São aproximadamente nove quilômetros separando o bairro do Centro de Jaraguá do Sul. A distância não é tão grande assim se comparada a outros locais do município, como o Santa Luzia, por exemplo, que fica a mais de 16 quilômetros.

Com uma população de 511 habitantes segundo o Censo de 2010 e uma população estimada em 750 moradores em 2018, o Tifa Monos carrega no nome a palavra “tifa”. Mas afinal, o que significa “tifa”?

Originalmente alemão, o termo “tifa” pode ser traduzido como “profundo”. Ou seja, é uma palavra utilizada para indicar localidades ou bairros muito distantes e afastados das regiões centrais e mais populosas de um município.

Se hoje tanto o Tifa Monos quanto o Tifa Martins não se encaixam nessa descrição, pois não ficam assim tão longe do Centro, à época de sua “nomeação” as coisas eram diferentes.

Comparado a outros bairros, a Tifa Monos não fica tão distante do Centro de Jaraguá do Sul. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Ou nem tanto assim, conforme conta a aposentada Adelaide de Souza, que dos 71 anos, já está há 16 no bairro. Segundo ela, os anos passam, mas o cenário não muda muito daquele lado da rodovia.

“Pra mim está do mesmo jeito. Não cresceu, não aumentou. Só o que cresce são os buracos e o mato na beira da rua”, diz.

Assim como ela, a presidente da Associação de Moradores, Beatris Bonfim, também não vê grandes mudanças na Tifa, apesar da estimativa de aumento populacional entre os anos 2010 e 2018.

Para ela, que mora há 25 anos no bairro, a situação estrutural do bairro não se modificou nessas mais de duas décadas, apesar de empreendimentos de grande porte, como a recente instalação da Faculdade Estácio, que poderia sugerir mudanças estruturais no local.

“Moramos aqui há tanto tempo e comemos poeira há muitos anos. Fica difícil pra gente aceitar esse tipo de coisa", reclama.

Embora a estrutura não tenha mudado ao longo dos anos, para a aposentada Alice Marchetti, de 75 anos, é possível visualizar “caras novas” no bairro.

Moradora do Tifa Monos há 55 anos, ela afirma que apesar de os moradores continuarem a ser, em essência, os mesmos ou ao menos descendentes daquelas que ali estavam quando ela chegou, há diversas pessoas chegando ao bairro.

“Quando nós viemos tinha só umas cinco famílias aqui e os colonos lá pra cima. Agora, nem sei quantas casas tem, tem bastante gente nova”, diz.

Com muita terra a ser explorada e a instalação da Faculdade, a tendência, acredita Beatris, é que o bairro ganhe visibilidade e novos moradores. O crescimento poderia estimular a vinda de novas estruturas públicas e serviços comerciais, acredita.

Mantido pelas mãos de moradores

Se a população não cresceu e a estrutura não chegou para melhorar a condição das ruas, a aposenteda Adelaide de Souza faz ela mesma o papel de cuidar do bairro que, embora pequeno, é rico quando o assunto é a mata.

Os grandes terrenos dos colonos, que iniciaram a Tifa Monos há muitas décadas atrás se mantiveram e não é difícil encontrar moradores pelo caminho cuidando, com as próprias mãos, da rua.

Adelaide cuida do bairro que, embora pequeno, é rico quando o assunto é a mata. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

E uma delas é Adelaide, que não se furtou em utilizar parte do que deveria ser uma calçada, para plantar flores e árvores. As palmeiras chamam a atenção e ela logo explica o motivo de elas estarem ali, imponentes.

“Meu filho plantou as palmeiras para deixar bonito, mas também porque parece que dá uma segurança a mais. A rodovia é ali em cima já e, se bobear, pode dar um acidente e o carro despenca aqui dentro do terreno. Parece que com as árvores dá uma segurada”, conta.

Palmeiras, folhagens, “espadas de São Jorge”, lírios. O repertório de plantas é grande e, para ela, além de passatempo, o cuidado ajuda a manter o bairro mais bonito e organizado por conta própria.

“Aqui não passa nada nem ninguém, ninguém aparece nem pra tapar os buracos, então, cuidar, plantar e regar além de me fazer bem, acaba deixando o meu lugar mais bonito”, ressalta.

Adelaide também reclama da falta de atenção do município até mesmo com a manutenção das ruas | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Não há pavimentação no Tifa Monos

A placa indica que o bairro começa ali, naquela “descidinha” ao lado da BR-280. Para quem trafega no sentido Jaraguá do Sul-Corupá, é difícil não notar a grande estrutura azul do lado esquerdo da rodovia.

A Faculdade Estácio foi inaugurada neste ano e está localizada, justamente, no Tifa Monos, que tem a tal placa de indicação poucos metros a frente.

A rua que dá acesso é de chão, sem asfalto ou calçamento, assim como todas as ruas do pequeno bairro. E, embora exista promessas para mudar esse cenário, a presidente da Associação de Moradores, Beatris Bonfim, não se mostra tão confiante assim na concretização do projeto.

Muitas ruas do bairro ainda precisam de pavimentação. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

À frente da associação há um ano, ela conta que essa promessa já se arrasta há muito tempo.

