A segunda-feira de sol em Jaraguá do Sul foi providencial para tornar a praça do bairro Nereu Ramos mais convidativa para aquele bate papo pós final de semana. Embora para os aposentados Juvenal Schiochet, de 75 anos, João Mathedi, de 74 e Darci Uber, de 65, o encontro nos bancos que dão uma boa visão da rua principal, dos trilhos e do movimento já faça parte da rotina, nesta semana a discussão era o futebol.

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O Fluminense de João e Juvenal havia vencido no fim de semana, mas a posição na tabela incomoda. Já Darci estava mais feliz, o Vascão não tinha conseguido a vitória, apenas empatou com a Chape no Oeste catarinense, mas a quarta colocação deixa o aposentado animado.

Juvenal Schiochet, João Mathedi e Darci Uber se encontram regularmente no bairro | Foto Eduardo Montecino
Juvenal Schiochet, João Mathedi e Darci Uber se encontram regularmente no bairro | Foto Eduardo Montecino

E futebol é realmente um assunto que faz a conversa dos três se arrastar por horas, até porque, o esporte faz parte da história do próprio bairro onde os três construíram a vida. As décadas de 1960 e 1970 ficaram marcadas na memória de Juvenal e não foi só pela conquista do Brasil em 70.

Ele se encantou com Pelé sim, mas também se encantou com a bola nos pés e vestindo a camisa do Estrella Futebol Clube que, até hoje tem o nome cravado no campo do bairro.

E, tudo bem que não era uma Copa do Mundo, mas Juvenal também aprontava das suas com as chuteiras longe de parecerem as coloridas que os jogadores ostentam hoje em dia.

O campo onde o time conquistou muitas vitórias hoje serve para os jovens jogadores | Foto Eduardo Montecino
O campo onde o time conquistou muitas vitórias hoje serve para os jovens jogadores | Foto Eduardo Montecino

A chuteira era preta, tradicional, e as disputas eram nos campeonatos municipais e regionais. E a torcida? Essa acompanhava o time em peso, garante o aposentado. “Nós disputávamos o campeonato municipal e conseguia encher um, dois ônibus, caminhão e mais algumas coisas”, lembra.

E o time saiu das fronteiras do bairro e do município e foi disputar o Campeonato Norte Catarinense. Ele conta, enquanto os olhos viajam como se buscassem as imagens do passado, que essa disputa foi dura, mas o título veio após um empate contra o time da Tupy, em Joinville. “Foi em 79, empatamos com a Tupy lá no estádio deles e trouxemos o título pra terrinha”, lembra.

Bairro é conhecido pelo turismo religioso

Terrinha é o modo carinhoso como os três chamam o bairro, que hoje já não é mais tão conhecido pelo time, mas passou a ser bastante conhecido pelo turismo religioso, especialmente porque foi na “terrinha” que o padre Aloísio Boeing passou boa parte da vida e onde está enterrado.

O padre, que morreu em 17 de abril de 2006, aos 92 anos, se destacou por prestar atendimento individual aos fiéis, fazendo o acolhimento, aconselhamento e abençoando cada um que o procurava. Padre Aloísio chegou à Igreja Nossa Senhora do Rosário, em Nereu Ramos, no ano de 1984.

Padre Aloísio chegou à Igreja Nossa Senhora do Rosário em 1984 | Foto Eduardo Montecino
Padre Aloísio chegou à Igreja Nossa Senhora do Rosário em 1984 | Foto Eduardo Montecino

Para Darci, o padre era “de uma estatura baixa, mas um grande homem”. E, claro, o trio recorda da vida do padre que está em processo de beatificação no Vaticano. João lembra que o padre era muito prestativo, paciente e acolhedor com os fiéis. “Ele aconselhava, ajudava os pobres e todo mundo que procurasse”, diz. “Eu escutei até que ele ajudava com dinheiro aqueles que não tinham”, completa Juvenal.

A iminência de um santo que viveu no bairro movimenta a comunidade que recebe muitos fiéis em busca de graças, especialmente nos dias 17 de cada mês, quando é realizada uma missa em homenagem ao padre.

