A mãe diz pra eu fazer alguma coisa, mas eu não faço nada/ A luz do sol me incomoda, então deixa a cortina fechada/ É que a televisão me deixou burro, muito burro demais/ E agora eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais” (Televisão, Titãs)

A inteligência a que me refiro no título é a artificial, IA em sua abreviação, ou AI, se quiser ser chique em inglês. Com as polêmicas, o sucesso (pelo menos em repercussão) e a movimentação em torno da IA queridinha do momento, o ChatGPT, muita coisa nos obriga a pensar e refletir – ou deveria nos obrigar.

Para quem esteve desconectado da internet nos últimos meses e não sabe do que falo, o ChatGPT é um chatbot, ou um robô de bate-papo, que consegue ter uma conversa bastante razoável com um interlocutor humano. Nada daqueles chats insuportáveis de lojas virtuais ou de atendimento de operadoras de telefonia que são mais burros do que a porta para a qual você vai olhar agora. Essa nova geração de chat com IA impressiona pela forma que consegue manter um diálogo natural, inclusive em português. E assusta pelo mesmo motivo. Sim, nessas versões há erros, algumas coisas desconexas, mas, ainda assim, são muito impressionantes. E as promessas do que vem pela frente são muito assustadoras. O Teste de Turing vai virar coisa do passado. Ou já virou.

A IDIOTIZAÇÃO ARTIFICIAL

Por outro lado, de tão bons que os chatbots com IA estão tornando, a inteligência humana está, me parece, começando a correr reais riscos (embora a paspalhice humana tenha abundado muito ultimamente...). Se deixamos de utilizar nosso cérebro para coisas banais que há não muitos anos era muito comum, como decorar os números de telefone dos parentes e amigos ou saber de cabeça diversos trajetos, inclusive com os pontos de referência mentalizados, agora o negócio vai chegar em outro nível.

Como esses chatbots que estão aflorando utilizam-se do que a própria internet proporciona, não dá para falar efetivamente em criatividade de suas manifestações. Além disso, eles (pelo menos por enquanto e sem proximidade razoável disso acontecer) não têm consciência e nem genuína ironia ou sarcasmo. Se associarmos tudo isso (que não é pouco) à preocupação de torná-los politicamente corretos e de criar mecanismos de controle (que deve ser bastante considerado), a linguagem desses robozinhos, ainda que excepcionalmente natural e fluente, vai ficar um tanto, digamos, limitada.

Nessa linha, as pessoas, dos ricos aos pobres, que já estão emburrecendo, seja porque vivem e se deixam viver em bolhas virtuais e sociais, seja porque não se preocupam mais com arte, leituras e interpretações, seja porque têm certeza de tudo, e seja porque vão cada vez mais se fiar pelos chatbots inteligentes, muito provavelmente perderão a perspicácia e se tornarão imbecilóides artificiais: completamente estúpidos ou completamente ingênuos.

Parece que não demorará a hora de vermos os dois minutos diários de ódio do cada vez mais próximo 1984, conduzidos (ou controlados), obviamente, por um Grande Irmão IA.