“Existe um projeto de asfaltar algumas ruas e, além disso, precisamos  que mudem alguns postes de lugar, alargamento de rua, que cortem árvores na beira das ruas. Estamos batendo nestas mesmas teclas há anos”, afirma.

A notícia de alargamento e pavimentação se espalhou pelos moradores. “Olha, parece que vão asfaltar algumas ruas e essa aqui, a Pedro João Meurer, parece que vão alargar. Agora quando, isso eu já não sei”, conta a aposentada Alice Marchetti.

Agentes de saúde deixaram o bairro

A visita dos agentes comunitários de saúde é comum nas residências brasileiras, pelo menos em boa parte delas. Para quem mora no bairro Tifa Monos também era assim até cerca de um ano atrás, conta a presidente da Associação de Moradores, Beatris Bonfim.

Ela diz que há cerca de 12 meses, os moradores deixaram de receber as visitas periódicas que eram, muitas vezes, o contato mais fácil e próximo com o setor de saúde do município, uma vez que o bairro não possui uma unidade própria.

Para Beatris, há um abandono evidente da comunidade que, ressalta a presidente, é bastante combativa e cobra ações públicas.

“Nós estamos abandonados pelo posto de saúde. Não temos sequer a visita de agente comunitário. Estamos abandonados há mais de um ano”, enfatiza.

A presidente conta que antes de cessarem, as visitas eram realizadas pela equipe da unidade de saúde do bairro Nereu Ramos.

“Além disso, o atendimento demora muito. Temos que ir até Nereu e até esses dias eles estavam sem médico, o que dificultou ainda mais”, lembra.

A falta de visitas é apontada como problema também pela aposentada Adelaide de Souza. Ela confirma a informação de que há cerca de um ano não há atendimento domiciliar. “Não vem ninguém há tempos e se precisar, tem que ir para Nereu. Não tem posto, não tem visita, nada”, volta a ressaltar.

Falta lazer e comércio, mas há segurança

A falta de opção não é diferente no que diz respeito a lazer. Os moradores não possuem nenhuma área destinada a atividade física e lazer ofertada pelo município, como as pracinhas, parques e academias ao ar livre disponíveis em outros bairros.

Segundo a aposenta da Adelaide, a única opção das crianças é o espaço da Escola Municipal de Educação Básica Padre Alberto Jacobs.

Uma das opções de lazer das crianças é o espaço da Escola Padre Alberto Jacobs. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

A falta de comércio também atrapalha a vida dos moradores, conta Adelaide. Ela diz que para tudo é necessário ir ou para Estrada Nova ou até Nereu Ramos. “Não tem mercado, padaria, nada, só o barzinho perto da escola. Aí temos que ir para outros lugares”, diz.

Para a presidente da Associação de Moradores, Beatris Bonfim, além dos problemas estruturais, uma das principais demandas da comunidade é a regularização fundiária de boa parte dos terrenos. Ela afirma que neste ponto, o setor responsável tem realizado um trabalho satisfatório.

“Enviamos ofício, fizemos tudo e, nesta parte, eles estão trabalhando, encaminhando a legalização dos terrenos. Nisso não tem como reclamar”, conta.

Apesar disso, a aposentada Alice Marchetti ressalta a segurança e tranquilidade do bairro como o principal motivo pelo qual os moradores, em geral, fixam raízes no Tifa Monos.

“É um lugar muito tranquilo, sossegado, pelo menos por enquanto continua sendo assim. Eu não trocaria por outro. Morei 15 anos lá na divisa com Guaramirim e não sairia daqui”, destaca.

Prefeitura justifica falta de estrutura com números populacionais

A Prefeitura afirma que a pavimentação da rua Germano Stricker é prioridade da gestão municipal. Segundo o município, o projeto da obra já está pronto e faz parte do pacote inscrito no Programa Avançar Cidades, do Governo Federal, aguardando apenas assinatura do contrato com a União.

O governo municipal afirma ainda que está elaborando projeto de pavimentação parcial da rua Pedro João Meurer  e da rua Carlos Weinfurter.

Empreendimento privado pode ser impulso para desenvolvimento | Foto: Edu Montecino/OCP News

O município cita ainda a obra do contorno da rodovia BR-280, que termina no bairro, como um propulsor de melhorias na localidade.

“Isto vai melhorar o acesso do bairro à rodovia, pois ali terá um viaduto completo que trará segurança a região. Neste sentido, a Prefeitura de Jaraguá do Sul também promoverá outras melhorias no entorno”, destaca por meio de nota.

O poder público municipal admite que a presença da Faculdade Estácio – investimento privado de grande porte – induz o município a rever o planejamento urbano do bairro. “Este planejamento começa em breve a ser revisto com as legislações decorrentes da aprovação da revisão do Plano Diretor”, complementa.

Outro dado destacado pelo município é o número populacional do bairro como justificativa para as deficiências estruturais do local. “O bairro tem apenas 0,42 % da população de Jaraguá do Sul. Tem 203 domicílios”, finaliza.

--

Quer receber as notícias no WhatsApp?