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Para o estudante Renan Reitz, de 25 anos, esse processo pode ajudar inclusive economicamente o bairro que já viu mudanças significativas acontecerem.

“Com certeza terá um investimento, devem fazer algo em homenagem, como uma praça, talvez, espaço tem. Isso pode e sem dúvida deve atrair turistas, movimentando a economia do bairro”, avalia.

Crescimento começou há cerca de uma década

As mudanças no bairro aconteceram, segundo o estudante Renan Reitz, na última década, quando novos moradores começaram a chegar a Nereu com mais intensidade. Se a expansão imobiliária chamou os moradores ou a chegada deles impulsionou a expansão, não se sabe ao certo, mas o fato é que novos condomínios e empreendimentos começaram a surgir e a população do bairro começou a mudar.

O trio de aposentados Juvenal Schiochet, João Mathedi e Darci Uber, conta que, antigamente, o local era, majoritariamente, habitado por descendentes de italianos, assim como eles. Hoje, eles afirmam, a “mistura” típica do Brasil também acontece nas ruas de Nereu. “Nereu cresceu muito nos últimos oito anos, com esses condomínios, mas poderia ter crescido mais”, afirma Juvenal.

Novos empreendimentos tem feito o bairro crescer, afirmam moradores | Foto Eduardo Montecino
Novos empreendimentos tem feito o bairro crescer, afirmam moradores | Foto Eduardo Montecino

João conta ainda que o crescimento se deu mais na periferia do que na região central do bairro, que tem clima de cidade pequena, daquelas que o comércio e os serviços se desenvolvem ao redor da igreja e da pracinha. “Aqui no centrinho cresceu pouco, mas mais pra fora tem crescido bastante”, avalia.

Mas, para Darci, o crescimento poderia ser maior se houvesse mais facilidade para a construção de empreendimentos imobiliários, como condomínios. “Em outros lugares parece que tem mais facilidade para ter esses condomínios, isso poderia impulsionar mais”, completa.

Nereu Ramos pede mais cuidado

E, já que o bairro está crescendo, novas pessoas estão chegando, Darci diz que Nereu merece ser visto com “um pouco mais de carinho”. Para ele, o que poderia ser feito e que vai de encontro ao gosto pelo esporte, é um ginásio. “Aqui já merecia um ginásio de esportes. Eu acho que um ginásio ia concentrar mais esses jovens que gostam de esporte”, destaca.

O bairro conta hoje com áreas de lazer, como a quadra de futebol de areia que fica do ladinho da praça que era, antigamente, ponto de encontro, chegada e partida de trens e passageiros, lembra Juvenal. “Aquilo enchia de gente, era trem passando sempre, de carga e de passageiro. No tempo da maria fumaça ainda”, recorda.

O bairro conta hoje com áreas de lazer, como a quadra de futebol de areia | Foto Eduardo Montecino
O bairro conta hoje com áreas de lazer, como a quadra de futebol de areia | Foto Eduardo Montecino

O trem levava para longe, mas para os bailes dos bairros vizinhos o transporte era mesmo a bicicleta. “Saía de bicicleta pra ir no baile no Salão da Alemanha, no Botafogo, no Doering”, lembra. E o traje era de gala para a diversão: terno e gravata, garante João.

“No nosso tempo tinha hora pra chegar em casa e a gente colocava terno e gravata pra ir nos bailes com 17, 18 anos. Até na missa ia de gravata”, conta.

Hoje é tudo muito diferente e, ao invés da diversão nos bailes, os três se divertem na pracinha recordando o passado, falando de futebol, projetando quem leva a Copa do Mundo e também falando sobre o que pode melhorar no bairro.

Asfalto deve chegar em breve

Pra quem viu o bairro crescer, as ruas serem abertas e, algumas delas se transformarem de estradinhas estreitas de chão para largas vias asfaltadas ou com calçamento, a notícia de que a pavimentação vai chegar com intensidade no bairro é motivo de comemoração. Recentemente, a prefeitura anunciou um “pacotão” de ruas que devem ser asfaltadas nos próximos meses e, boa parte delas, fica em Nereu.

