Foto pexels.com
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“Hoje o tempo voa, amor/

Escorre pelas mãos/
Mesmo sem se sentir/
Não há tempo que volte, amor/
Vamos viver tudo que há pra viver/
Vamos nos permitir.”
(Tempos modernos, Lulu Santos).

Há, sem dúvida, muitas imagens que nos condenam. Algumas caem no ostracismo, outras se tornam tão comuns que não chamam mais a atenção ou impactam poucos. Talvez seja uma dessas a da qual vou falar.

O restaurante vazio.

Minha mulher e eu, em outra cidade, no retorno de uma viagem bate-e-volta, paramos para almoçar por volta das 17 horas. Apenas nós no restaurante. Tranquilamente mais de trinta ou quarenta mesas vazias. Uma família chega. Pai, mãe, filho adolescente e avó. Sentam-se exatamente ao nosso lado; justamente no lado mais perto da nossa mesa.

A avó.

A avó, uma senhora de seus sessenta e poucos anos, cabelos grisalhos um pouco desgrenhados, nem compridos nem curtos, com uma japona vermelha e mãos nos bolsos. Tentou mais de uma vez iniciar uma conversa com a parentada.

Com o neto, com o filho ou genro, com a nora ou filha. "Ahã" era o recebia em troca. Na realidade, acredito que as frases mais elaboradas aconteceram quando a garçonete tirou os pedidos.

O resto da família.

O resto da família, bem, o resto da família... estava concentrada cada membro no seu próprio aparelho celular. Mãe, pai, filho. Como o restaurante tinha uma iluminação mais tranquila, a luminosidade azulada dos smartphones refletia nos rostos da família, chamando a atenção como mini-holofotes. A avó tentou mais alguns contatos e desistiu. Ficou olhando para o além, um pouco desconcertada.

Dei uma geral com os olhos no restaurante. Já havia mais pessoas a esta altura. Pequenas famílias e grupos de amigos. Numa das mesas, curtindo bem alegres, um dos grupos de amigos, provavelmente aproveitando alguma promoção de happy-hour, todos concentrados nos seus celulares. Poderiam ter feito o encontro em casa. Cada um na sua.

Nova moda.

Já há restaurantes que se preocupam com a situação. Dão descontos àqueles que deixarem seus smartphones trancados em uma caixinha. Assim, todos podem realmente conversar entre si nos encontros. E consumir mais, afinal, no celular muita gente se esquece de comer e beber.

Conclusões.

Eu vejo um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera, com habilidade pra dizer mais sim do que não. Mas dizendo pessoalmente, e não pelas telinhas.

Por fim, para que meus leitores não digam que isso é uma fantasia, tirei uma foto da família. Está lá no Instagram. É a imagem que nos condena como humanidade e que vemos cada vez com mais frequência.