A baixa imunidade doutrinária vem acometendo a sociedade brasileira com uma miríade de fobias no campo da sexualidade. Já temos diagnosticadas a homofobia, a bifobia, a transfobia, a lesbofobia e, por conseguinte, a heterofobia. Ao final dessa cadeia de fobias aparece a eretofobia que vem a ser, por assim dizer, a fobia a todas essas fobias juntas, ou seja, repulsa a tudo que se relaciona a sexo. Esse conjunto de patologias sociais, própria de uma sociedade androcêntrica e ainda muito preconceituosa tem inflamado os ânimos de guerra entre os fundamentalistas ultraconservadores e os progressistas liberais.

Do alto da muralha que divide os dois campos antagônicos é possível, identificar o perfil e furor de cada exército. De um lado, os encapuzados, doutrinados ao heterossexismo ortodoxo eclesiástico, defensores da ‘binarização’ compulsória dos gêneros, e de outro, os desnudados, insurgentes heterodoxos postulantes da tolerância e reconhecimento a alteridade, porém, com necessidade exacerbada de exteriorização. Como em todas as guerras, essa também não terá, em essência, vencedores, pelo contrário, ela vem se alastrando para outras dimensões. Por isso, a cobertura midiática não sairia ilesa desse conflito. Por conta dessa polarização de doutrinas ideológicas, desenvolveu-se outra recente patologia, a ‘globofobia’. Na percepção do senso comum, a Rede Globo, que até ontem colaborou com a destituição do poder vermelho, hoje, num piscar de olhos, alia-se a este com o propósito marxista de destruição das famílias. A linha ortodoxa sustenta que o teor do manifesto marxista foi traduzido para atualidade sob a denominação ‘ideologia de gênero’. Quanta insanidade.

Além de me informar muito sobre o tema, tenho tido a curiosidade de visitar escolas e procurado conversar com diretores e professores. São unanimes em sustentar que não necessitam abordar esse conteúdo para as crianças e adolescentes pois estes são naturalmente despidos de qualquer preconceito. O problema reside nos adultos. Não consigo perceber outro propósito do polêmico conceito de ideologia de gênero, senão imbuído de uma única mensagem: respeito às diferenças. E isso vale para os dois exércitos.

Como bem lembra uma poesia de Bráulio Bessa, “é respeitando o diferente que o homem anda pra frente”. A moral que norteia esses dois exércitos me remete a uma passagem da obra “Pecar e Perdoar” do filósofo Karnal, onde nos propõe uma interpretação contemporânea acerca da parábola do filho pródigo. “O mais novo, o humano, pleno de vitalidade, vazio de bom senso, empreendedor, fracassado, arrependido. O mais velho, o acomodado na virtude, no emprego da empresa familiar, cumpridor de horário, roupas sempre corretas, provavelmente casado e fiel, que, mesmo adulto ainda mora com o pai. A imagem da virtude e... da chatice. É curioso que os fariseus, de ontem e de hoje usam essa parábola encarnando um discurso que os aproxima mais do irmão mais velho do que do caçula. Os moralistas, aqueles que Jesus condenou, pregam com esse texto. Assemelham-se a um fenômeno que sempre me intrigou: assistir em um teatro luxuoso, tomado por plateia bem arrumada e perfumada, uma peça de Nelson Rodrigues que acaba com a moral da família e da classe média. A mesma classe média bate palmas, feliz e extasiada com um texto que a combateu, bem como a seus valores. Saem felizes como público, sem terem entendido que são, no fundo,  as personagens”. Mantenho-me no alto da A inflação está voltado para a meta. A taxa muralha com a ‘palavra aberta’.