Foto Eduardo Montecino/OCP News

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Em 2010, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população do bairro Jaraguá 84 chegava perto dos 2 mil habitantes, mas por lá circula um número muito maior de pessoas.

Um dos pontos de referência, o Presídio Regional de Jaraguá do Sul faz com que muitas outras pessoas transitem pelo bairro em direção ao topo da rua Alvino Flor na Silva.

E a presença imponente da instituição penitenciária não incomoda alguns dos moradores como acontece em muitos municípios em que cogitam a instalação de uma unidade prisional.

Presídio Regional fica instalado no bairro e não parece incomodar os moradores das redondezas. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Geralmente, quando se lança a ideia de um projeto neste sentido, imediatamente a população rechaça a ideia e cria, inclusive, campanhas contra a construção.

Por aqui, a população do bairro que recebeu a unidade prisional não vê qualquer influência do presídio na segurança da comunidade e há, inclusive, quem considera que a presença de uma instituição prisional inibe a ação criminosa.

Para o aposentado Artomiro José de Souza, por exemplo, o presídio não tem qualquer influencia sobre os crimes cometidos  na comunidade. Motivo de preocupação para muita gente, as possíveis fugas não tiram o sono do aposentado de 80 anos que já vive no bairro há cerca de 20.

“Quem escapa da cadeia não vai se esconder por aqui pertinho, vai pra longe. Eu acho que é até mais seguro justamente por ter o presídio por aqui e ter essa movimentação de viaturas”, avalia.

A opinião é compartilhada por Adilson Zimingoski, de 35 anos e que mora no bairro há oito anos. O orientador de estacionamento, que mora próximo à unidade prisional, não vê qualquer alteração significativa na rotina da comunidade promovida pela presença do presídio.

Adilson é um dos moradores que não se incomoda com a presença da unidade prisional no bairro. | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Ele admite ainda que muitos moradores, inclusive vizinhos ao prédio, encaram como fator determinante para a segurança do bairro.

“Na minha visão não influencia em nada a dinâmica do bairro ou a segurança por aqui, mas tem muita gente que vê o presídio como um fator a mais de segurança”, diz.

Nome tem relação com demarcação de terras

A mesma dúvida levantada em relação ao nome do bairro Jaraguá 99 surge quando falamos do Jaraguá 84. Quem sai do Centro em direção a ambos os bairros nota de cara o “erro” e se pergunta: por que o Jaraguá 99 vem antes do 84?

A historiadora Silvia Kitta explica que a confusão é bastante comum porque as pessoas costumam olhar a cidade do Centro para o bairro, mas à época da colonização as coisas aconteciam de maneira diferente e o que hoje é o Centro de Jaraguá do Sul sequer sonhava em ser o destaque do município.

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Ela conta que quando o município foi colonizado a demarcação de lotes partiu do município de Rio dos Cedros, na nascente do rio Jaraguá.

“A demarcação aconteceu descendo a margem direita [sentido Rio dos Cedros-Jaraguá do Sul] do rio, por isso que o 99 fica mais perto da Malwee, porque a medição partiu de lá e não daqui”, explica.

Áreas de lazer: falta de manutenção e diversidade

Morando há cerca de duas décadas no bairro, o aposentado Artomiro José de Souza teve o sossego alterado há mais ou menos seis anos, quando ao lado de casa viu se erguer uma quadra de areia para futebol e um parquinho.

Aos 80 anos, ele já cansou de ver as telhas de casa quebradas graças às bolas que caem incessantemente sobre seu telhado e, se engana quem pensa que ele não gosta de lazer e de esportes, ao contrário, ele até costuma pegar uma cadeira, colocar na varanda e ver a criançada correndo atrás da bola.

Mas o que o incomoda é a falta de planejamento e o descaso com o qual o poder público trata o local.

Artomiro se incomoda com a falta de planejamento no bairro.| Foto Eduardo Montecino/OCP News

Segundo ele, a única reivindicação é pela “cobertura” da quadra. E para ele, uma cobertura simples, com tela, já resolvia o problema. “Às vezes eu estou ali, bem quieto e a bola cai no telhado, eu já tive um infarto, não sei como não morri com esses sustos ainda”, conta.

O prejuízo também é grande, admite o aposentado. Mas nem isso tira o gosto de Artomiro pelas brincadeiras da criançada. “Quando é só piá pequeno eu gosto muito de assistir”, completa.

Tirando esse contratempo que, segundo ele, já foi alvo de promessa, ele não troca o bairro por qualquer outro da cidade. “Eu não troco aqui não. Dá pra deixar até as portas abertas que ninguém mexe”, ressalta.

O aposentado conta ainda que o bairro mudou bastante desde o momento que ele chegou da Serra catarinense. “Mudou muito, quando eu cheguei, tinha umas quatro, cinco casas no máximo”, diz.

