A expressão “quando eu cheguei aqui era só mato” é bastante utilizada e já ganhou muitos contornos e contextos, mas se tem uma pessoa que pode repetir a frase com todo o sentido que ela carrega, esse alguém é o aposentado Armando Spezia.

Aos 82 anos, ele fincou raízes no bairro Rio Molha há 76 anos; quando chegou o que viu era mata e conseguia contar nos dedos a quantidade de vizinhos.

“Quando vim morar aqui tinha nove moradores e nada mais”, conta.

De lá pra cá, muita coisa mudou no bairro, hoje muito conhecido na cidade, tanto por aspectos positivos, quanto negativos.

Foto Eduardo Montecino/OCP News

De um lado a tradicional procissão de Via Sacra, que chega a reunir 7 mil pessoas, e do outro os impactos das chuvas de 2008 – que transformaram boa parte do local em área de risco.

Para o aposentado, que mostra a propriedade acompanhado do fiel companheiro, o cachorro Baruc, o sossego do local não se alterou com o passar das décadas, apesar do recente episódio com sua casa de campo, que fica próximo às residências da família – de um lado mora o filho e logo atrás, a filha. Há cerca de um mês, atearam fogo na casa de campo que não resistiu às chamas.

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“Todo mundo gosta de morar aqui para cima, é muito tranquilo e sossegado e, além disso, olha como é bonito”, diz enquanto mostra o quintal e as lagoas repletas de tilápias e pintados.

Há quase dois anos o aposentado sente a falta da companheira, Iracema, que faleceu devido a um câncer. Devota de Nossa Senhora Aparecida, foi ela a responsável pela construção da capelinha que dá as boas vindas a quem chega na casa dos Spezia.

A todo momento ele lamenta a falta que a companheira de vida faz e o quanto a perda dela impactou na rotina da casa.

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Para Spezia, que é um dos pioneiros do bairro que hoje tem mais de 2 mil habitantes, o local mudou, mas não perdeu a essência. Com o passar dos anos e o desenvolvimento da cidade, ele percebe que alguns pontos não se alteraram.

“Aqui ainda dá para caminhar à noite pelas ruas, coisa que em outros lugares talvez não seja mais possível”, diz.

Áreas de risco serão revisadas

De todo território do bairro Rio Molha, grande parte foi considerada como área de risco pelo estudo realizado pela Defesa Civil. Nas chuvas de 2008, a rua Adolfo Antônio Emmendöerfer, chegou a ficar dias bloqueadas por conta de um desmoronamento.

Há cerca de cinco anos, os moradores passaram a contestar esse estudo, uma vez que a classificação impedia construção em terrenos ou ampliação de casas.

A Prefeitura de Jaraguá do Sul pretender reavaliar essa e outras situações com a revisão do Plano Municipal de Redução de Riscos, de 2007.

Está em processo de licitação a contratação de empresa para atualizar o mapeamento de riscos de escorregamento em encostas, assim como mapear novas  áreas suscetíveis.

Educação e saúde merecem atenção

Claudia Patrícia dos Santos nasceu, foi criada e não tem pretensão de algum dia sair do bairro. Já são 39 anos vivendo no que ela considera um bairro “tranquilo e seguro”. Ela e a mãe, Jurema Spezia dos Santos, de 64 anos, tem como vizinho o Rio Molha, que dá nome ao bairro.

Moradoras da rua Artur Aldrovandi há quase quatro décadas, as duas são defensoras do rio e rotineiramente vestem luvas para limpar até onde for possível.

“Tem muita gente que não cuida e ele é tão bonito para ficar sujo, então a gente está sempre limpando o rio”, diz Jurema.

Defensoras do bairro, para há pontos que merecem atenção do governo municipal. A mais urgente para elas, é a construção de uma creche.

Claudia ressalta a importância da escola municipal do bairro, que atende em período integral e desenvolve projetos pedagógicos importantes, como o do Boi de Mamão, que já tem 25 anos de atuação.

“Temos uma escola muito boa, em período integral e que desenvolve muito as crianças, mas falta uma creche. E pra quem mora lá pra cima é pior ainda”, reclama.

Outra reclamação é mais abrangente e vem acompanhada de elogios. Para Jurema, a unidade básica de saúde do bairro é uma das melhores da cidade, com boa estrutura e, até pouco tempo, com agilidade para marcar consultas médicas.

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Segundo ela, a metodologia de agendamento mudou e acabou por protelar o atendimento.

“Centralizaram as marcações e isso tornou o processo mais demorado. No tempo que era no posto tudo, era melhor, mais ágil, agora vai para a central para redistribuição e demora mais”, diz.

