguá do Sul merece um stand até pelo número de praticantes e resultados que estamos obtendo”, afirma.

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