A chegada da ferrovia marcou um dos momentos mais importantes da história de Jaraguá do Sul. Muito antes de os trilhos alcançarem a então Colônia Jaraguá, a necessidade de uma ligação ferroviária já era apontada como fundamental para o desenvolvimento da região.
Em 1883, Emílio Carlos Jourdan mencionava a importância da obra em correspondências enviadas ao Conde D’Eu, defendendo uma conexão que aproximasse o Norte catarinense dos principais centros econômicos do país.
O projeto começou a ganhar forma em 1889, com a fundação da Companhia Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande. Em 1901, a empresa recebeu a concessão para construir o ramal ferroviário de São Francisco do Sul. As obras tiveram início em 1905, com materiais chegando pelo porto são-franciscano, e a implantação dos trilhos começou no ano seguinte. A ligação entre São Francisco do Sul e Rio Negro seria concluída em 1913, integrando a região à malha ferroviária nacional.
Em Jaraguá do Sul, a chegada do primeiro trem ocorreu em 23 de junho de 1907. Conforme relatou o pesquisador Emílio da Silva no artigo Jaraguá faz época, publicado pela Gazeta de Jaraguá em 1976, a locomotiva “Lauro Müller”, conduzida pelo maquinista Moraes, chegou ao então Distrito de Jaraguá para testar a resistência de uma ponte de madeira. O trem alcançou uma pequena estação telegráfica utilizada pelos trabalhadores da ferrovia, já que a estação definitiva ainda estava em construção.
A presença dos trilhos trouxe impactos imediatos para a economia local. A partir de 1907, a então Colônia Jaraguá passou a contar com uma estrutura capaz de facilitar o transporte de pessoas e mercadorias, reduzindo distâncias e ampliando as possibilidades de comércio. A primeira Estação Ferroviária de Jaraguá foi inaugurada em 1909, consolidando a cidade como um dos pontos estratégicos da nova linha.

Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul
Trilhos que impulsionaram o desenvolvimento
Naquele mesmo ano, já estavam concluídas as estações de São Francisco do Sul, Joinville, Jaraguá e Hansa, atual Corupá. Em 6 de junho de 1910 foi inaugurado o trecho entre São Francisco do Sul e Hansa. A extensão até Rio Negro entrou em operação em 1º de abril de 1913, permitindo a ligação completa entre o litoral e o interior.
Pouco tempo depois, a ferrovia já operava em ritmo intenso. Em 1914, o transporte regular de cargas e passageiros era realizado por 11 locomotivas e uma frota de 612 vagões. Desse total, 48 eram destinados ao transporte de passageiros, dois aos Correios, 50 ao transporte de animais, 214 eram vagões fechados para mercadorias, 50 vagões abertos e outros 248 de plataforma.
A obra completa entre Porto União e São Francisco do Sul foi oficialmente entregue em 17 de setembro de 1917. Com isso, a ferrovia consolidou-se como uma das principais rotas de transporte de Santa Catarina e um dos pilares do desenvolvimento econômico regional.
Durante décadas, os trilhos foram fundamentais para o crescimento de Jaraguá do Sul. Até os anos 1960, grande parte da produção agrícola, industrial e madeireira da região era escoada pela ferrovia. Em alguns períodos, a demanda era tão elevada que a capacidade de transporte não conseguia acompanhar o volume de mercadorias. Produtos perecíveis, como a banana, chegaram a permanecer armazenados por tempo suficiente para se deteriorarem antes do embarque.

Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul
A ferrovia também transformou a mobilidade da população. O trem de passageiros ligava Jaraguá do Sul a importantes centros urbanos, como Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro, oferecendo um nível de conforto considerado avançado para a época. Além de facilitar viagens, o intenso fluxo de passageiros movimentava a economia local. Muitos viajantes que passavam pela cidade acabavam pernoitando no município, contribuindo para o crescimento de hotéis tradicionais, entre eles o Central, Brasil, Wensersky e Becker.
Ao redor da estação ferroviária desenvolveu-se uma intensa vida social e comercial. O local tornou-se ponto de encontro da comunidade, concentrando embarques, desembarques, notícias, negócios e acontecimentos do cotidiano. Durante muitos anos, a estação esteve entre os espaços mais movimentados da cidade.
A nova estação e o legado ferroviário

Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul
Com o crescimento da movimentação ferroviária, a estrutura original passou a ser insuficiente para atender à demanda. Um anteprojeto elaborado em 1938 já apontava a necessidade de uma nova edificação. A solução veio em 1943, com a inauguração da nova Estação Ferroviária de Jaraguá do Sul e a ampliação da área destinada às cargas.
Projetado pelos engenheiros Achilles Colli e Pozzoli e construído pela empresa Irmãos Thá, de Curitiba, o novo prédio destacava-se pelas linhas arquitetônicas modernas, pelo acabamento e pela estrutura adequada ao movimento ferroviário da época. Quando entrou em funcionamento, tinha como agente ferroviário Innocêncio Silva e como telegrafista Ernesto Silva.
Outro marco importante ocorreu em fevereiro de 1944, quando a “Litorina” passou a operar diariamente entre Corupá e São Francisco do Sul. O serviço permaneceu ativo até o início de 1991, tornando-se parte da memória afetiva de gerações de moradores da região.
Além da estação central, a rede ferroviária local contava com a Estação de Retorcida. A primeira construção era de madeira, incluindo a plataforma. Em 1940, foi substituída por uma nova edificação, também em madeira, mas com plataforma revestida por lajotas trabalhadas. Posteriormente, o local passou a se chamar Estação de Nereu Ramos.

Foto: Reprodução/Arquivo OCP News