Para o presidente da associação de moradores do bairro, Algeu Monteiro da Silva, de 50 anos e que está há três à frente da organização, falta atenção do poder público para as áreas de lazer do Jaraguá 84.

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Ele alega que as promessas foram muitas, mas a execução não aconteceu e, embora exista espaços como este ao lado da casa de Artomiro, falta manutenção, afirma o presidente.

“Eles prometeram, por exemplo, trazer areia para as quadras, colocar a tela, mas não fizeram nada, nem areia trouxeram”, conta.

E para o orientador de estacionamento Adilson Zimingoski não há opções de lazer para os mais adultos do bairro. Sem a opção de ter o ginásio de esportes aberto à comunidade aos fins de semana, ele pede para que o poder público volte os olhos para a comunidade, pense e projete espaços capazes de atender a essa demanda.

“Aqui acho que pega bastante a questão de esportes, tinha que ter um ginásio aberto para a população, ter alguma coisa para o pessoal sair de casa”, argumenta.

Segundo a Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer, o município está fazendo um esforço para manter em dia a limpeza e os equipamentos instalados nas áreas de lazer. "Em 2018, estão sendo aplicados maiores volumes de recursos para estes fins. No entanto, a demanda ainda é elevada", afirma por meio de nota.

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Atualmente, o bairro só tem uma área de lazer, já que uma academia ao ar livre sofria depredação o que impediu a sua manutenção, alega a secretaria.

Unidade básica fechada à população

“Até foi feito, temos nosso posto ali, construído, mas continuamos indo no Jaraguá 99 porque nosso posto não foi aberto”. É assim que o presidente da associação de moradores do bairro, Algeu Monteiro da Silva, resume a situação da saúde no Jaraguá 84.

O bairro recebeu a construção de uma unidade básica de saúde, porém, ela segue de portas fechadas.

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De acordo com Silva, a cada questionamento feito pela associação de moradores à Prefeitura, a alegação é de que ainda não foi possível abrir processo licitatório para a contratação de novos profissionais que possam integrar a equipe de saúde da nova unidade.

Com isso, os moradores seguem sendo atendidos no bairro vizinho, enquanto a estrutura permanece fechada.

“Não é longe, mas nós temos um posto aqui né? A gente espera que seja aberto logo porque já faz três anos que está pronto e nada”, ressalta.

Segundo a Prefeitura, a unidade de saúde deve entrar em atividade no próximo mês. A Secretaria Municipal de Saúde afirma que está providenciando equipe de atendimento médico e de enfermagem para a unidade.

Construções sem saneamento básico

As construções que formam o Jaraguá 84 são bastante características, em sua maioria. Feitas de blocos de concreto, as casas comuns de conjuntos habitacionais se espalham pelas ruas e foi assim que, ao longo dos anos, o bairro tomou forma.

Segundo o diretor de Habitação, Luís Fernando Almeida, atualmente não há nenhum projeto de expansão imobiliária com novos conjuntos habitacionais sendo construídos no bairro, mas garante que o trabalho de regularização segue a todo vapor.

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De acordo com Almeida, atualmente mais de 70 imóveis passam pelo processo de registro de imóveis.

“Estamos buscando a transferência dos imóveis para as famílias porque muitos deles estão baseados apenas em contratos. Então, o que estamos fazendo neste momento é a análise individualizada para regularizar a situação titular, o registro de imóveis”, conta.

Embora não exista um projeto de ampliação, segundo o diretor o que está em discussão é a revitalização da área, mas ele ressalta que este é um processo que ainda precisa ser discutido.

Sem contar com rede coletora de esgoto, a comunidade reclama do mau cheiro característico especialmente em dias muito quentes. Segundo Adilson Zimingoski, além de não ter o serviço, há terrenos com valas a céu aberto que potencializam o mau cheiro.

De acordo com o Samae de Jaraguá do Sul, a região realmente não possui rede coletora de esgoto, mas ressalta que as casas devem possuir fossa e filtro. Segundo o Samae, já existe um projeto desenvolvido para a implantação da rede coletora do esgoto sanitário no Jaraguá 99 e no Jaraguá 84.

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Atualmente, o projeto tramita no Ministério das Cidades e no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) com o objetivo de buscar recursos financeiros par a execução da obra.

A previsão é de que sejam necessários R$ 8,8 milhões. “O projeto executivo prevê a execução imediata de 1.474 ligações de esgoto em 50 ruas e atenderá mais de 6 mil jaraguaenses.

A rede terá extensão total para os dois bairros de 25 quilômetros e será ligada na Estação de Tratamento de Esgoto do bairro São Luis”, esclarece por meio de nota.

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