O sol estava no ponto mais alto do céu, bem acima de nós, quando, silenciosamente, um grupo de dezenas de pessoas chegou à aldeia Tiaraju, às margens da BR-280, entre Araquari e Guaramirim. Eram guaranis das aldeias vizinhas: Morro Alto (São Francisco do Sul), Jabuticabeiras (Araquari) e Tarumã Mirim (Araquari). Em fila, um por vez entrou na casa de reza, tomou assento e iniciou a concentração.
Cacique Ronaldo defronte a Casa de Reza da Aldeia, edificação de pau a pique coberta por sapê. Foto: Verônica Lemus Orellana
Cacique Ronaldo defronte a Casa de Reza da Aldeia, edificação de pau a pique coberta por sapê. Foto: Verônica Lemus Orellana
Era o começo do Ka’ai Nhemongarai - o batismo da erva-mate - um dos rituais mais importantes da aldeia Tiaraju, cerimônia de origem tão antiga que é difícil datar o surgimento. Nela, os guarani tomam conhecimento do estado de espírito e da saúde física dos seus parentes e de si mesmos. O cacique Ronaldo Costa iniciou a cerimônia com uma fala dedicada aos jovens, sobre as histórias da ancestralidade e como o ritual iria funcionar.
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Tentávamos compreender aquele momento a partir da observação, somente, porque tudo era dito em guarani. Vez ou outra, de bom grado, alguém nos explicava em língua portuguesa. A concentração para o ritual foi se construindo por meio da música, enquanto pessoas cantavam baixinho e tocavam violão, violino, tambor e chocalho. Os visitantes das três aldeias, agora somados aos moradores de Tiaraju, formavam um grupo de cerca de cem pessoas.
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Interior da casa de reza, onde acontecem o ritual de batismo e as sessões de canto e dança. No altar estão penduradas as ervas, que em seguida são recolhidas e maceradas para tomar como chimarrão. Foto: Bárbara Elice
A preparação da cerimônia também é toda feita pelos moradores da aldeia Tiaraju, que conseguiram a erva-mate colhida na região do Monte Crista. Segundo o cacique, a localização da árvore na mata é dita pelo pajé, orientado pelo deus guarani, Nhanderu. “Quando você vê a erva-mate parece que não tem nada, é só folha. Mas a amarração tem muita palavra e muito conhecimento. Por isso ela é tão importante e funciona como remédio”, afirma Ronaldo.
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No primeiro dia do ritual, os homens amarram os ramos de erva-mate e levam para a casa de reza, onde será abençoada. Cada ramo representa uma pessoa, da qual o pajé dirá como está o espírito. Foto: Bárbara Elice
Na primeira parte do ritual, ainda durante o dia, os ramos de erva-mate são amarrados em punhados, sendo que cada um representa uma pessoa. Os meninos e os homens entram com seus punhados de erva-mate na casa de reza para amarrar numa espécie de altar, sob a bênção do pajé. Ele é a única pessoa capaz de se conectar diretamente com Nhanderu, e que irá dizer como cada pessoa representada na amarração está espiritualmente ou de saúde. No primeiro dia é a vez dos homens pedirem por si e pelos seus pais, irmãos, tios e filhos.
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Durante o ritual, o pajé fuma o tradicional cachimbo Guarani, feito à mão, de madeira maciça, e sopra a fumaça sobre aqueles que estão na roda do ritual. É uma forma de limpeza e proteção espiritual, para eliminar os males. Foto: Bárbara Elice
Com o cair da noite, o momento mais intenso do ritual inicia. Duas grandes rodas se formam dentro da casa de reza: uma direcionada aos ramos de erva-mate e outra em volta da fogueira, onde ficam os que assistem. O cacique e as lideranças mais velhas, chamadas Xeramõi, munidos do tradicional cachimbo guarani, jogam a fumaça sobre as amarrações e sobre a cabeça das pessoas, como uma forma de eliminar os males invisíveis que os cercam. O ritual segue durante toda a madrugada, inteiramente dito em língua guarani, com histórias sobre os antepassados e ensinamentos de vida aos mais jovens, além de música e dança.
