Os produtores do Norte catarinense devem evitar grande parte do prognóstico negativo previsto no Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), divulgado esta semana pelo IBGE. O órgão prevê uma safra nacional de grãos 9,2% menor em 2018. No caso específico do arroz, a queda na produção nacional é estimada em 8% - o que representa quase um milhão de toneladas do grão a menos. Segundo o levantamento do IBGE, a produção catarinense de arroz deve ser 4,9% menor do que a 2016, uma diferença de cerca de 60 mil toneladas. Na microrregião do Vale do Itapocu, a previsão de queda, segundo levantamento da Epagri, é de 1,8%. Do outro lado da divisa, no Rio Grande do Sul – o maior produtor nacional do grão – a diferença prevista entre as safras de 2017 e 2018 é de 6,3%. Essa diferença na previsão se dá em função da disponibilidade de auxílio na obtenção de insumos agrícolas, explica Orlando Giovanella, presidente da Cooperativa Juriti, com cerca de 750 associados em 22 municípios. “A grande baixa apontada pelo IBGE é pela falta de recursos, o que não é um problema para os produtores da região”, afirma, notando que a cooperativa oferece o financiamento dos insumos e do combustível. Na contramão da tendência, que prevê aumento de 2,3% na área plantada para rizicultura, o Estado deve ter uma queda de 1,1% na mesma área. Giovanella nota que há uma lenta redução na área produtiva para a rizicultura na região – resultado da expansão da área urbana. “Não há mais como ampliar a área plantada e a gente já vê em Guaramirim, por exemplo, como a cidade tem diminuído a área disponível”, observa. Realmente, em Guaramirim, as margens da BR-280, que há 15 ou 20 anos eram tomadas pelo verde vivo das arrozeiras, agora deram lugares a loteamentos industriais e plantios de outras culturas. Ano positivo As estatísticas, tanto a nacional quanto a regional, em 2017 se demonstraram positivas, recuperando as perdas na produção com os problemas climáticos em 2016 – uma das maiores em 20 anos, que chegaram a causar perdas de até 50% na safra – e retomando os níveis de produção de 2015. Segundo o IBGE, a safra de 2017 foi 30% maior do que a de 2016. “Não tivemos uma superssafra, mas foi um ano positivo, com uma produção de 5 a 7% maior do que a média que tínhamos antes da queda do ano passado”, afirma Giovanella. Além de comparativamente farta, ele ressalta que foi de qualidade. Foram 1,6 milhão de sacas de arroz em 2017, contra 1,3 milhão em 2016 e 1,5 milhão em 2015. Com uma colheita de cerca de quatro mil sacas em 2017, o rizicultor massarandubense Acyr Tasse vê com bons olhos o ano que se passou e tem otimismo em relação ao próximo. “O arroz está bom, está bonito. Se o tempo colaborar como está colaborando vai dar uma boa safra”, afirma, relembrando os problemas no ano passado. “Foi um ano muito ruim”, afirma. LEIA TAMBÉM: Falta de chuvas e preço do produto preocupam produtores de arroz na microrregião Apesar da safra positiva, o PIB (Produto Interno Bruto) do agronegócio teve queda de 2% em 2017, segundo a Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A recessão se deve primariamente às repercussões das operações Carne Fraca e Carne Fria, levando a “crises artificiais”. A entidade prevê recuperação em 2018. Preço em queda demanda diversificação Para Giovanella, o maior empecilho para o rizicultor da região não é a produção,mas os preços em queda desde dezembro passado, quando atingiu o pico de R$ 47 por saca de 50 quilos. Agora, com a saca a R$ 37,50, a cooperativa trabalha com a possibilidade do preço chegar aos R$ 35 – o mesmo preço médio de 15 anos atrás. Para Tasse, essa é a maior preocupação para o futuro. De acordo com o agricultor, muitos produtores têm dívidas a pagar, e os preços em queda fazem com que seja difícil atender os compromissos. Parte dessa queda nos preços é resultado de arroz importado de outros países do Mercosul, em particular do Paraguai, com impostos menores e despesas mais baixas. “Isso prejudica a competitividade do produtor local”, explica o presidente.  Outro fator é a existência de reservas do produto, que não está sujeito a tantas oscilações de preço quanto outras safras mais voláteis, como o tomate e a banana. O excesso de oferta é uma preocupação, assim como a disparidade nas despesas entre a produção local e estrangeira. “Está sobrando arroz no mercado e vindo muito de fora. Nossos insumos são mais caros e eles gastam muito menos”, indica Tasse, apontando uma concorrência ‘desleal’ por parte do produto importado. Para Giovanella, o governo federal deveria ou liberar os mesmos benefícios e insumos que os concorrentes do Mercosul têm acesso - os defensivos agrícolas usados no país, por exemplo, chegam a custar 80% a mais do que nos vizinhos  - ou restringir o acesso dos grãos importados, que contam com redução no ICMS e outros benefícios. Ele recomenda ao produtor que diversifique suas propriedades, como forma de reduzir os prejuízos e de ter uma forma de escape, caso o preço continue a cair. “Eu sei que é trabalhoso e que nem todos os produtores têm condições para isso, pois não tem muita área, mas é uma segurança”, ressalta. Uma opção seria a piscicultura – e a cooperativa financia as despesas com ração. Outra escolha, adotada por Tasse, é o cultivo de palmito e pupunha. “Hoje, se for para depender só do arroz, tem que se cuidar muito bem”, diz. *Reportagem de Pedro Henrique Leal