Sorte de Juvenal Schiochet que tem a rua de casa na lista das contempladas. A rua Albino Zanghelini é uma das 13 que fazem parte do cronograma de pavimentação. Para ele, o asfalto deve, além de melhorar a infraestrutura do bairro, atrair moradores e investimentos.

Diversas ruas deverão ser asfaltadas, mas falta manutenção e limpeza, alertam moradores | Foto Eduardo Montecino
Diversas ruas deverão ser asfaltadas, mas falta manutenção e limpeza, alertam moradores | Foto Eduardo Montecino

Feliz com o asfalto chegando, mas atento ao que pode melhorar, o aposentado que diz “aqui nasci, tomei banho de rio, estudei, casei e vivi”, não gosta muito do calçamento da rua principal. “A minha rua é uma que vai entrar, vai ser asfaltada ainda bem. Mas, uma coisa que eu não gosto é isso aqui”, diz enquanto aponta para o calçamento de pedra. “Deveria ser asfaltado”, completa.

Felizes com o asfalto, o trio também comemora a presença da casa lotérica, ainda que ela já esteja por ali há algum tempo. “Antes não tinha banco nem nada, pra pagar conta tinha que ir pro Centro”, lembra Darci, que também não dispensa a boa e velha fezinha na loteria.

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Para ele, o bairro é tranquilo e autossustentável, embora lembre que pode melhorar. Ele diz que há variedade de comércio, suficiente para atender a demanda. Mas, para o estudante Renan Reitz, a infraestrutura de comércio e serviços deixa a desejar.

Comunidade tem potencial para crescer ainda mais

Aos 25 anos, nascido e criado no bairro, o estudante de Design vê potencial para mais e, acredita que Nereu Ramos deve crescer também neste ponto, muito impulsionado pelo crescimento imobiliário e pelo turismo religioso.

“Era um bairro que todo mundo se conhecia há 10 anos, agora já não é assim”, diz. “Cresceu um pouco no que diz respeito a comércio, mas ainda dá pra melhorar e infraestrutura, inclusive de serviços como saúde e educação”, completa.

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Mas, o que mais chama a atenção e é o maior alvo de críticas é a limpeza. Isso mesmo. A limpeza de ruas, terrenos vazios e praças. Segundo o aposentado Darci Uber, os próprios moradores costumam fazer a manutenção da pracinha porque, de acordo com ele, a manutenção não tem sido constante.

“Uma coisa que é bem ruim é a limpeza de ruas. Além disso, quem mantém essa praça limpa somos nós, os moradores. E nas vias públicas ninguém aparece pra roçar”, reclama.

Moradores dizem que limpeza da praça é mantida por eles mesmos | Foto Eduardo Montecino
Moradores dizem que limpeza da praça é mantida por eles mesmos | Foto Eduardo Montecino

Além disso, lembra o aposentado João Mathedi, a população não pode fazer a limpeza utilizando os famosos “venenos”. “Eles não aparecem pra limpar e a gente não pode passar veneno nem nada”, ressalta.

Embora bastante afastado do Centro da cidade e quase já em Corupá, o bairro que atrai turistas graças ao turismo religioso conquista os moradores pela tranquilidade. Para João, que saiu de Nereu Ramos para morar 34 anos em Joinville, não há lugar melhor, tanto que ele deixou o filho na cidade vizinha e voltou para Nereu Ramos há 19 anos. “Não há lugar melhor que a terrinha, daqui eu não saio nunca mais”, finaliza.

Em relação à jardinagem nas duas praças de Nereu Ramos, o secretário de Obras e Serviços Públicos, Onésimo José Sell, informa que o trabalho é feito em média a cada 45 dias. O mesmo acontece com os serviços de roçadas nas vias e a limpeza destas. Nesta semana, a equipe contratada pela prefeitura para os serviços de limpeza, está trabalhando no bairro.

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