Surrupiaram a dialética

Surrupiaram a dialética Surrupiaram a dialética

Colunistas

Por: Nelson Luiz Pereira

domingo, 10:30 - 25/02/2018

Nelson Luiz Pereira

Os olhos atentos e críticos dos que vivenciam o cotidiano da informação e comunicação, sempre captam com maior nitidez, e sentem com maior desilusão, o quão aniquilado encontra-se o debate sobre qualquer tema complexo da sociedade. A meu ver, existem duas forças conjugadas que aniquilam a dialética: a intolerância e a ignorância. A primeira é produto da segunda. A segunda é uma desgraça natural. É por conta dessas forças que o nível de ‘imunidade doutrinária’ de boa parte da sociedade, encontra-se tão baixo. Essa baixa imunidade doutrinária desencadeia neuropatologias sérias, comprometendo sobremaneira os campos do discernimento, do senso crítico, da argumentação e da linguagem, tanto escrita quanto verbal.

Confesso que reservo diariamente uma hora e meia de meu tempo para recreação intelectual. Ocupo esse tempo buscando, em ‘off’, os temas mais polêmicos do momento rolando nas redes. Ingiro uma pastilha antitóxico e acompanho a ‘tripa’ cacográfica se alongando na tela do smartphone. Uma autêntica reedição do que já dissera Lulu Santos e Waly Salomão lá nos idos dos anos 80: “assaltaram a gramática, assassinaram a lógica, sequestraram a fonética e violentaram a métrica”. Entre ‘tripas’ cacográficas e retóricas evasivas, este tem sido o fórum de debate da polêmica ideologia ou identidade de gênero, como queiram. Foi o agito da semana.

Não tenho uma opinião acabada sobre o tema, por me faltar mais estudo e debate acerca. Tampouco pretendo me reportar ao mérito da decisão decretada. O que tenho, respeitando os membros da casa, é a convicção de que um tema dessa natureza não compete intervenção de Câmara e com tal celeridade. Penso que se a preocupação é com o ‘sexo dos anjos’, temos um estupro a cada três dias ocorrendo em nossa urbe. Vejo esta sim, como uma pauta urgente.

Quem sabe eu esteja subestimando a prioridade do tema ‘gênero’, já que dele deriva uma miríade de fobias no campo da sexualidade. Já se diagnosticou a homofobia, a bifobia, a transfobia, a lesbofobia e, por conseguinte, a heterofobia. E ao final dessa cadeia de fobias aparece a eretofobia que vem a ser, por assim dizer, a fobia a todas essas fobias juntas, ou seja, repulsa a tudo que se relaciona a sexo. Mas seria muita pauta. É impressionante como esse conjunto de patologias sociais, própria de uma sociedade androcêntrica e ainda muito preconceituosa, tem, ultimamente, inflamado os ânimos de guerra entre os fundamentalistas ultraconservadores e os progressistas liberais. Do alto da colina que divide os dois campos antagônicos é possível, graças a uma visão privilegiada e pastilhas antitóxico, identificar o perfil e furor de cada exército mobilizado. De um lado, os encapuzados, doutrinados ao heterossexismo ortodoxo eclesiástico, pregadores da ‘binarização’ compulsória dos gêneros. De outro, os desnudados, insurgentes ao heterossexismo, postulantes da alteridade e tolerância, porém, com necessidade exacerbada de exteriorização, por vezes ultrapassando a linha do pudor. Como em todas as guerras, essa também não terá, em essência, vencedores senão por meio da dialética.

Lamentavelmente, nessa batalha, a imprensa sempre será alvo de ataques por parte dos dois exércitos, justamente por levantar, o tema e instigar o debate. Particularmente, além de explorar muito sobre o respectivo tema, tenho tido a curiosidade de visitar escolas e procurado conversar com diretores, professores e alunos. Em minha prévia percepção, não consigo identificar outro propósito fim do polêmico conceito de gênero, senão imbuído de uma única mensagem: ‘respeito às diferenças’. E isso vale para os dois exércitos.

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