Artigo do prof. Paulo Moretti

Para ser democrático o voto tem que ser livre, tem que ser legal, tem que ser justo, tem que ser consciente. Será que, na prática, o é? Será que todos aceitam o que se entende por voto democrático? Será que os que o questionam, o fazem baseados em que? Será total a liberdade democrática de praticar o voto democrático? Será verdade? Será mentira? Não haverá casos em que a luta democrática parece travestir-se em confusão? Clamar, lutar, às vezes, não é investir contra ela própria?

Em meio a tantas perguntas, a tantos questionamentos, a tantas dúvidas, quem, efetivamente, se elege como construtor do futuro, quem como reformador do passado, quem como idealista de uma causa, quem como merecedor de um voto democrático? Por mais que associemos definições clássicas de democracia, por mais que busquemos realidades diárias de vida, sempre virá à tona o lado obscuro da dúvida: verdade ou mentira? Até que ponto “do povo, pelo povo, para o povo?” Até que ponto “secreto, universal, livre?” Até que ponto liberdade é pressuposto de direitos e deveres? Até que ponto vai a distinção entre liberdade, liberalismo e liberalidade? Até que ponto o voto traduz todas essas nuances, todas essas hipóteses, todas essas manobras?

Com as definições aprendemos, mas é a realidade que nos ensina. Sob o véu do voto nem sempre a democracia se define. Potências democráticas nem sempre evitam ingerências pouco democráticas. Capitalistas ou socialistas nem sempre fazem do voto democrático um instrumento de gestão de governo. Verdadeiros estadistas e pretensos líderes cavam, no império da lei, diferenças abissais de comportamento de governo. Verdade ou mentira?

Esta dualidade, face a uma outra, direitos e deveres, não nos tolhe a liberdade de pensar e de falar, de agir e de reagir em favor da verdadeira democracia e contra a falsidade de uma sociedade cujos representantes, pela política e pelo voto, nem sempre merecem ser depositários da nossa confiança de cidadãos. Quantas vezes os cidadãos, como náufragos, se apegam a uma tábua de salvação que, travestida por políticos, mais representa medo que otimismo, mais mesmice que liderança, mais mentira que verdade, mais veto que voto.

Diante desse quadro, vamos imaginar uma urna eletrônica que, em vez da tecla verde CONFIRMAR contivesse uma outra vermelha, com VERDADEIRO/MENTIROSO, quantos políticos e, consequentemente, quantos votos provocariam um curto-circuito na máquina, transformando o verde da esperança em vermelho da vergonha, fazendo fundir o motor da moralidade pública. “O tempora, o mores!”