Em tese, qualquer cidadão provido de certa dose de senso crítico e serenidade, irá se deparar com uma anomalia que vem acometendo as alas extremas da política brasileira. Expressões já em desuso em países de primeiro mundo, as extremas esquerda e direita, vem se polarizando e se repelindo no Brasil, por conta da mesma patologia, a ‘mitomania’. Traumas herdados pelo ‘discurso da inferioridade latino-americana’, somados à estéril colonização ibérica, moldaram um povo refém do marketing apelativo e sedento por mitos.

No contexto político, este distúrbio não poupa classe social, cujo contingente é capaz de eleger um presidente. Aumenta sobremaneira o poder de ação do marketing na construção de mitos, quando há desilusão com as instituições democráticas. É por conta desse fenômeno que, por ora, cerca de 50% da preferência popular volta-se a dois mitos: o vilão enclausurado e o falastrão desconcertado. Venerados por grande parte da massa do eleitor comum, são dois mitos antagônicos que nada tem promovido senão o discurso do ódio. Ao menos até aqui, a tendência é de que a mitomania e o voto em branco sejam os protagonistas do próximo pleito.

Independentemente de partido ou corrente ideológica, votar em mitos ou em branco é continuar maquiando uma realidade já dissimulada. Cidadãos eleitores acometidos por este distúrbio mal sabem que a mitomania, de acordo com o psiquiatra francês Ernest Dupré, “é uma tendência constitucional que possuem certas categorias de indivíduos, a mentir, a simular e a inventar pela atividade patológica da imaginação criativa, as fabulações e as situações”. Diz ainda que, “os mitômanos são sujeitos doentes, propensos a alterar a verdade e deste modo a enganar as pessoas em meio a eles”. E finaliza alertando que “se trata de uma inclinação patológica, em que as estórias contadas pelos mitômanos são carentes de conteúdo e inverossímeis. Em alguns casos, essas estórias podem até ser bem elaboradas”. No caso do eleitor, este seria induzido à convicção.

Na política não precisamos de mitos, e sim de gente real provida de competência, visão, ética e moral. Oras, se chamamos de mito a um vilão enclausurado ou a um falastrão desconcertado, que alcunha daríamos a um Ayrton Senna, a um Chico Xavier, a uma Zilda Arns, a uma Maria da Penha? Que epíteto daríamos ao professor brasileiro, ao voluntário que se dedica a uma causa, a cada bravo empresário ou cidadão comum que, de sol a sol, cumprem com honestidade sua missão e seus pesados impostos? Enfim, se a esperança de transformação é creditada a um mito político, então que designação caberia à pequena pernambucana Rivânia, que surpreendida pelas enchentes de 2017, e resgatada às pressas de sua humilde residência, optara em salvar seus livros? Um gesto que se converte em mensagem à Educação brasileira que, muito provavelmente, continuará sob comando dos pseudo mitos se não buscarmos algo novo.