É você olhar no espelho/ Se sentir/
Um grandessíssimo idiota/
Saber que é humano/ Ridículo, limitado/
Que só usa dez por cento/ De sua cabeça animal/
E você ainda acredita/ Que é um doutor/
Que está contribuindo/ Com sua parte/
Para o nosso belo/ Quadro social”
(Ouro de tolo, Raul Seixas).

“O grande escritor pernambucano Nelson Rodrigues costumava falar que vivemos numa época dominada pelos idiotas. Quem são esses idiotas? Como reconhecê-los? O que eles costumam falar? Antes de tudo, eles são maioria esmagadora e, como a democracia é um regime fundamentado na maioria, são vencedores pela simples força numérica.

A luta contra os idiotas é uma batalha perdida. Falam demais. Acreditam que, apenas porque têm boca, podem emitir opiniões sobre tudo. Como viraram engenheiros e médicos e professores, porque o ‘conhecimento’ virou ferramenta de ascensão social, hoje os idiotas têm diplomas.”

Esse trecho do texto “A caça” de Luiz Felipe Pondé (do livro ‘Contra um mundo melhor’) espelha muita coisa do que está se vendo hoje nas redes sociais.

E olha que Nelson Rodrigues nem conheceu a grande rede. Umberto Eco sim, e ele cravou que a internet deu voz a uma legião de imbecis. Rodrigues, Eco e Pondé partilham do mesmo entendimento que, muitas vezes, ficar quieto é melhor do que mostrar sua insanidade.

A imbecilidade não é privilégio dos diplomados. Entretanto vindo deles, a situação se torna ainda mais dramática. O fato é que se generalizou. As pessoas perdem o pudor atrás de uma tela. Falam coisas que normalmente não falariam diante de suas vítimas do mundo virtual. Nascem muitos corajosos todos os minutos nos facebooks e whatsapps da vida.

Para piorar a situação, alguns desses incautos corajosos ganham respaldo de outros (menos) corajosos, que os estimulam, seja para ver o ridículo em que vão se enfiar, seja porque concordam mesmo, mas esperaram alguém se manifestar primeiro.

No final das contas, a internet parece uma arena de gladiadores, onde alguns vomitam todos os seus problemas pessoais, outros rebatem no mesmo baixo nível e a torcida fica com seus polegares para cima ou para baixo, conforme a onda.

Antigamente vencia o que berrava mais alto (ou era mais forte). Hoje vence o que berrar mais vezes. Enquanto isso, a plebe ensandecida entra num delírio coletivo.

Os discordantes ou que tentam prezar pela lógica ou bom senso são taxados de tudo e acusados de qualquer coisa, dependendo apenas do lado que acusador raso está. Por isso muitos silenciam e a impressão que fica é que a arena está tomando proporções incontroláveis.

Hoje Nelson Rodrigues teria algumas respostas para as perguntas do Pondé.