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A cerimônia inicia no cair da noite e segue durante toda a madrugada com a fala dos mais velhos, com ensinamentos sobre a cultura Guarani, e sessões de canto e dança. Na fotografia, o coral das meninas. Foto: Bárbara Elice
“A casa de reza é o nosso espaço, é onde a gente aprende, é a escola da gente”, explica o cacique. Ele afirma que em seu discurso, orienta os jovens a serem fortes para enfrentar os desafios durante a vida.
No segundo dia de ritual é a vez das mulheres, que entram na casa de reza com a erva-mate triturada dentro de porongo -espécie de cumbuquinha feita de um fruto - e perguntam ao pajé pelas suas parentes mulheres.
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No segundo dia do Ka'ai Nhemongarai, é a vez das mulheres levarem a erva-mate dentro do porongo (ou cabaça) ao pajé, no altar da casa de reza. Foto: Bárbara Elice
A erva-mate é considerada sagrada na mitologia guarani, pois é tida como um presente de Nhanderu. Após o batismo, ela é tomada como chimarrão, especialmente quando a pessoa se sente triste, nervosa ou com alguma doença.
Segundo o cacique Ronaldo, o batismo é um ritual importante, praticado pelos seus antepassados, talvez há milênios. Não é possível estimar uma data específica, pois os registros indígenas se dão pela história oral e não pela documentação escrita. A responsabilidade de realizar o ritual foi deixada ao cacique por sua avó. Ronaldo definiu os dias 14 e 15 de setembro para a realização, na intenção de que os não-indígenas pudessem reconhecer no calendário para ir acompanhar, pois os guarani se orientam principalmente pelo ano, lua e o “tempo novo”.
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O cacique tem feito movimentos políticos em direção aos não-indígenas, com a intenção de estabelecer um convívio pacífico entre as duas culturas. Na noite do ritual de batismo, o cacique chamou cada não-indígena para o centro da roda, onde pudemos nos apresentar e ser recebidos, o que também nos conferiu importância dentro daquele momento. Ele constantemente faz convites para que a população interessada visite a aldeia e conheça a cultura indígena, na intenção de eliminar preconceitos e, principalmente, mostrar que ali também vive um povo, com sua própria cultura e maneira de viver. O próximo ritual será o batizado de água sagrada, que acontecerá dia 28 de janeiro.
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Placa na entrada da aldeira Tiaraju, que é aberta para visitação. Foto: Verônica Lemus Orellana

É na diferença que a gente se reconhece

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A jornalista Bárbara Elice, e no cantinho, Verônica Lemus
Se você for com a cabeça aberta e disposta a conhecer uma cultura diferente, essa experiência é fascinante, porque o outro diz também sobre nós. É na diferença que a gente se reconhece. Quando cheguei na aldeia, observei os indígenas, mas eles também me observaram. Eu era aquela pessoa da cidade, onde se vive de uma forma bem diferente da deles. E eles têm uma opinião crítica sobre nós, pois de fato é questionável como a gente da cidade trata a floresta.
Mesmo que eu não compreendesse o que era dito durante o batismo, estar diante de um ritual indígena é como descobrir um universo novo. Para escrever este texto eu tive de compreender os significados do que eu estava vendo, por isso fiquei na cola do cacique perguntando sobre tudo, fazendo o papel de uma criança que aprende a viver de acordo com uma cultura.
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Fotos: Bárbara Elice
Os guarani têm uma história chamada “terra sem mal”, que desenha a busca por uma sociedade boa para todos. E isso se sente na forma como as pessoas se relacionam na aldeia: as coisas são para serem compartilhadas. Quando entrei na casa de reza, durante a concentração, as pessoas me viram e gentilmente cederam lugares (no plural, mesmo) para eu sentar; tive de escolher um deles. Me ofereceram almoço e me sentei com eles na roda de chimarrão.
Admiro o modo como o Ronaldo está empenhado em estabelecer um canal de diálogo entre o povo da floresta e o da cidade. É importante que a gente consiga superar o passado colonizador e respeitar a diversidade humana que existe hoje.
Por Bárbara Elice
Colaborou Verônica Lemus