A rua principal é de calçamento, com aquele charme típico das “ruazinhas de pedra”. Quando chove o clima fica em um misto de melancolia com o ar de uma pequena cidade do interior do Brasil.

Para quem não conhece ou chega até lá perdido ou desavisado, é muito possível que pense exatamente isso: que chegou a uma das muitas pequenas cidades brasileiras. Mas não, é um bairro. Italiano, carregado de muita religiosidade e pertencente à Jaraguá do Sul.

O Santa Luzia ganhou manchetes estaduais e até nacionais em 2017, quando a Operação Carne Fraca da Polícia Federal desembarcou no local. O resultado foi o fechamento da filial do frigorífico Peccin, fonte de um número significativo de empregos no bairro. Antes com fluxo intenso de trabalhadores e caminhões, hoje o prédio está fechado e abandonado.

O bairro, tipicamente italiano, fica mais próximo de Schroeder do que do centro de Jaraguá do Sul, o que, para alguns moradores, facilita o acesso a comércio e serviços indisponíveis no Santa Luzia, como por exemplo, agência bancária.

Para ter acesso ao comércio e serviços, os moradores recorrem à cidade de Schroeder que fica mais próxima do que o centro de Jaraguá do Sul. (Foto: Eduardo Montecino/OCP News)

Segundo a comerciante Janete Weber Balbinot, de 47 anos, a comunidade tem muita dificuldade para utilizar alguns serviços fundamentais, como os de postagem. “Aqui não tem Correios, existe só um posto, mas não temos entrega de cartas na rua, tem que ir até lá buscar e em um horário específico”, conta.

Moradora do bairro há 30 anos, Janete afirma que as mudanças não foram assim tão bruscas como no resto da cidade. Em Santa Luzia, o clima de interior permanece praticamente o mesmo de três décadas atrás, garante a comerciante.

Moradora Janete analisa bairro e aponta melhorias necessárias. (Foto: Eduardo Montecino/OCP News)

Ela conta que a estrutura de grandes propriedades produtoras, especialmente de banana e arroz, segue o mesmo, o que mantém o potencial produtor do bairro e também garante o clima interiorano.

“O bairro em si não cresceu muito, é uma região que planta muito e os mesmos que plantavam antes continuam plantando agora, as mesmas famílias”, explica Janete.

A manutenção da produção da região faz com que a população também se mantenha intacta. Dessa maneira, a velha vizinhança onde “todo mundo se conhece” acaba por dar mais tranquilidade aos moradores, afirma a comerciante. “É muito bom de morar aqui, a gente conhece todo mundo e a família de todo mundo”, diz.

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E é justamente esse senso de comunidade que já se conhece há anos que prende a cabeleireira Marilene Lorenzzetti, 56 anos, ao bairro. Para ela, que mora há 36 anos, em uma das ruas do Santa Luzia, outro bairro não tem chance de conquistá-la. “A minha rua é muito tranquila, o bairro é muito tranquilo e todo mundo se conhece. Não troco por nada não. Não é fácil trocar Santa Luzia”, afirma.

Ruas precisam de manutenção

Mas, se o bairro tem um clima agradável e faz com que todos os moradores se sintam, de fato, em casa, ele também sofre com problemas estruturais.

Janete reclama do descaso do poder público com as ruas do bairro que, segundo ela, não possuem pavimentação e sofrem com a falta de manutenção. “Nunca tem manutenção, é muito raro aparecer alguém aqui para cuidar dessas ruas, por coincidência, semana passada arrumaram uma rua, mas vieram, arrumaram uma e foram embora”, conta.

Ela afirma ainda que, muitas ruas pavimentadas do bairro foram custeadas pelos próprios moradores apenas com a mão de obra fornecida pela Prefeitura. “A maioria do asfalto a gente que pagou. A gente é esquecido aqui”, completa.

Foto: Eduardo Montecino/OCP News

A comerciante afirma ainda que, com o tempo chuvoso, os buracos se multiplicam, o que acaba por dificultar a vida de toda a comunidade. Ela conta que a cada saída da agropecuária para fazer entrega, é um “verdadeiro rally”. “É só buraco”, ressalta.

A moradora também reclama da falta de manutenção e atenção com as ruas do bairro. Segundo ela, o poder público sequer macadamizou a via para tentar minimizar o problema.

“As nossas ruas não mudaram e estão cada vez piores. Nunca nem macadamizaram a rua e olha que a gente já pediu. Aqui nós somos abandonados pelos prefeitos, por todos eles. Sempre digo que parece que Santa Luzia nem pertence a Jaraguá”, reclama.

