Relatos narram a luta contra a depressão e transtornos | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Relatos narram a luta contra a depressão e transtornos | Foto Eduardo Montecino/OCP News

“Tive uma perda na família, da minha esposa, que faleceu faz três anos. Eu entrei num estado que nem eu entendia e tentei suicídio duas vezes. Hoje, aqui no Caps, eu me sinto em família”.

Esse é o resumo de um episódio dramático na história de Fabiano, 44 anos, que até então, levava uma vida normal junto à companheira e dois cães, que ambos tratavam como filhos. Na época, ele atuava como cuidador em um hospital.

A dor profunda de perder um ente querido foi acentuada pelas rápidas mudanças na trajetória de Fabiano. O impacto financeiro também o levou ao desespero.

Da vida agitada, com viagens, encontros de motociclistas e participação ativa na comunidade, ficaram só as lembranças. Agora, vive isolado.

Ninguém entra em sua casa e Fabiano só sai para ir ao Caps ou à fisioterapia, pois um acidente doméstico deixou sequelas na perna e ele utiliza muletas para se locomover. Hoje, ele sobrevive com a ajuda de amigos, que contribuem para pagar contas e comida.

Com o apoio dos profissionais do serviço público e de medicamentos, conseguiu controlar os momentos de agressividade. Sem familiares, Fabiano se sente acolhido no Caps. Ele destaca que as oficinas que frequenta, como a de artesanato, ajudam a espantar “as coisas ruins da cabeça”.

“Antes de morrer, ela segurou na minha mão e pediu: só não vende a casa, não vende minha motinha e cuida dos nossos filhos, nossos dois cachorros”, desabafa.

Os animais também morreram, um deles há uma semana. Foram mais duas perdas significativas para Fabiano, mas ele ressalta que se mantém firme e não pensa mais em tirar a própria vida.

A ajuda que recebe no Caps II também serviu para uma importante lição: vencer o preconceito.

“Antes, eu achava que quem buscava um psicólogo era retardado. Eu julgava as pessoas que buscavam esses profissionais e também pensava nas instituições como lugares onde as pessoas eram internadas e levavam choques, como nos filmes que mostram manicômios. Hoje, vejo que não é assim”, comenta.

Fabiano está em tratamento na unidade do Caps II, em Jaraguá do Sul, há um ano e meio. Ali, recebe apoio emocional e psicológico para conseguir reestrutura sua vida sem a companheira.

O que motiva um suicídio?

Geralmente, o suicídio costuma ser associado principalmente à depressão, mas, conforme explica a psicóloga do Caps II, Mariana Stringari, qualquer pessoa pode atentar contra a própria vida, mesmo a que possui rotina normal e não se encontra em isolamento.

“A gente sempre acha que suicídio é depressão, mas temos inúmeros diagnósticos. Eu diria que são dois grandes grupos: as pessoas que têm transtornos de personalidade ou algum transtorno crônico - que mantêm um risco maior quase pela vida toda - e aquelas que se referem a questões mais reativas, um problema pontual”, explica.

Este segundo grupo, complementa a profissional, normalmente é formado por pessoas que tendem a ser mais pessimistas, a ver o lado negativo das coisas. Nestes casos, um acontecimento pode desencadear a ideação suicida.

“Mas ela [pessoa] trabalha, estuda, tem uma rotina, no entanto, uma situação mais difícil pode dar o start. Geralmente, ela chega a esse desespero porque vem sofrendo algum tipo de violência a longo prazo, física ou psicológica”, revela.

As violências, principalmente as psicológicas, que estão menos claras nas famílias, mas são cotidianas, colaboram com esse quadro. Mariana ressalta que a pessoa tenta acabar com a própria vida por uma situação de desespero.

Esse grupo é mais difícil de identificar, mas mais fácil de tratar, segundo a psicóloga. “Eu vejo a família e a sociedade como alguém que pode colaborar muito ou piorar muito a situação da pessoa”, diz.

No grupo dos transtornos, estão doenças como o transtorno bipolar, esquizofrenia, delírios, alucinação auditiva (quando a pessoa se queixa de uma voz que está mandando cometer o ato), entre outras. Nesses casos, a pessoa terá que aprender a lidar com a situação pela vida toda.

Tratamento contínuo

O caso de Jair, 41 anos, se enquadra no grupo de transtornos. Ele sofre de esquizofrenia e também já tentou suicídio duas vezes. A primeira tentativa ocorreu há mais de 20 anos, a segunda há apenas três.

“Eu vi uma luz na minha mente, com algumas portas se abrindo e, ao mesmo tempo, outras portas se fechando. Então eu pensei em me matar, mas, ainda bem que as portas que mais se abriram foram as que eu precisava”, conta.

Nascido no interior, ele sofreu o impacto de mudar para a cidade sem conhecimento e estrutura. Conta que, por ser diferente, as pessoas não o tratavam normalmente e, por isso, sempre se sentiu abandonado.

O preconceito foi constante em sua vida, assim como o sofrimento pelo modo como as pessoas lidavam com sua doença, inclusive a família. No meio rural onde vivia, diz que é normal as pessoas ameaçarem as outras de que “vão se matar”.

Seu tratamento no Centro de Apoio já dura mais de 20 anos. Jair ainda luta contra um histórico de consumo de drogas e álcool. Começou a fumar aos quatro anos de idade.

