Existem muitas mães, mas para muitas pessoas elas precisam ser de um único jeito. As exigências ao redor dessa figura presente na vida de todos são muitas, mas para essas mães jaraguaenses, o segundo domingo de maio é dia de reflexão.

Nesse Dia das Mães, Carla Corrêa Pongelli Azevedo e Giovana Bongiovani contam, através de suas experiências, que a maternidade tem muitas cores além do cor-de-rosa. Não se julgar e abrir o coração para o amor é o primeiro passo.

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“Eu amo ser mãe, mas eu detesto maternar”

Pertinho de completar quatro anos de vida, Raul Antônio Marchezzi já não acorda a noite com tanta frequência, já passa o dia na creche e, inclusive, é o responsável por alimentar e dar amor a sua tartaruga e periquito, mas nem sempre foi assim.

O pequeno de longos cabelos loiros já teve crise de cólica, já passou pela fase de se jogar no chão no supermercado e de dar tapas até na própria mãe.

As responsabilidades com Raul, aliadas ao trabalho como doula sobrecarregam Giovana Bongiovani, mas ela garante que se pudesse escolher, passaria novamente por toda a experiência de gravidez e da primeira infância. Mas, com a mesma certeza que passaria pela gravidez, ela afirma que maternar está longe da tranquilidade que muitos pintam.

“Eu falo pra todo mundo que eu amo ser mãe, mas eu detesto maternar. É um sentimento bem ambíguo, porque se fosse pra gente ser só mãe, seria maravilhoso, mas a maternagem tem um caminhão de imposição em cima da gente que te exaure muito. É um sentimento que te suga porque a pressão social é gigantesca”, relata.

E essa pressão social está, justamente, na figura da mãe. Para ela, o Dia das Mães precisa provocar reflexões e o trabalho de doula permite que essas provocações sejam repassadas para “suas mães”. “É preciso começar a pensar em quais lutas como mães a gente pode tentar encabeçar”, diz.

Fotos: Eduardo Montecino/OCP News

Para ela, o medo de mostrar a maternidade real, falando das experiências pouco perfeitas de dentro de casa e da maternagem acaba por inibir outras mães e tornar essa experiência um pouco mais complicada.

“Se a gente sair pintando lá fora o que não acontece aqui dentro, acabamos culpabilizando cada vez mais mães e tornando isso cada vez mais difícil. Eu sou uma mãe muito pior do que eu gostaria de ser porque eu também pintei a minha maternagem cor de rosa”, afirma.

A pressão e imposição sociais são, para Giovana, ações que refletem diretamente em como essa mãe se vê. Antes de ser mãe, ela era uma mulher que tinha uma liberdade, uma profissão e uma vida completamente distinta. A partir do momento da maternagem, essas imposições passam a ser ainda mais incisivas afetando a própria experiência materna.

Para ela, as mulheres precisam se permitir errar sem carregar a culpa por fugir dessa perfeição que não existe. “Se eu pudesse dar um conselho é que elas eliminassem a culpa, que elas se permitissem um pouco mais, que elas evitassem pensar: fulano de tal vai falar tal coisa. Enquanto nós mães, não esticarmos a mão para outra mãe vai ficar cada vez mais difícil”, ressalta.

Fotos: Eduardo Montecino/OCP News

O cansaço existe. A vontade de sumir também e, para Giovana, esse é um processo natural e que acontece com todas as mães, mas esse sentimento é velado.

“As mulheres não falam pela culpa e é aquela coisa: o que vão dizer para mim, mulher mãe, se eu disser que não quero mais, que eu estou exaurida de ser mãe? Mas não é que eu não quero ter a criança, eu quero ele comigo, ele é o maior amor da minha vida, mas eu estou exausta e eu posso falar que estou exausta sem que alguém venha e jogue uma pedra em cima de mim”, avalia.

Giovana conta que a frase que ouviu de um obstetra em algum momento da vida é um mantra que ela leva, inclusive, para as “suas mães”. “Ele disse que ser mãe é querer jogar o filho três vezes por dia pela janela”, diz. “E isso é super normal, anormal é jogar”, completa.

O amor nasce com o filho, mas é construído diariamente

A frase “nasce um filho, nasce uma mãe” é repetida insistentemente especialmente quando uma amiga, filha, prima ou irmã se vê grávida. Para Giovana, a expressão está mais do que correta porque, a partir do momento do nascimento, a mulher nunca mais será a mesma, mas ela alerta também para a perda de autonomia.

Para a mãe, esse é um processo que não pode acontecer. “Tu nunca mais vai ser aquela mulher que era antes do parto, nunca mais, mas nunca podemos perder a autonomia do que éramos antes. Eu acho que se a gente se desconstruir dessa maternidade que se pinta, a gente pode ser aquela mulher de antes e a mulher mãe”, ressalta.

Essa ruptura é, para Giovana, importante inclusive para “aguentar o baque” da maternidade. Ela diz que esse “deixar de ser quem era” para se descobrir mãe, torna o processo mais leve.

Outro tabu que, para a doula, é praticamente intocável na sociedade é o mito que se tem do amor materno. O amor, ela conta, existe, mas ele ainda não é tão intenso.

“Vocês são dois estranhos, então é algo construído. Hoje eu digo: uau, é o maior amor da minha vida realmente, mas é uma caminhada. Tu caminha junto com ele. Eles sim nascem com um amor incondicional por ti porque eles te conhecem por dentro e por fora, mas pra ti ele ainda é um estranho, embora o amor já existe, tu vai construindo isso junto com ele, aos poucos”, finaliza.