Marilene diz que a falta de equipes da Prefeitura sempre foi um problema e distancia o bairro ainda mais de Jaraguá. (Foto: Eduardo Montecino/OCP News)

Além da falta de pavimentação e manutenção, segundo as moradoras também não é comum a presença de funcionários da Prefeitura realizando a limpeza das ruas. “Limpeza de rua aqui não existe”, diz Janete. “O IPTU aumenta, mas aqui nós não vemos esse retorno”, completa Marilene Lorenzzetti

Segundo a Prefeitura, o programa Cidade Limpa tem uma equipe específica para a limpeza das ruas, canteiros, jardins e praças públicas e tem cumprido conograma. As ruas sem pavimento no Santa Luzia foram patroladas neste ano, bem como foi feito conserto de asfalto no principal acesso ao bairro.

“O serviço de macadamização é que tem mais dificuldades neste momento, pela logística e pela quantidade de caminhões. No entanto, a Secretaria de Obras está fazendo estudos sobre o fornecimento de materiais de algum ponto mais próximo daquela comunidade”, destaca a Prefeitura.

Área de lazer existe, mas tratada com descaso

A quadra de futebol de areia estava vazia e já formava pequenas poças devido a chuva incessante do início da semana. Ao lado, balança, escorregador e gira-gira. A área de lazer no bairro fica na rua da cabeleireira Marilene Lorenzzetti, que lamenta o descaso com o local que, mesmo com o mato mais alto do que o normal segue sendo frequentado pelas crianças.

Marilene conta que muitas dessas crianças têm sofrido com micoses e, para ela, a falta de manutenção onde elas brincam é a causa. “As crianças continuam brincando, claro, é o lugar que elas têm pra brincar. Mas estão com bicho geográfico, dá até dó e é claro que vai dar problema, eles nem limpam aquilo direito”, enfatiza.

(Foto: Eduardo Montecino/OCP News)

A comerciante Janete Weber Balbinot chama a atenção para essa falta de opção e ressalta que “parece que Santa Luzia não existe para Jaraguá”. Segundo ela, além das crianças e adolescentes que não são atendidos pelo local que carece de manutenção, os mais velhos também não são assistidos, pois o bairro não possui opções para esse público. “Área de lazer? Não tem nada. Nem aquela academia da melhor idade tem aqui”, diz.

De acordo com a equipe de limpeza da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer da Prefeitura, a última manutenção da área de lazer citada foi realizada há pouco mais de dez dias.

“O calor intenso das últimas semanas tem exigido roçadas mais frequentes destes locais”, afirma a Prefeitura, em nota.

Em relação aos equipamentos, tanto das áreas infantis quanto das quadras, a secretaria destaca que atos de vandalismo, furto e depredação vêm encarecendo o custo de manutenção das mesmas.

São mais de 53 parques infantis, 38 quadras de futebol de areia e 28 academias ao ar livre espalhados pelo município. A assessoria de imprensa informou que ainda ontem (9), o responsável pela equipe, Gilson Grama de Souza, foi ao local para verificar as condições da área de lazer.

Atendimento de saúde e transporte

“Se tem uma coisa que funciona aqui, é o posto de saúde”. A frase é da cabeleireira Marilene Lorenzzetti, que exalta o trabalho de saúde realizado no bairro. Para ela, que é usuária do SUS (Sistema Único de Saúde), o atendimento na unidade de Santa Luzia consegue tanto atender a demanda quanto realizar um bom trabalho no que diz respeito à saúde da família, com visitas frequentes de agentes comunitários de saúde.

“O posto de saúde é muito bom, não tenho absolutamente nada do que reclamar. O que a gente tem de bom é o nosso posto. As agentes sempre passam. É, certamente, o que mais funciona aqui”, ressalta.

Mas a opinião dela não é compartilhada pela comerciante Janete Weber Balbinot, que reclama da demora em conseguir atendimento com o médico da unidade de saúde. “Eu estou esperando uma consulta há dois anos e até agora não chegou a minha vez”, reclama.

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A Secretaria de Saúde afirma que a paciente Janete está na fila desde 23 de agosto de 2017, são oito meses de espera. “Ou seja, não faz um ano ainda”, afirma a noite. A morador está na posição 37 para medicina clínica na UBS Santa Luzia e de ser chamada até o mês de julho.

“A Saúde é prioridade dentro da Administração Municipal e o nosso esforço é constante para manter e assegurarmos os bons níveis de atendimento à população”, destacou a Prefeitura em nota.

Se a área de saúde é a divergência entre as duas moradoras, ambas concordam ao afirmar que o transporte público atende a região com qualidade. Segundo elas, os ônibus conseguem atender os moradores com bons veículos e horários adequados.