Hoje, ele consegue conviver melhor com a família e não usa mais entorpecentes, mas viver em equilíbrio requer esforço diário e muito apoio.

Solidão, depressão e bullying

De acordo com o representante do CVV (Centro de Valorização à Vida), Charles Alexandre Costa, entre os fatores de risco também estão o abuso de álcool e drogas, vícios, crises financeiras ou pessoais e de relacionamentos.

Isso não quer dizer que necessariamente essas pessoas vão cometer suicídio, mas que são alguns sinais de alerta.

“Os temas das ligações que o CVV recebe em busca de apoio estão muito ligados a isso. São pessoas que sofrem de solidão, ou depressão, ou com algum tipo de crise - principalmente nas ligações à noite e de madrugada, em que muitas nos ligam chorando, inclusive”, salienta Charles.

Costa também enfatiza a questão do bullying, que atinge os mais jovens, que também motiva a busca de apoio emocional da entidade. Em 2018, até agosto, o CVV realizou 4.758 atendimentos.

Dados em Jaraguá do Sul

De acordo com estudo elaborado pelo especialista em avaliação em saúde da Secretaria Municipal de Saúde e Secretaria de Planejamento, Luís Fernando Medeiros, com dados do Sistema de Informações de Mortalidade, entre os anos de 2010 e 2017, 87 pessoas cometeram suicídio em Jaraguá do Sul, todas residentes na cidade.

Foram 15 casos em 2017, um aumento de 50% em relação ao ano anterior, quando correram 10 mortes desse tipo.

Nestes oito anos, duas faixas etárias se destacaram: 17 pessoas de 20 a 29 anos e o mesmo número na faixa dos 40 a 49 anos tiraram a própria vida. Na sequência, entra a faixa dos 50 a 59 anos, com 15 casos, seguida dos 30 a 39 anos, com 10.

Cabe ressaltar que crianças e adolescentes também fazem parte da estatística: entre 15 e 19 anos, sete se suicidaram em Jaraguá do Sul, além de um caso entre 10 e 14 anos. Estes casos somam 9,2% do total, número maior que as ocorrências nas faixas etárias dos 70 a 79 anos, de 4,6%, e acima dos 80 anos, de 5,7%.

A grande maioria das pessoas que cometeram suicídio entre 2010 e 2017 era do sexo masculino, totalizando 69 casos (79,32%). Em 2015, 12 homens cometeram o ato, representando a totalidade dos registros.

O estudo também revela que, no primeiro semestre de 2018, nove pessoas, cinco homens e quatro mulheres, já tiraram a própria vida em Jaraguá do Sul. A faixa etária mais atingida foi a de 40 a 49 anos, com cinco casos.

O suicídio e seus estigmas

O pouco que se comenta em sociedade sobre o suicídio, quase sempre, serve para opinar sobre a motivação da pessoa que cometeu o ato. Fala-se em covardia, coragem, falta de amor à família, falta de espiritualidade.

No entanto, a psicóloga Mariana Stringari ressalta que o impulso para tentar suicídio, segundo os usuários do Caps, geralmente se refere à dor.

“Pelo relato deles é relacionado a um sofrimento intenso, em que a pessoa não consegue encontrar alguma saída. É aí que o Caps entra, tentamos, junto com a pessoa, encontrar possibilidades. E são diversos sofrimentos, portanto não tem como classificar. Nem chamando de covardia e nem de coragem”, ressalta.

A crença de que as pessoas que externam a vontade de cometer o ato não vão realmente chegar a fazê-lo, não é verdade, segundo a profissional. “Para nós é claro que quem fala, faz”, aponta.

Distância nos relacionamentos

No mundo globalizado, os relacionamentos virtuais muitas vezes impedem a real percepção sobre o outro. As redes sociais sem sempre são parâmetro para a vida real.

Segundo especialistas da instituição britânica Papyrus, que há 20 anos se dedica a diminuir os índices de suicídio no Reino Unido, muitas pessoas que enfrentam pensamentos suicidas costumam se esconder atrás de máscaras de coragem, disfarçando o problema.

Enquanto isso, parentes e amigos, mesmo quando notam alguma alteração de comportamento, preferem não tocar no assunto por medo de mencionar o suicídio. Mas falar abertamente é o melhor caminho para a solução do quadro, garantem os estudiosos.

“Principalmente entre os mais jovens, que possuem mais acesso à internet, há frustração quando existe demora em responder, quando não curtem suas postagens, no que se refere a essa sensação de fazer parte, de pertencer, de ser amado, mas tudo a partir da rede social, não do contato”, explica Mariana.

A psicóloga diz que isso não é só uma questão de internet, mas uma questão cultural. Conforme destacou, o contato virtual é importante, porque encurta distâncias para quem de fato mora longe, mas é importante que não crie distância para quem está perto. “Quanto mais rede social – de afeto e de verdade – a gente tenha, melhor”, conclui.

Onde buscar ajuda?

Caps AD – para pessoas que possuem alguma dependência

  • Rua João Picolli nº 488, bairro Centro;
  • Telefone (47) 3370-5693.

Caps 2

  • Rua Olívio Domingos Brugnago nº 500, bairro Vila Nova;
  • Telefone (47) 3276-0604.

Caps i – para crianças e adolescentes

  • Rua Martin Sthal nº 381, bairro Vila Nova;
  • Telefone (47) 3370-6595.

CVV – Centro de Valorização à Vida

  • Localizado no piso superior da rodoviária;
  • Telefone 188.

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