"Não se apegue a bens materiais", diz a sabedoria popular, sem se atentar a quantos significados podem ter um objeto. Aqueles que representam carinho, emanam memórias afetuosas, trazem em si muito mais do que sua funcionalidade original.

Imagine então ter em mãos um equipamento que simboliza uma relação fraternal que extrapola a própria vida e, de quebra, seria um tipo de “santo graal” para milhares de roqueiros pelo mundo.

Uma rápida busca na internet basta para descobrir a origem do código postal inscrito no case: Steven Kasher Gallery, em Nova York.

Alguns milhares de quilômetros de distância de Joinville, o que faz pensar no quanto esse objeto viajou para chegar até sua atual morada, no distrito de Pirabeiraba.

O externo da caixa já registra seu dono original,” um tal” Lou Reed, mas não seu conteúdo: um amplificador Mesa Boogie Mark 3, de 1989, que pertenceu a um dos músicos americanos mais influentes do século 20.

A jornada desse equipamento começa muitos anos atrás, quando o músico nova-iorquino Arto Lindsay – de forte ligação com a música brasileira – retribuiu um trabalho realizado pelo artista plástico baiano Caetano** com o amplificador que ganhara de Reed.

Caetano, guitarrista amador e devoto do ex-Velvet Underground – a ponto de dar ao filho o nome Lou -, guardou o presente como um verdadeiro tesouro.

Guardou, mas não o escondeu dos amigos, como Jean**, que saíra de Joinville com a esposa para voltar a morar em Salvador. Em algum momento entre 2010 e 2012, Caetano contou a ele a saga do amplificador, que mandara trazer dos EUA e era seu terceiro dono. Isso, porém, só duraria até 2017.

No começo do ano passado, Caetano descobriu um câncer. Desenganado pelos médicos, teve tempo de deixar um testamento relacionado as suas coisas.

Ele faleceu em outubro. Em dezembro, Jean foi a Salvador e, ao visitar a viúva, soube que o amigo lhe deixara uma incumbência por escrito: ser o guardião do amplificador que fora de Reed até seu filho porventura reclamá-lo.

“Se um dia o Lou for guitarrista, eu tenho que dar o amplificador pra ele. O Lou é o verdadeiro dono, eu só o estou guardando”, diz Jean, que vez ou outro pluga a guitarra na relíquia. “Sempre que eu o ligo, penso no Caetano e no Lou”.

** Os nomes originais foram preservados a pedido dos envolvidos.

Quem foi Lou Reed?

Ao formar o Velvet Underground em 1964 ao lado de John Cale, Sterling Morrison e Moe Tucker, Lou Reed entrou para a história do rock e nela permaneceu como referência.

A experimentação sonora e o gosto por temas insalubres – que faziam coro com os delírios do famoso artista visual Andy Warhol, seu financiador – levaram o grupo a abrir caminho para o punk, o pós-punk, o rock alternativo dos anos 90 e toda uma gama de artistas com estética minimalista e desafiadora.

O disco de estreia, “Velvet Underground and Nico” (1967), é considerado um dos mais importantes álbuns do rock. Ouça um pouquinho do Reed:

 

Reed continuou relevante mesmo após o fim da banda. Discos solo como “Transformer” (1972) e “Berlin” (1973) são belos exemplos de seu trabalho ao mesmo tempo cru e sofisticado.

Alternando momentos mais e menos inspirados, Lou chegou ao fim dos anos 80 com um culto em torno de si, tanta pela qualidade do que lançava quanto por conta da descoberta do Velvet Underground por uma nova geração.

Ele morreu em 27 de outubro de 2013, em decorrência de problemas causados pela hepatite e pelo diabetes.