Eu vi. Eu vi uma criança de botinhas azuis sentada num tapete, debaixo de uma lona branca, encantada ao virar as páginas de um livro colorido e descobrir figuras, letras e formas. E também vi outra criancinha correndo feliz, com um sorriso de orelha a orelha, segurando um livro na mão, para mostrar ao seu papai o livro que tinha ganhado da vovó. Além disso, eu vi pais e mães passeando com seus filhos, de mãos dadas, no meio de milhares de livros, casais, jovens e pessoas de mais idade. Todas descobrindo histórias, descobrindo mundos inteiros deitados entre as folhas de papel. Isso tudo parece sonho maluco de escritor, não é? Parece a idealização de um mundo perfeito que quem vive de contar histórias sonha todos os dias. Mas, não foi sonho, não. Foram apenas algumas das cenas que testemunhamos durante a Feira do Livro de Jaraguá do Sul. Durante o período de realização da feira, eu passo o dia todo no meio dos estandes de livros, ouvindo contadores de histórias e vendo ônibus com escolas inteiras indo e vindo. Um batalhão de crianças. Eufóricas, felizes. E, por todos os lados, essas crianças estão cercadas de histórias. Seja num livro, numa contação, numa exposição ou numa conversa, elas irão, inevitavelmente, se deparar com uma forma de leitura. Porque a leitura se apresenta de várias maneiras. Existem inúmeras formas de ler o mundo. Para nós, que estamos ali diariamente, é sempre uma alegria ver gente chegando, passeando, se encantando com as histórias. Porém, melhor ainda é ver as pessoas retornando, voltando duas, três vezes. Saber que o filho, ou a filha, insistiu para voltar, porque queria outro livro, porque queria ouvir mais uma história. Querer conhecer novas histórias é uma curiosidade, um interesse, que acompanha o ser humano (serumaninho) desde o início dos tempos. O fogo reunia as pessoas e as histórias as uniam. Ouvir uma história é sonhar o sonho do outro, compartilhar de uma mesma imaginação. É uma comunhão de pensamentos. Quando um pai ou uma mãe conta uma história para seu filho, ela deixa de ser o texto de tal autor e passa a ser “a história que meus pais me contavam”. E essa pode ser a memória mais importante que os pais podem deixar para os filhos, o momento onde acontecia uma ligação entre a imaginação do pai e a imaginação do filho. E quando lemos um livro, contamos uma história para nós mesmos e, desse jeito, não esquecemos a parte mais humana que existe em nós. Nossa imaginação. book_PNG2115