*Por Antonio Benda da Rocha
Dias atrás reacendeu novamente o sinal de alerta para o descaso com o Hino Nacional no país e a brasileiríssima síndrome de cachorro vira-lata que temos arraigada em nosso DNA, a qual parece ser transmitida entre gerações e transitar livremente, carregando esse complexo de inferioridade por todos os lugares, por eventos públicos e privados, apequenando a grandeza do povo desta magnifica pátria amada varonil.
Enquanto deveríamos nos comportar, ostentar e bradar bem alto, em um grande megafone, nossas riquezas e virtudes, ferimos o sentimento de cidadania, em total desprezo à nossa identidade brasileira, pois sequer compreendemos ainda que, por exemplo, respeitar os símbolos nacionais, como o nosso hino, é uma manifestação responsável de grandeza e cidadania que nos desvencilha deste pessimismo obtuso canino e encarna o orgulho de um grande espírito cívico brasileiro.
O momento icônico foi quando dois conhecidos cantores brasileiros, na abertura de um jogo de futebol entre Brasil x Panamá, no último dia 31, demonstraram falta de ritmo e replicaram a façanha de descaso com um de nossos maiores patrimônios, o Hino
Nacional.
Vale lembrar aos desavisados que a canção do Hino Nacional, um dos símbolos da república, ao lado da bandeira e do selo nacional, são símbolos que representam a nação brasileira, a pátria que amamos e respeitamos. O Hino Nacional já foi vilipendiado em várias ocasiões e lugares. Alguns casos emblemáticos como na Alesp, em 2009, no Brazillian Day, em 2014, com constrangimentos da brasilidade lá na terra do Tio Sam, até em 2023, na abertura do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, embora a autora tenha dito que foi “top”.
Há suspeitas até de que um ex-presidente tenha trocado a palavra “plácida” por “flácida”. Teve linguagem neutra para o hino. E, agora, em um jogo de futebol. Foram momentos em que a letra foi esquecida, chilreada erroneamente, entre tantas outras indiferenças e
expressões da síndrome de guaipeca. É comum se observar alguns deslizes no cantarolar do Hino Nacional, “um pouco” toleráveis, como a troca do pronome demonstrativo “nesse” por “neste”, o clássico “braços fortes” e a pane mental de dúvida de quem vem antes: se é a estrofe do “Brasil, um sonho intenso” ou “Brasil, de amor eterno”. Sem ainda se admirar da errônea prática de voltar-se (autoridades e público) na direção da Bandeira Nacional por ocasião da execução do hino, com definições distintas ao público civil e militar.
Aliás, em regra, na calmaria plácida (e não flácida) tudo é “nesse” e, ao final, é “deste” e o “braço é forte”, em alusão metafórica à firmeza e energia do povo brasileiro, e note que se “sonha antes, para amar depois”. E não se esqueça, caso o ambiente seja fechado, de voltar-se para o principal ponto da cerimônia, pois ninguém se volta para os dispositivos de bandeiras, banda de música, coral ou cantor.
Vozear o hino com estes percalços, desde que não seja cantor profissional, autoridade, ou cerimonialista, é abarcado por uma margem de “tolerância na cidadania”, mas quanto à postura e ao comportamento, a atitude é inegociável e inconcebível. A regulação do uso dos símbolos nacionais, com suas especificações e regras de utilização, ao exemplo do Hino Nacional, está na Lei nº5.700/71 (e em outras normas), estando claro que durante a sua execução, cantada pelos presentes ou somente tocada, todos devem tomar atitude de respeito, de pé e em silêncio, em uma postura de cidadania.
A norma não traz reprimendas aos potenciais infratores, mas a sua não aplicação remonta àquela ideia nacional de “lei que pega e lei que não pega”, do jeitinho brasileiro de Roberto DaMatta. Mas nem precisaria de punição, pois, no desprezo ao hino de sua
própria nação, cada ser incorpora automaticamente os predicados de um cão vira-lata e serve de chacota e críticas mundo afora, embora compreensível que o exterior não seja um paraíso e nem que as pessoas que lá habitam sejam melhores que nós.
Para tanto, não basta ser um povo gigante pela própria natureza, belo, forte e impávido colosso. Nem sempre o que parece é, mas o que é precisa parecer ser. Se somos uma nação que prima, entre outros, por valores como a soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político, necessitamos urgentemente de uma mudança de postura, sobre várias frentes, para não sermos mais cães vira-latas, mas homens e mulheres honrados, expressando de várias formas o orgulho de pertencermos à nação brasileira, inclusive ao cantar o Hino Nacional.
*Antonio Benda da Rocha é Oficial da PMSC, diretor do Colégio Policial Militar Feliciano Nunes Pires (CFNP-JGS), especialista em Gestão de Ordem Pública, Direito Penal, Gestão Operacional de Trânsito e Mestre em Direito Público pela Furb.