Uma professora, uma psicóloga, uma programadora de projetos e um representante comercial. Esses quatro moradores de Jaraguá do Sul, com profissões tão distantes, têm um ponto em comum: todos ingressaram no mercado de trabalho pelo comércio.

Historicamente, o setor é um dos que mais abrem novas vagas de emprego por ano e, como não exige curso superior ou técnico para o atendimento ao público, acaba sendo a primeira experiência profissional de muitas pessoas.

Enquanto alguns seguem carreira no comércio, outros aproveitam a bagagem adquirida para se especializar e conquistar o trabalho dos sonhos.

Ainda no ensino médio e sem experiência no mercado, Andreia da Silva, 22 anos, conseguiu um emprego em uma loja de roupas no então Shopping Breithaupt, em dezembro de 2012.

Após quatro meses, Andreia foi contratada na Loja Jomar, tradicional na cidade. Ao mesmo tempo, ela conciliava a rotina atribulada de uma estudante do terceiro ano do ensino médio.

Foto Eduardo Montecino/OCP News

“Não continuei no comércio porque depois entrei para a faculdade e era em Blumenau. Tinha que sair muito cedo daqui”, conta.

Hoje professora de inglês na rede estadual de ensino, Andreia acredita que a experiência como vendedora ajudar ela a lidar melhor com as pessoas.

“Agora eu também preciso fazer isso. No comércio, tinha que enfrentar situações surpresas, o que se repete na minha profissão atual”, aponta.

Cristhiane Araújo, 37 anos, também estava no ensino médio quando teve a oportunidade de ser estagiária no shopping, ainda no ano 2000.

Fazer pesquisas de satisfação com os clientes era uma das suas funções. “O serviço era muito legal porque conhecíamos pessoas diferentes, fazíamos amizades. Foi o meu primeiro emprego”, comenta.

A estudante chegou a renovar o contrato do estágio após um ano e três meses, mas acabou sendo chamada para trabalhar na WEG, onde permanece até hoje como programadora de projetos de engenharia.

“Trabalho em equipe, comunicação, proatividade, ser ética e ter traquejo com as pessoas e todas as suas diferenças são algumas das coisas que levei do comércio para minha atual ocupação”, aponta.

A diversidade também foi destacada pela psicóloga Adriele Augustini, 31 anos, como uma das questões que se aprende a trabalhar no comércio. Ela atuava como atendente em um supermercado quando tinha 18 anos.

“As pessoas têm gostos e perfis variados e temos que ser simpáticos para atender a necessidade de todos”, diz Adriele.

A psicóloga classifica que, como funcionária do comércio, reconheceu a importância da pontualidade, da agilidade e das relações profissionais.

 

 

Adriele deixou o emprego na época da faculdade, mas levou consigo algo que definiria sua carreira: a paixão por estudar o comportamento humano.

Há também casos em que o primeiro emprego no comércio abriu portas para uma carreira de sucesso na área de vendas, como o do representante Samuel Lopes, 21 anos.

Em 2016, ele foi contratado para trabalhar como repositor de mercadorias, limpeza e atendimento ao cliente em um supermercado. Com seis meses de experiência, ele foi promovido a auxiliar administrativo do local.

Não demorou muito para Lopes ser convidado a trabalhar como representante de uma multinacional do ramo de alimentos. Segundo ele, a prática anterior na área torna mais fácil compreender as necessidades dos novos clientes.

“Inverti os papeis, faço vendas para o comércio agora, e como entendo esse ambiente, consigo negociar melhor. O que aprendi antes foi fundamental”, avalia.

O lado do lojista

Lojista há mais de 30 anos, Maria Teresinha Giacomozzi mantém um estabelecimento no ramo da fotografia, com estúdio, revelação de imagens e venda de produtos relacionados.

Para ela, é função dos comerciantes abrir as portas para as pessoas mais jovens. “Eles têm a cabeça ligada nas tecnologias, sabem o que está acontecendo e precisam dessa primeira experiência”, enfatiza.

Maria acredita que incentivo por parte dos lojistas contribua para o desenvolvimento dos jovens | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Maria ainda avalia que antigamente, os funcionários começavam o emprego e almejavam crescer dentro da empresa, enquanto agora, “as pessoas não se importam em ter uma rotatividade maior na carreira profissional”.

Durante as três décadas de loja, Maria recorda que a maioria dos ex-funcionários montaram o próprio negócio ou seguiram como fotógrafos.

Setor movimenta economia da cidade

O comércio é responsável por empregar mais de nove mil pessoas em Jaraguá do Sul. No ano passado, o setor foi o segundo que mais abriu novas vagas de emprego, com o saldo de 163 postos de trabalho conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Nos últimos anos, de acordo com o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Gabriel Seifert, o comércio teve resultado negativo na geração de empregos apenas em 2015, quando 436 vagas foram fechadas.

Foto OCP Infografia/Márcio Schalinski

A queda foi impulsionada pela crise econômica que se instalou em todo o país. “Desde aquele ano, o setor está numa crescente”, pontua.

O presidente reforça que muitas pessoas procuram uma oportunidade nesta área. Ele comenta sobre um dado divulgado durante a National Retail Federation (NRF) deste ano, considerada a maior feira de varejo do mundo.

“Um em cada três americanos teve como primeiro emprego uma vaga no comércio e um em cada quatro continuam atuando nesta área. No Brasil, apesar de não termos esse dado, não deve ser diferente”, garante.

As dificuldades e lições do ramo

Assim como em outras áreas, o comércio precisa estar atento às novas demandas do consumidor e tecnologias que podem ser utilizadas para melhorar a qualidade do atendimento e produto oferecido.

“Hoje, o maior desafio dos lojistas é estar preparado para as mudanças tecnológicas que impõem ao profissional do comércio. Mas, o consumidor também está muito mais ligado do que antigamente, por ter mais acesso à informação. Por isso, devemos estar sempre a um passo a frente”, considera Seifert.

Foto Eduardo Montecino/OCP News

Seifert destaca que com a experiência adquirida no setor, a pessoa consegue desenvolver várias habilidades necessárias para outros negócios. O maior exemplo, segundo ele, é o relacionamento com o público e a resiliência.

“Porém, cabe destacar que, hoje, o varejo em si tem assumido o protagonismo, como, por exemplo, o caso da Amazon, atual empresa mais valiosa do mundo. Acredito que as pessoas podem crescer profissionalmente dentro do comércio e seguir nesta área durante toda vida”, completa.

A área é dinâmica e permite atuar em diferentes cargos, observa Seifert. “Há vagas no setor administrativo, marketing, vendas, da mesma maneira que acontece em outras empresas”, garante.

 

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