“♫ Fardo pesado de carregar/ Essa coisa do aparentar/ Nesse corre-corre, nem dá tempo de olhar/ Mas a vida interna abre pra outro lugar// Silêncio, silêncio, eu quero escutar/ O tudo e o nada interno que há/ Para pra pensar se esse é o teu lugar (Te conecta, Pitty)

Nem todos que divulgam fake news pelas redes sociais e aplicativos de mensagem devem ser presos. Se a regra fosse essa (e, às vezes dá vontade que fosse), muitas pessoas das nossas famílias seriam, correto? Da sua, da minha, da de todo mundo que tem parentes com celulares e acesso à internet. As mentiras podem ser de qualquer natureza, mas, nos últimos anos, a enxurrada é do campo político mesmo, independentemente de que lado do espectro colorido esteja a pessoa.

Já vi coisas bizarras em grupo (que desisti de alertar sobre fake news e saí) como a seguinte. O vídeo: pessoas com traços orientais com um grande trator em uma floresta. O ano e o comentário: 2015 ou 2016 – “Vejam só que absurdo! Esse governo está enchendo de chineses em nossas florestas e vai nos vender para os comunistas”. O mesmo vídeo: 2019 – “Vejam só que beleza! Agora sim esse país vai para frente. Nosso governo está levando o progresso para áreas remotas!”. Os textos não eram exatamente assim, mas esse foi o contexto. O vídeo muito provavelmente sequer tinha a ver com o Brasil.

Bom, dizer o quê? Tem gente que acredita que o homem não foi à Lua, que a Terra é plana, que cloroquina salva, que Bolsonaro não levou uma facada, que Lula está internado há meses em estado grave em algum lugar escondido!

O círculo e a necessidade de pertencimento

Essa é primeira perna do tripé. Boa parte das pessoas que passa ingenuamente (tudo bem, de ingênuo ninguém mais) fake news adiante sente a necessidade de fazer parte de um grupo e, mais do que isso, de estar de acordo com seus pares. Obviamente, com o que os algoritmos fazem nas redes sociais, essas pessoas acabam se fechando em seus círculos de amizade e de família que pensam da mesma forma. É o que chamo de embolhamento: as pessoas entram e não conseguem mais – sem algum esforço – sair dessas bolhas.

E como elas, em contrapartida, recebem dos seus símeis informações e postagens da mesma linha, acreditam que estão no mundo (paralelo) correto.

Conhecimento raso

A segunda é a falta de conhecimento. Engana-se quem acredita que informação e conhecimento são a mesma coisa. O conhecimento decorre do apuramento das informações, coisa bastante rara hoje em dia. É cada vez maior o número de pessoas que baseia suas conclusões na manchete da matéria. Dizem as pesquisas que é alarmante o crescimento do número de pessoas que acredita mais na mensagem recebida pelo WhatsApp do que em uma matéria fundamentada com dados e fatos. As pessoas não estudam nada, não leem um livro, não fazem uma pesquisa em sites sérios e discutem de política a pandemia, passando por temas constitucionais e política internacional como se fossem doutoras.

A falta de preocupação com o conhecimento está sendo nefasto para a sociedade e para as relações entre as pessoas. Já tentou conversar com alguém que não tem conhecimento algum e certeza de tudo?

O ócio

A última perna do tripé é o ócio. Infelizmente, não aquele ócio criativo tão recomendado a crianças e adultos. Mas a simples falta do que fazer mesmo que, com a necessidade de fazer parte de algum grupo, o conhecimento raso e um celular na mão, está trazendo resultados catastróficos para a sanidade das pessoas. Tempo demais disponível sem disposição para atividades construtivas tem levado pessoas a ficarem o dia todo passando mentiras para seus grupos de amigos e de família sem se darem conta do prejuízo que causam a terceiros e a si próprios.

Reflita, caro leitor, quem são as pessoas de quem você mais recebe informações claramente falsas e descontextualizadas; ou quem passou meses nas frentes dos quartéis criando teorias da conspiração e replicando-as pelo mundo virtual; ou quem quer te convencer a todo custo, sem consistência, que direita ou esquerda é melhor dos mundos. Ficou mais claro, né?

Os profissionais

Essas pessoas que passam inconscientemente mentiras adiante pelos seus aplicativos de mensagem ou redes sociais são, em regra, vítimas dos profissionais das fake news, de pessoas que são pagas para provocar o caos informacional no mundo virtual com ares de notícia séria, buscando alguma consequência drástica no mundo real.

Esses profissionais estão levando nossos amigos e parentes à loucura e à neurose e de fato conseguirão se ficarmos parados rindo das bizarrices que vemos todos os dias em nossas telas.