Quando se fala do posto de saúde, o aposentado Armando Spezia elogia especialmente o “doutor Felipe”. “Eles atendem muito bem ali. O doutor Felipe é muito carinhoso, atencioso, bonzinho”, finaliza.

Forte relação com a religião

Quem transita pela rua Adolfo Antônio Emmendöerfer passa pelas 15 estações com as cenas da Via Sacra – que representam o trajeto que foi percorrido por Jesus carregando a cruz desde Pretório até o Calvário.

No fim dessa subida está a igreja da Comunidade Nossa Senhora do Rosário e a Gruta Nossa Senhora de Lurdes.

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Não há referência exata sobre a construção das chamadas capelinhas. De acordo com o Arquivo Histórico Municipal, estima-se que a subida ganhou esse tom religioso na década de 1980.

Atenção à manutenção de ruas

O aposentado Armando Spezia também aponta problemas estruturais que merecem atenção do poder público. Entre suas preocupações está a pavimentação da estrada principal que faz ligação entre Jaraguá do Sul e Massaranduba.

Ele teme que a qualidade do asfalto não suporte o fluxo que, ele projeta, deve se intensificar com a conclusão da obra.

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Além disso, outro aspecto das ruas incomoda o aposentado: a falta de calçadas. Católico, Spezia não perdeu o hábito de frequentar a missa e, quando se aventura na caminhada, sente falta de um local apropriado para os pedestres.

“Se você vai andando com alguém, não dá pra andar um do lado do outro não, porque não tem calçada, acostamento, nada. Tem que ir um atrás do outro”, afirma.

O trânsito é uma das principais reclamações para os demais moradores. Na rua Artur Aldrovandi, Patrícia e Juremados Santos reclamam que o trânsito da rua chega a ficar impedido em diversas oportunidades devido a uma unidade escolar particular localizada no início da rua.

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Claudia afirma que os carros não respeitam o trânsito e utilizam qualquer lugar como estacionamento, “trancando” a rua.

“O povo do Molha todo reclama muito, o trânsito fica horrível, praticamente trancam a rua para buscar e levar as crianças, param na faixa de pedestre, não respeitam nada”, reclama.

Para o mecânico Marcelino Chiodini, de 34 anos, um dos problemas está na rua da sua casa, que também carrega o seu sobrenome. Foi lá que ele presenciou, no último sábado (30), um acidente que, para ele, poderia ter sido evitado.

Ele conta que o estreitamento da rua aliado ao vazamento de água resultou em uma roda quebrada e, por pouco, não foi o motivo de um acidente mais grave.

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“A rua é estreita e bem nessa curva tem esse buraco, pra não bater de frente o motorista teve que desviar e quebrou as duas rodas dianteiras no buraco”, diz enquanto mostra a marca de óleo ainda visível nas pedras.

Segundo ele, o tubo colocado para dar vazão à água não dá conta e acaba provocando a erosão da rua. “Estava escrito no papel que era tubo de 80 e colocaram de 60. Por essa teimosia, o pessoal está sendo prejudicado. É isolado aqui, mas tem bastante fluxo”, reclama.

A Prefeitura afirma que a rua Pedro Chiodini já tem projeto de pavimentação com largura de sete metros.

Belezas para aproveitar

Apesar do problema em sua rua, o mecânico Marcelino Chiodini considera o bairro um verdadeiro recanto graças às suas belezas naturais e pede para que as pessoas aproveitem mais a natureza que está ao dispor.

“Nosso bairro é lindo e há muitas opções para quem deseja, de fato, aproveitar a natureza. O problema é que hoje em dia todo mundo só fica no celular e ninguém quer conhecer o próprio quintal. Temos trilhas lindas nesse morro”, destaca.

Foto Eduardo Montecino/OCP News

No entanto, a Juremados Spezia Santos ressalta a quase inexistência de áreas de lazer dificulta aproveitar essas belezas do bairro.

A aposentada conta que a única opção dos moradores é o espaço localizado ao lado da associação de moradores, que conta com campo, academia ao ar livre e espaço para recreação.

Foto Eduardo Montecino/OCP News

Mas em comum, os moradores concordam que tranquilidade e as belezas naturais do Rio Molha fazem do bairro um recanto praticamente ao lado do Centro da cidade.

“Somos privilegiados aqui, temos esse sossego, esse visual e estamos a poucos minutos do centro. Somos privilegiados”, finaliza o aposentado Armando Spezia.

Foto Eduardo Montecino/OCP News

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